Uma vida marcada

Lynsey Stevens



Alguns disseram que tinha sido o destino. Outros, a vontade de Deus. Mas nenhuma explicao diminua a agonia de Jo. Devia haver algum motivo alm de sua compreenso
para ela sobreviver ao horrvel acidente que matara seu marido e seu filhinho. E de que adiantava viver, se estava sozinha e com o rosto marcado por uma cicatriz?
Nunca mais poderia voltar aos palcos. Nem queria. Seu nico desejo era se esconder do mundo. Por isso, tinha ido se isolar naquela praia. Que no era to isolada
como imaginava. Havia Sam, a menininha carente de afeto. Havia Ja-ke, o tio de Sam. E os dois invadiram a vida de Jo, exigindo amor. S que ela no tinha coragem
de amar. No ousava mais ser feliz.



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Uma vida marcada
                                       "Starting Over"
Lynsey Stevens




                                                                              CAPTULO I
      
      
      J fazia uma semana que ela estava na casa, quando viu a criana, O tempo estava to ruim que no era surpreendente no ter aparecido ningum na praia durante 
todos aqueles dias. Ela j chegara embaixo de chuva, e a nvoa cinzenta continuava cobrindo o horizonte acima do mar.
      Agora estava parada, muito tensa, olhando pela grande janela da sala de visitas, vendo a figura pequena andando peia beira da gua. De vez em quando, a criana 
dava um salto ou se inclinava para pegar uma concha ou uma pedrinha e guard-la cuidadosamente num balde vermelho que balanava na outra mozinha.
      Daquela distncia, no conseguia distinguir se era um menino ou uma menina, pois usava um short azul, uma camiseta e um chapu. Continuou olhando, querendo 
se afastar, mas incapaz de faz-lo, consciente daquele peso da dor no corao. A criana sentou~se, sem parecer notar nada  sua volta, distrada com o contedo 
do balde.
      Ela soltou a cortina e afundou-se numa poltrona. Por que tinha que ser torturada desse modo? S viera para a casa da praia porque era isolada, e assim poderia 
entregar-se  solido. Levara um bom tempo convencendo Maggie e Ben de que j estava suficientemente boa para ficar sozinha e que seria uma boa terapia acabar de 
escrever o romance que j comeara h meses, quando a vida ainda tinha algum significado para ela. Bem, nem mesmo havia tirado o manuscrito da mala, e no tinha 
a mnima inteno de faz-lo, a no ser que fosse necessrio.
      Queria simplesmente ficar sozinha, longe do mundo, daquele mundo cheio de ontens, de dias seguidos, tentando continuar vivendo como se toda sua existncia 
no tivesse sido feita em pedaos; longe dos amigos bem-intencionados que sugeriam gentilmente que ela devia reconstruir a vida, comear de novo. Comear de novo? 
Ser que eles no conseguiam entender que ela no tinha qualquer desejo, nenhuma motivao para recomear?
      Seus olhos azul-acinzentados percorreram vagarosamente a sala de visitas. Se ainda fosse capaz de se emocionar com a beleza, aquela casa seria o ideal. A estrutura 
em forma de "A", pintada de branco e com madeirame envernizado, estava construda afastada da praia, numa elevao coberta de grama muito verde, que lhe dava um 
aspecto de algo sado das ilustraes de um livro infantil. Era pequena e afastada de tudo, e por isso servia muito bem a seus propsitos. Ou, pelo menos, tinha 
servido at agora. Naturalmente, se a criana aparecesse de novo, teria que ir embora e procurar outro lugar para ficar. Mas onde?
      Balanou a cabea, trazendo seus pensamentos de volta  segurana da casa. O terrao coberto que dava para o mar levava  sala de visitas, coda em madeira 
rstica e vigas expostas, e o assoalho encerado estava coberto de tapeies de pele de carneiro. A escada levava ao nico quarto e, nos fundos, ficavam a cozinha, 
o banheiro e uma pequena lavanderia.
      Concentrou-se em cada detalhe, e o tempo passou sem que notasse. Adquirira esse hbito nos ltimos dezoito meses. Desse modo, podia perder a noo de grande 
parte de seus dias, o que era um alvio para o sofrimento.
      Ao perceber que j estava escurecendo, ela se forou a voltar  realidade. Tinha que comer alguma coisa e, naturalmente, precisava se preparar para o dia seguinte, 
quando Maggie e Ben viriam para se certificarem de que ela estava bem. Sabia que Maggie ia querer ver alguma prova de que sua permanncia na casa estava sendo benfica, 
ou ento comearia a insistir para que voltasse.
      O fato de morar com eles j estava se transformando numa carga para todos. No podia continuar se apoiando na irm de criao. Maggie linha que cuidar de Ben, 
seu marido, e das duas filhas.
      O mais estranho de tudo era que ela no queria realmente se apoiar em ningum e, ao mesmo tempo, temia ficar sozinha. Desejava simplesmente continuar existindo 
dentro de um casulo quente e totalmente vazio, onde no tivesse que pensar ou sentir. No queria olhar para a frente e no podia se permitir olhar para trs. Se 
comeasse a pensar no passado, podia ficar louca novamente, e tinha um medo enorme disso. Apesar de no esperar mais nada da vida, ainda se apavorava com a idia 
de voltar quele negro rodamoinho de horror que, sem piedade, a fazia viver o mesmo pesadelo sem parar.
      No pense! No pense!, repetia a si mesma. Esse era o nico jeito
      que encontrava para se acalmar. Durante aqueles meses, tinha conseguido cultivar um meio quase mecnico de desligar a mente.
      Uma campainha tocava em algum lugar e sua insistncia a arrancou do devaneio. Sem acender a luz, tateou sobre a mesinha-de-cabeceira, at alcanar o telefone.
      -  Al.
      -  Jo? Jo,  voc?
      -  Sim, Maggie, sou eu.
      -  Oh, Deus, parece que a acordei! Sinto muito, Jo, mas precisava avis-la de que no podemos descer para a praia neste fim de semana. Imagine s. Tracy est 
com sarampo!
      -  O qu? Pensei que ela j tivesse tido.
      - No, foi Kerry que teve, no comeo do ano passado. Mas, Jo, e voc? Est tudo bem a? - Maggie parecia sinceramente preocupada.
      -  Sim, estou tima.  Choveu muito e aproveitei  para descansar bastante. Talvez. .. talvez eu v  praia hoje. - Sentiu-se um pouco culpada, pois no tinha 
a mnima inteno de fazer isso.
      -  Ah, que bom! Estou contente. - A voz de Maggie veio to alegre, que Jo sentiu-se mal por ter mentido. - No est muito solitria, no ? Porque posso deixar 
Ben com as meninas e ir sozinha.
      -  No estou  solitria - respondeu,  com  sinceridade.  - No precisa vir, Mag. No seria certo deixar Tracy sozinha, e voc s iria ficar se preocupando 
o tempo todo. Estou muito bem,  verdade. Aqui  bem tranquilo.
      -  Bem, se tem certeza... - Maggie parecia hesitante. - J viu algum por a?
      -  No!   -  Jo  respondeu,   rapidamente.   -  No.   Mas   esteve chovendo muito.
      -  S   imaginei   que   pudesse   ter   visto   algum   da   velha   casa O'Connor. Sabe, aquela que fica do outro lado da baa e que estava  venda. Mostrei-a 
a voc, quando estvamos chegando.
      -  No, Maggie. No sei se h algum l...   acho que nem d para v-la, daqui.
      -  No. Fica atrs daquela colina cheia de rvores, a que comea depois dos rochedos. Bem, foi s por curiosidade. Ela  linda e to grande! Ben e eu sempre 
gostamos dela. Se tivssemos mais dinheiro, pensaramos em compr-la. Acho que vamos ter que nos contentar em fazer uma reforma na nossa. Precisamos de mais uns 
dois quartos. J est pequena para a famlia, e papai gosta de ir, quando estamos todos juntos. Espere um instante, Jo. - Houve um murmrio abafado no outro lado 
da linha. - Al?
      -  Sim.
      -  Ben est  dizendo  que  o tempo  deve  estar  bom  para  pegar mariscos.   Lembro-me   de   vocs   dois   metidos   na   gua   fria,   at a cinuira, 
h alguns anos. Nunca compreendi como algum pode se divertir desse jeito.
      Jo podia ver a irm estremecendo.
      -  Ns nos divertimos muito, no ? Diga a Ben que talvez eu v, se me sentir mais disposta. Acho... acho que ando muito preguiosa.
      -  Bem,  para isso que voc est a. Procure descansar bastante. Jo, preciso desligar agora, as crianas esto chamando. Tem certeza de que ficar bem?
      -  Sim, Maggie, pode ficar sossegada. - Jo  procurou  mostrar entusiasmo.
      -  Certo, ento. Se tudo estiver bem, ns a veremos no outro fim de semana. Olhe, querida, prometa me telefonar, se precisar de alguma coisa. Oh, Jo, ia me 
esquecendo!
      -  Sim?
      -  Eu. ..  h...  Jo, Aaron Daniel me ligou ontem... Instintivamente, a mo de Jo levantou-se para tocar o lado esquerdo
      do rosto, os dedos percorrendo a pele franzida que ia da tmpora at o queixo.
      - Voc no disse a ele onde eu estava, no . Maggie?
      -  No, claro que no. Mas, Jo, por que no telefona a ele, nem que seja para conversar um pouco? Est sempre perguntando por voc.
      -  No,   no   posso.   Terminei   com   tudo   aquilo.   Ele   j   est sabendo...  acabar desistindo.
      - Certo, Jo, se  assim que voc quer. - Maggie suspirou. - Ele  uma tima pessoa.  uma pena.
      Quando Jo no deu resposta, Maggie despediu-se e desligou.
      Jo ps o telefone no gancho e ficou olhando para o espao, seus dedos acariciando a face, sabendo de cor cada dobra da cicatriz. Quando a dor comeou a voltar, 
ela abaixou a mo para agarrar os cobertores.
      No pense! No pense!, continuou repetindo, como numa ladainha. Obrigou seus pensamentos a voltarem para Maggie e suspirou. Pobre Maggie! Devia  meia irm 
muito mais do que poderia calcular. Maggie era, e sempre havia sido, a pessoa mais gentil, mais dedicada, mais verdadeira que conhecia.
      Ambas estavam com quinze anos, quando a me de Jo, divorciada h cinco anos. casara com o pai de Maggie, que era vivo. Para as mocinhas, foi tudo muito romntico. 
Seus pais tinham sido colegas de
      escola e se reencontraram numa reunio anual. Seis meses mais tarde j estavam casados e tiveram cinco anos de felicidade, antes da morte da me de Jo. Depois 
de um casamento infeliz com um alcolatra que maltratava tanto a esposa quanto a filha, a vida familiar que compartilharam com Maggie e o pai pareceu uma bno 
do cu.
      As duas gostaram uma da outra desde o primeiro encontro, apesar de no poder haver duas adolescentes mais diferentes. Jo era alta e loura, e Maggie, morena 
e baixinha. Enquanto Jo planejava se tornar uma atriz de teatro, o nico sonho de Maggie era casar com seu namorado de infncia, Ben Chamberlain, e ter uma famlia 
para cuidar. Ambas conseguiram o que queriam.
      Ao fazer dezoito anos, Maggie casou com Ben. Dois anos mais tarde, j tinha as duas filhas.
      Enquanto isso, Jo frequentava a escola de arte dramtica e comeava a ser convidada para alguns papis. Eles foram melhorando pouco a pouco, at que se tornou 
protagonista de uma pea montada por uma companhia de teatro muito famosa. Foi quando conheceu Mike e. . .
      No pense! No pense!
      Agitada, saltou da cama e comeou a se vestir, dizendo a si mesma que precisava manter a calma, que seria bom descer para preparar o caf da manh.
      Mantendo a mente totalmente vazia, Jo tomou uma xcara de caf e mordiscou uma torrada. O sol comeava a aquecer a casa. Quase sem perceber, dirigiu-se a janela 
da sala, como uma mariposa atrada por uma chama. Levantando a cortina, olhou toda a extenso da praia e respirou fundo, ao ver que estava vazia. Provavelmente, 
a criana s tinha vindo passar aquele dia. No havia motivo para voltar. Sentindo-se mais segura. Jo saiu para o terrao.
      Trs dias mais tarde, foi  praia. No poderia dizer o que a fizera sair de casa, mas encontrou-se pisando na areia fofa. antes de perceber conscientemente 
o que havia feito. O sol estava bastante quente, mas havia uma brisa agradvel, e ela foi andando vagarosamente at a gua. Parou na areia molhada, deixando as pequenas 
ondas lamberem seus ps.
      Uma vez teve que recuar rapidamente, para fugir de uma onda mais forte, e descobriu-se sorrindo. Respirou fundo, enchendo os pulmes com o ar limpo e salgado, 
e sorriu novamente, experimentando uma leve centelha no fundo de seu ser, a coisa mais prxima de uma conscincia de vida que sentia em vrios meses.
      Confusa com suas reaes, franziu a testa, imaginando como a simples viso da gua  azul podia  aliviar o peso que carregava na alma. Ficou olhando para o 
mar, acompanhando as evolues de um pedao de alga e de peixinhos prateados que surgiam nadando antes de as ondas quebrarem.
      -  Por que no pe os ps na gua?
      A vozinha veio de perto e Jo gelou, girando devagar a cabea, sabendo instintivamente o que ia ver, os msculos do estmago se contraindo dolorosamente. - 
Ela no est muito fria.
      A criana usava o mesmo short, s que dessa vez a camiseta era amarela, com a estampa de um urso danando com uma tartaruga. Tinha um dos rostinhos mais feios 
que Jo j vira. Sem querer, comparou-a com Jamie, e aquela raiva antiga voltou para sufoc-la. Por que essa criana feia continuava vivendo, enquanto seu lindo beb 
estava morto?
      -  Vamos, eu seguro sua mo.
      A criana pegou sua mo e puxou-a delicadamente em direo  gua, at que as ondas comearam a molhar seus tornozelos.
      A criana riu, um som alegre, ingnuo, que tocou os nervos vulnerveis de Jo. Sentiu-se empalidecer e a boca ficar subitamente seca.
      -  No  gostoso?
      Grandes olhos azuis se levantaram para ela e a criana sorriu, acrescentando um certo encanto a seu rostinho feio. Um dos dentes da frente estava faltando 
e alguns fios de cabelo castanho escapavam por baixo do chapeuzinho de tecido atoalhado.
      Jo olhou para aquela figurinha, captando cada detalhe: os clios longos, os olhos azuis, o queixinho firme, o modo como o sol tinha clareado os plos nos bracinhos 
finos, o esparadrapo num dos joelhos.
      -   gostoso, no acha? - insistiu a criana, seu sorriso diminuindo um pouco, ao perceber a tenso da mulher.
      -  Sim. Sim,  gostoso.
      O sorriso da criana se ampliou de novo.
      -  Meu nome  Sam. Qual  o seu?
      -  Jo.
      Riu, encantada.
      -  Ento, ns duas temos nomes de meninos. - Franziu o narizi-nho. - Na verdade, sou Samantha, mas todos me chamam de Sam. Qual  o seu nome inteiro?
      - Joelle - respondeu, depois de hesitar um pouco, sentindo relutncia em conversar, mas incapaz de virar-se para ir embora.
      -  Joelle - a menina repetiu, experimentando o som da palavra. -  bonito. - Olhou para cima. - Voc tambm  bonita. Usa esses culos escuros porque o sol 
incomoda os seus olhos?
      -  Eu...  sim. Algumas vezes. - Jo levou a mo ao leno de cabea para se certificar se ainda estava no lugar, mantendo os cabelos sobre a face. Deu um passo 
atrs, e a menina largou sua mo. Sentiu um grande alvio por no estar tocando mais aquela criana, que logo foi seguido por uma ponta de remorso. Era irracional 
culpar a pobre inocente pela crueldade do destino.
      -  Tio Jake tambm usa culos, de vez em quando. Seus olhos ficam muito cansados porque ele fica acordado at tarde por causa dos livros. Voc mora ali, no 
? - Apontou para a casa.
      Jo fez que sim, desejando poder escapar, fugir da tortura, da agonia.
      -  J vi voc l. Mora sozinha? Jo balanou a cabea.
      -  Eu...  eu tenho que voltar, agora.
      -  Parece uma casa de boneca, no ? - Tio Jake tambm acha. Ns viemos andando pela praia, uma dessas noites, e voc estava com todas as luzes acesas. Ela 
parecia flutuar no ar, como se estivesse num tapete mgico. - Os olhos azuis voltaram-se para Jo. - Ns moramos l do outro lado, naquela casa grande. - Apontou 
para a outra extremidade da baa. - Tio Jake, Chrissie e eu. Tio Jake disse que precisava ficar longe daquela corrida de ratos. - A menina deu uma risadinha. - Gozado, 
no? Os ratos no apostam corridas. Por que est aqui sem ningum?
      -  Eu.. . eu estou de frias.
      -  Ah... Aqui  muito bonito, no? Tio Jake gosta porque no h ningum por perto. As pessoas podem causar problemas e ele no quer um monte de gente se intrometendo 
na nossa vida. E tambm no quer ningum l em casa. - Deu uma boa olhada em Jo. - Mas voc pode ir. Gosto de voc e acho que tio Jake tambm vai gostar. Sorriu.
      Jo experimentou um desejo quase irresistvel de atirar os braos em volta daqueles ombros magrinhos e apert-la com fora. Mas, naturalmente, s continuou 
parada, tentando analisar os sentimentos que aquele fiapo de gente estava despertando no fundo de sua alma, sentimentos que imaginava mortos e enterrados, enterrados 
com Jamie.
      O que estava acontecendo com ela? Num instante, parecia se inclinar para um lado e, depois, para o outro. Tudo andava depressa demais, por caminhos que no 
desejava trilhar novamente.
      -  Preciso mesmo ir agora - disse, tentando disfarar a confuso. - Eu...  tenho muitas coisas para fazer.
      A menininha  suspirou de um modo resignado.
      -  Est bem. Voc vem  praia outras vezes? - perguntou, com um ligeiro ar de splica.
      -  No sei. Talvez. - Jo escolheu as palavras cuidadosamente. -  bem provvel. - Ficou com pena da carinha sria,  embora  se arrependesse, quase que imediatamente, 
de ter assumido esse meio compromisso.
      -  Que bom! Ento, ns poderemos conversar de novo. Ser divertido ter outra pessoa para conversar. Chrissie est sempre ocupada e tio Jake passa um tempo 
com os livros. Acha que pode vir de novo amanh? - Os grandes olhos azuis se abriram numa interrogao.
      -  Bem, talvez. Se eu tiver tempo. At logo.
      -  At logo, Jo. - Uma mozinha se levantou num aceno. Quando chegou ao terrao, Jo virou-se para olhar para a praia.
      A menina continuava onde a deixara e o bracinho levantou-se novamente, num aceno vigoroso.
      Nos dois dias seguintes, a criana veio andar pela praia e ficou sentada, olhando para a casa por algum tempo, antes de se afastar, parando de vez em quando 
para se certificar de que Jo no estava saindo. Oculta pela cortina da janela, ela se debatia entre o desejo de ir a seu encontro e a incapacidade de se mover de 
onde estava.
      No terceiro dia, Maggie ligou novamente, toda agitada, para dizer que, por incrvel que parecesse, Ben tinha pegado sarampo tambm, de modo que a viagem para 
a praia teria que ser adiada mais uma vez. Talvez fosse pelo pensamento de ficar sozinha um outro fim de semana, mas o fato  que, quando a menina apareceu na praia, 
Jo foi a seu encontro, antes mesmo de pensar no que fazia. J estava na metade do gramado, quando a criana a viu. Levantando-se de um salto, limpou as mozinhas 
no short e veio correndo pela praia.
      -  Oi, Jo! - O rostinho parecia brilhar de felicidade. - Pensei que nunca mais viesse. Estava at achando que tinha sonhado com voc.
      Jo tentou sorrir, o que pareceu agradar  criana, e elas comearam a andar devagar na direo da gua.
      - O tio Jake voltou ontem. - Sam conversava alegremente. - Ele foi  cidade e me trouxe uma surpresa. Adivinhe o que foi.
      -  No posso nem imaginar.
      -  Vou dar uma pista.  uma coisa para se comer. - Sam enfiou um dedo na boca.
      -  Um chocolate?
      -  No. Mas est bem perto. Quer que eu conte? Jo fez que sim.
      Um pirulito. Era redondo, vermelho e branco, e com vinte centmetros de comprimento. Eu medi com a minha rgua. Ainda sobrou um pouco. Quer que eu traga um 
pedao amanh?
      -  Oh, no.  Fique com ele  todo para  voc.  Seu tio  foi muito bonzinho em lhe trazer o pirulito, no?
      -  Tio Jake  maravilhoso. Sabe, se eu fosse moa, casaria com ele. - Sam falou muito sria e depois acrescentou:  -  verdade.
      -  Vai ter que dizer isso a ele.
      -  J disse. - Sam franziu a testa. - Lexie riu de mim e disse que vou ter que esperar na fila. - Olhou para Jo. - No gosto de Lexe. Nunca sei do que ela 
est falando, e ela tambm no gosta de mim.
      Sem saber como lidar com aquela confidncia, Jo hesitou, antes de fazer qualquer comentrio, e a menininha continuou:
      -  Ouvi Lexie dizer a tio Jake que sou o bichinho mais feio que ela j viu. - Sam chutou a areia com o p descalo. - Gostaria que ela sumisse.
      -  Pode ser que voc no tenha  ouvido bem - comeou  Jo, lembrando-se de sua primeira impresso da criana e sentindo uma pontada de remorso.
      Sam encolheu os ombros.
      -  Vamos sentar um pouco, Jo. - Atirou-se na areia e bateu com a mo no cho a seu lado. Dobrou os joelhos e ps o queixinho entre as mos. - Gostaria que 
conhecesse Lexie. Assim, podia me dizer se ela  mesmo bonita. Tio Jake deve achar que . Eles esto compo...   compome...   - Deu um suspiro.  - Sabe,  eles  esto 
noivos. Pelo menos, parece que esto.
      -  Eles esto comprometidos - ajudou Jo.
      -   isso. Eu no ligo para Lexie, quando ela est perto do tio Jake. A, ela  toda boazinha. Mas fica horrvel quando ele no est. No quero que Lexie venha 
morar com a gente. Sei que ela...  - Sam parou e Jo virou-se para olh-la.
      A menina brincou com a areia e depois levantou os olhos.
      -  Ela vai me obrigar a apagar a luz quando eu for dormir. - As palavras saram apressadas e o medo surgiu nos olhos azuis. - Detesto o escuro, a no ser que 
tio Jake esteja comigo.
      -  Eu tambm costumava ter medo do escuro - disse Jo, quase a si mesma, e ambas ficaram em silncio por alguns instantes.
      -  Chrissie est fazendo a comida favorita do tio Jake para o jantar de hoje. Ele adora pastelo de carne. - Sam arregalou os olhos. - Ela tambm fez um pudim 
de maracuj.
      -  Hum, parece delicioso.
      -  Ei, quer ir jantar conosco?
      -  Oh, no, acho que no vou poder. E tambm acho que seu tio ficaria um pouco aborrecido, se voc convidasse uma estranha para jantar. - Jo sorriu, imaginando 
como esse tio, esse paradigma de todas as virtudes, para Sam, lidaria com uma situao como aquela. Uma risada escapou de seus lbios e foi como se tivesse ouvido 
uma msica. Tinha rido! Uma semana atrs, pensava que nunca sorriria de novo, e agora devia isso quela menina que, de incio, lhe despertara uma sensao de dio.
      -  Eu podia ir l em casa para pedir a ele.
      -  No, pode deixar, Sam. Vou estar muito ocupada, esta noite.
      -  O que vai fazer?
      Antes que pudesse responder, algum chamou a menina, quebrando a tranquilidade da cena. As duas se levantaram, olhando para o lado de onde tinha vindo a voz. 
A menininha sorria, cheia de alegre expectativa, mas Jo permaneceu imvel, como colada ao cho, assolada por um milho de temores.
       medida que o homem se aproximava, a uma velocidade que lhe pareceu quase sobre-humana, Jo viu que era alto, bronzeado e musculoso. Usava apenas um short 
de brim desbotado e tinha pernas fortes e compridas.
      O fato de ser muito bonito alertou o subconsciente de Jo. O corao comeou a bater loucamente, como um pssaro preso numa gaiola. Num movimento trmulo, levantou 
a mo para se certificar de que o leno estava bem preso no lugar. Sabia que precisava fugir, antes que aquela criatura magnfica chegasse mais perto. Ele pertencia 
quele outro mundo, o mundo das pessoas bonitas, onde no havia. .. Porm, suas pernas se recusaram a obedecer e comearam a tremer incontrolavelmente.
      Agora que ele estava mais perto, Jo podia ver melhor suas feies. Olhos escuros, um rosto forte e bem marcado, um queixo quadrado, lbios bem-feitos, cabelos 
escuros e cheios, com um pouco de branco nas tmporas, levemente despenteados por causa da brisa que soprava. Era um rosto bonito, mas, naquele instante, estava 
muito sombrio. O sorriso da menina desapareceu.
      -  Sam,  melhor ir para casa. Chrissie esteve procurando por voc. - Sua voz soava tensa e seu olhar passou da sobrinha para  Jo, tornando-se duro como uma 
lmina de ao.
      -  Estivemos conversando, tio Jake.. .
      -  Certo. J para casa. Eu  irei  depois - disse ele, o  tom  se suavizando um pouco.
      -  Est bem.  At logo,  Jo.  - Sam falou  baixinho  e  fez  um pequeno aceno, antes de sair correndo pela praia.
      Nenhum dos dois fez qualquer tentativa de falar, antes de a criana estar bem longe. Dois metros de areia os separavam e a corrente eltrica que atravessou 
a distncia encheu Jo de um sbito e inexplicvel pavor. Reconheceu que suas sensaes eram causadas pelo medo, enquanto as dele eram mais complexas, apesar de a 
emoo preponderante ser a raiva, A cor fugiu de seu rosto e, virando-se rapidamente, ela comeou a correr na direo da casa.
      A areia fofa impediu seu progresso, cansando os msculos de suas pernas, e a respirao ficou difcil. Se ao menos conseguisse chegar logo ao gramado... A 
mo que veio por trs dela pegou seu brao com fora. Jo parou de repente e teria cado, se ele no a amparasse.
      -  No to depressa, sua vagabunda bonita - falou, enquanto ela tentava recuperar o flego.
      -  Me largue! - A voz saiu rouca, desigual. - Me solte!
      -  No antes de termos uma conversinha.
      -  Eu. .. eu no quero conversar com voc. Me largue!
      -  Ah, no. Vamos conversar. Pelo menos, eu vou  falar e voc vai me ouvir. Agora escute, srta. Seja-l-quem-for. Pode voltar depres-sinha para aquele jornal 
ou revista de escndalo que a mandou para c e, se ousar publicar uma s palavra sobre minha sobrinha ou sobre mim, juro que vou fazer voc pagar cada tosto que 
ganhar, a vida toda, como indenizao! - Seus olhos pareciam perfur-la e cintilavam com uma raiva mal controlada.
      -  O qu? Do que est falando? - Os joelhos de Jo comearam a tremer de novo e lhe ocorreu que ele podia ser meio louco.
      -  Voc no est lidando com uma criana inocente, agora. Pode falar claro. - Ele deu uma risada spera. - E no diga besteiras. Uma s palavra, e eu a quebrarei 
em dois. Voc e seu patro.
      -  Est louco! Me largue! - Os esforos de Jo para se libertar no significavam nada para ele. Estava totalmente  sua merc e, enquanto lutava, foi puxada 
para muito perto dele, sua mo se encostando no peito nu.
      O rosto dele estava to perto, que ela podia sentir o hlito quente nos lbios, e seu corpo comeou a reagir. O homem tambm parecia excitado, puxando-a ainda 
mais para perto, para aumentar o contato fsico. Jo ficou tonta com aquele turbilho de sensaes inesperadas, mas uma parte de  sua  mente  pareceu se distanciar, 
olhando para aquela cena com repulsa. Que tipo de mulher era ela? Como podia se deixar levar assim, pelo toque de um homem qualquer, depois de tudo o que havia acontecido?
      Afastou-se bruscamente, enojada consigo mesma, arfando com dificuldade, enquanto procurava recuperar o controle. Ele tambm parecia estar com a respirao 
acelerada, apesar de no demonstrar qualquer mudana de expresso.
      Ento, riu, um riso spero, e ela sentiu um arrepio percorrer a espinha.
      - Sabe, acho que fez o jogo errado. Se tivesse me procurado para conseguir uma permisso formal, era bem provvel que tivesse conseguido. Estou certo de que 
daramos um jeitinho. - Sorriu maliciosamente, no deixando dvidas sobre o que pensava. - Gosto de uma carinha bonita, e a sua no  de se jogar fora. Por que escond-la? 
Vamos dar uma olhada no resto.
      Num gesto rpido, ele tirou os culos escuros de Jo. Ela tentou se esquivar, sentindo o desespero crescer. Tinha que impedi-lo.
      -  No! - A voz saiu quase num soluo. - No, por favor! O medo aumentou sua fora para lutar, e ela puxou  a cabea,
      fugindo daquela mo implacvel. Ouviu-o rir novamente e, no segundo seguinte, ele arrancava o leno que prendia seus cabelos.
      Eles caram para a frente numa cascata dourada. Sempre lhe haviam dito que eram o que tinha de mais bonito. Num tom de mel natural, caam sobre seus ombros 
como ouro lquido.
      Jo virou o rosto, os lbios trmulos, os olhos apertados contra a luz do sol.
      -  Ora, ora, no  que ela  mesmo uma beleza? - Pegou-a pelo queixo. - Por que esconder tudo isso? - continuou, obrigando-a a virar o rosto para ele.
      Um brilho de resignao surgiu nos olhos azuis de Jo. Todo o desejo de lutar tinha abandonado seu corpo. Nesse instante, numa brincadeira cruel, o vento mudou 
de direo e, numa lufada mais forte, afastou seus cabelos.
      Ela no tentou esconder a face marcada e ficou observando aquele homem, cheia de horror, sabendo que ele reagiria como todos os outros. Sentiu um peso no corao 
e o sangue lhe gelar nas veias.
      Teve a impresso de que aqueles olhos castanhos percorriam em cmara lenta a cicatriz que descia por seu rosto. H um segundo, eles mostravam uma expresso 
cruel e zombeteira, misturada com admirao, mas agora sabia que ele estava se controlando para no demonstrar seu choque.
      Muito calma e resignada, Jo teve que admitir que o homem se comportava muito melhor do que os outros. Quando sentiu que j no a segurava com tanta fora, 
afastou-se com um gesto firme e tomou a direo da casa, dando dois ou trs passos vagarosos, antes de comear a correr, ansiando por voltar a seu santurio para 
ficar longe dele e de todas as memrias que aquele primeiro olhar de admirao havia despertado.
      Porm, no precisava ter corrido nem trancado a porta ao entrar, porque ele no fez qualquer tentativa para segui-la. Quando teve coragem de espiar pela janela, 
a praia estava completamente deserta.
      
      
                                          CAPITULO II
      
      
      Naquela noite, os pesadelos voltaram. Ficou acordada por horas a fio, tentando se esquecer daquele rosto moreno e cheio de raiva, que continuava a se materializar 
diante de seus olhos, desafiando todos os seus esforos para afast-lo da mente.
      A cena na praia teimava em se repetir, enquanto Jo se debatia entre os lenis quentes. No havia dvida de que ele pensava que ela era uma jornalista. Mas 
por qu? Quem seria aquele homem que imaginava que uma reprter chegasse a extremos para conseguir uma reportagem a seu respeito? Nem mesmo sabia seu nome. Jake. 
Jake do qu? Podia ser s um apelido, um diminutivo. Era bastante comum. E seu rosto no era conhecido. Nunca o vira antes.
      Talvez o tivesse visto e esquecido. Desde o acidente, no era to positiva sobre muitas coisas, acontecimentos, pessoas, lugares. Mas, na certa, se lembraria 
de um homem como aquele.
      Mais uma vez, o rosto se materializou diante de seus olhos e um tremor percorreu-lhe o corpo. Sentia novamente nos lbios aquele hlito quente, que lhe evocava 
lembranas sensuais.
      No! No! Nunca mais queria uma intimidade daquele tipo. A alegria de serem uma s pessoa. A desiluso. A dor da perda. No pense!, comeou a repetir sem parar.
      Finalmente, pegou no sono e o pesadelo voltou como sabia que voltaria. Quando comeou, Jo tentou acordar para fugir da agonia, mas o cansao cruel a forou 
a se manter na inconscincia e reviu toda a tragdia, como num filme angustiante.
      Tudo surgiu em sua mente com infinita clareza: a escurido que enchia aquelas horas antes do acidente, o mau humor de Mike, a irritao de Jamie e seu prprio 
aborrecimento, que haviam precipitado tudo. Na verdade, no deviam estar naquela estrada, mas tinham
      perdido a entrada para a rodovia e, s ao verem a placa meio amassada, perceberam que era um atalho que subia pela montanha. Consultando rapidamente o mapa, 
Jo descobriu que era uma estrada secundria que ia cruzar a principal, a vrios quilmetros de distncia.
      A pequena discusso que tivera com Mike, ao passarem pelo cruzamento, voltou para acus-la, assumindo propores incrveis. Sentado na cadeirinha presa no 
banco de trs, Jamie comeou a choramingar, piorando a atmosfera entre os pais. Com alguma dificuldade, Jo conseguiu acalm-lo, e continuaram num silncio tenso 
e irritado.
      Quando o asfalto terminou e o carro comeou a rodar no cascalho, molhado por causa da umidade da floresta, ela sugeriu, nervosamente, que seria melhor voltarem, 
s para ouvir a resposta irada de Mike, lembrando-a de que s faltavam dez quilmetros at a rodovia. Voltar significaria terem que percorrer mais sessenta.
      O lado da estrada desaparecia numa encosta ngreme coberta de rvores; instintivamente, Jo procurou ficar mais perto de Mike. Quase todas as noites sentia 
sua memria voltando ao horror que passara durante aqueles poucos segundos. Nada mais do que segundos, mas suficientes para acabar com tudo o que havia de precioso 
em sua vida. Por meses e meses, depois daqueles instantes de pavor, ficara deitada na cama de hospital, reprimindo as lembranas sepultadas no subconsciente, no 
se permitindo pensar nelas.
      Alguns disseram que havia sido a mo do destino; outros, a vontade de Deus. Mas o fato era que Jo no encontrava uma explicao. Em sua agonia febril, implorava 
para saber por qu. Por que salv-la para essa meia vida, para essa deformao em seu rosto perfeito? E por que Jamie, to inocente. . .
      Quando Mike fez uma curva fechada  direita, Jamie acordou do cochilo e, num movimento brusco, deixou cair o brinquedo favorito, um ursinho de pelcia. Com 
um choro cansado, chamou Jo para peg-lo. Ela soltou o cinto de segurana e, quando se inclinou sobre o banco, um carro que descia a serra entrou na curva em alta 
velocidade. Os dois automveis chocaram-se de lado, com um terrvel rudo de metal rasgado, e o que descia bateu no paredo de pedra, matando o motorista instantaneamente.
      Incapaz de controlar o carro, Mike tentou mant-lo na estrada, mas ele derrapou sobre a beirada coberta de mato molhado. Quando caiu na ribanceira, Jo foi 
atirada para longe, enquanto Mike e Jamie rolavam dentro dele, presos pelos cintos de segurana.
      Ela ficou inconsciente por horas. Agora, em seu pesadelo, revivia aqueles instantes,  quando  abriu os olhos na escurido,  sentindo a chuvinha fina bater 
no rosto e paralisada pelo horror de no saber onde estava, ou como tinha ido parar sobre a terra molhada. Um milho de pensamentos horrveis surgiu em sua cabea 
naqueles primeiros segundos.
      De incio, pensou que estava cega. Quando tentou ficar em p para sair dali, seu corpo se recusou a se mover e teve certeza de que estava paraltica.
      Jo gritou no sono, debatendo-se sob os lenis molhados de suor.
      Um pouco depois, no pesadelo, comeou a subir pela encosta, engatinhando por entre as rvores e os arbustos, at alcanar o cascalho spero da estrada. No 
sabia exatamente onde estava nem quanto tempo levara para alcanar o topo. Estava muito ferida, o brao direito quebrado em vrios lugares, as costelas trincadas, 
o bao rompido e o lado esquerdo do rosto cortado por um galho de rvore que impedira sua queda at o fundo da ravina. Mas no sentia dor. Todo seu corpo parecia 
entorpecido, ou talvez sua mente simplesmente tivesse alcanado o ponto mximo de sofrimento e se desligado.
      Mais tarde, descobriram que ela se arrastara por uns trinta metros. Ao chegar  estrada, comeou a descer, talvez por sentir automaticamente que seu progresso 
era mais fcil.
      Quase deu de encontro com o carro, que rolara pela encosta, caindo numa outra parte da pista, Tateando, descobriu a porta do lado do motorista e tentou abri-la. 
Quando passou a mo pela janela aberta, encontrou o corpo cado sobre o volante. Outro grito de desespero escapou da sua garganta, ao perceber que ele estava morto.
      Podia ouvir a si mesma resmungando de modo incoerente, enquanto lutava com a maaneta. Desistindo, procurou a porta de trs, quase caindo, quando ela se abriu 
repentinamente. Com gestos febris, tateou o banco, sem encontrar nada, nem compreendendo muito bem por que chorava desesperadamente. S sabia que sentia uma enorme 
perda. Fugindo do carro amassado, comeou a correr, soluando. A dor fsica no significava nada, comparada com uma agonia muito mais terrvel que rasgava seu corpo, 
causada por um motivo que seu crebro atordoado no conseguia compreender.
      O Sol estava comeando a surgir no horizonte, quando um carrinho velho veio roncando pela estrada e freou perto dela. O motorista deve ter levado o maior susto 
da vida, ao ver aquela figura lamentvel cambaleando pelo cascalho. Ted Marsden. Lembrava-se do nome at agora, ainda podia ver seu rosto enrugado, enquanto saa 
do automvel para socorr-la. Porm, no se recordava de ele t-la colocado no banco e levado para sua casa, onde a mulher lhe prestara os primeiros socorros e ele 
chamara a ambulncia.
      Em seu sono inquieto, ainda podia ouvir a conversa aflita dos dois, tentando imaginar o que acontecera, e sua prpria voz balbuciando algumas palavras que 
pareciam soar como "'o banco de trs".
      Jo foi internada com uma amnsia temporria. S um ms depois, Maggie contou-lhe que Mike e Jamie tinham morrido instantaneamente, naquela noite. O menino 
fora encontrado sob o banco da frente, perto do pai. A essa altura, grande parte de sua vida estava voltando  sua memria, mas, por duas semanas, ela continuou 
garantindo a Maggie que no conhecia ningum chamado Mike ou Jamie. Um ursinho de pelcia salvara sua vida e foi um outro ursinho que a fez dar o ltimo passo para 
a insanidade.
      Ocupava um quarto particular e s a irm e o cunhado tinham permisso para visit-la. Um dia, estava sentada na cama, com o rosto ainda enfaixado e o brao 
e as costelas engessados, quando a porta se abriu e uma mulher entrou, logo se desculpando por ter vindo ao quarto errado. Porm, Jo no ouviu uma palavra do que 
ela disse. Seus olhos estavam fixos na criana a seu lado, uma criana segurando um ursinho de pelcia.
      Todos os pedaos de memria que estavam faltando entraram no lugar naquele momento de agonia, rasgando sua alma com garras de ao. Mike, seu vestido de noiva, 
a igreja, risos, alegria. Uma outra cama de hospital e um anjinho rosado em seus braos, um menininho engatinhando pelo cho, com grandes olhos azuis e cachinhos 
dourados. E o barulho terrvel de metal se rasgando, enquanto ela tentava pegar o ursinho.
      Seu grito fez aparecer enfermeiras de todos os lados, e, mesmo enquanto o sedativo j devia estar fazendo efeito, ela continuava a chamar por Mike, pedindo-lhe 
para tirar Jamie do carro. Pouco a pouco, os gritos foram se transformando num choro desesperado pelo filhinho morto.
      Jo acordou soluando. As roupas da cama estavam molhadas, e seu corpo, coberto de suor. H trs meses que no tinha mais aquele pesadelo. Imaginara estar livre 
dele para sempre.
      No entanto, agora sabia que no. Comeou a tremer dos ps  cabea. Teria que suport-lo pelo resto da vida? Qualquer incidente mais emocional, como aquele 
ocorrido na praia, desencadearia tudo novamente? Cobriu o rosto com as mos. Oh. Deus, livre-me disso! Por favor, no deixe que uma coisa dessas acontea comigo!
      
      
                                           CAPITULO III
      
      
      Nos dias que se seguiram, Jo mal comeu ou dormiu. Seus maxilares comearam a ficar proeminentes e as olheiras a faziam parecer ainda mais plida e doente, 
apesar de no estar dando a mnima importncia para a aparncia.
      Voltou a ficar horas e horas sentada, olhando para o vazio, forando a mente a no pensar em nada. Em algum lugar de seu consciente, como a ltima centelha 
de uma luz, sabia que tinha que fazer um esforo para sair da depresso, antes que ela se instalasse mais profundamente, fazendo-a voltar queles meses horrveis, 
quando mergulhara num vcuo escuro e sem fim.
      Podia se levantar e telefonar para Maggie. Ela viria imediatamente. Maggie conversaria com ela c a faria voltar  realidade. Maggie saberia como agir.
      No! Tinha que aprender a usar seus prprios recursos, sua prpria fora de vontade. Precisava ser independente. Fora de vontade, independncia. Onde estavam 
elas? Usando um resto da antiga determinao, levantou-se e foi para a cozinha. Sem parar para pensar, ps a chaleira no fogo e pegou uma xcara.
      Enquanto esperava o ch ficar pronto, foi para o banheiro e comeou a escovar os cabelos, deixando-os cair livremente em volta do rosto, lembrando-se de como 
costumava ser, das fotografias que apareciam nas revistas de cinema e televiso. Um rosto perfeito, sem aquela cicatriz selvagem. . .
      No pense! No pense! Seus reflexos comearam a ladainha e ela voltou para a cozinha. A xcara estava em suas mos, o aroma forte e quente brincando com seu 
estmago, fazendo-a lembrar-se de que estava com fome, quando um rudo leve a deixou imvel, gelada. Algum estava batendo na porta da frente.
      Maggie! Jo deu um passo e depois parou. No, Maggie telefonaria primeiro. A respirao ficou presa na garganta. Ele no se atreveria a vir at ali. No, no. 
A batida era fraca demais. Ele seria muito mais agressivo.
      - Jo? Jo? Voc est em casa? - chamou a vozinha. -  Sam.
      Colocando a xcara sobre o balco, que servia de mesa e bar, Jo andou at a porta e abriu-a.
      -  Al, Jo. - Uma expresso preocupada surgiu no rostinho feio, enquanto a menina mudava o peso do corpo de um p para o outro. - Est doente?
      _ Oh, no, Sam...  estou tima - respondeu, hesitante. A menina tirou a mo de trs das costas e mostrou um saco de papel.
      -  Tio Jake mandou isto de volta: seu leno e seus culos escuros. Ele me disse para pedir desculpas por ter ficado com eles.
      Jo ficou olhando para o pacote, antes de peg-lo.
      -  Obrigada.
      -  Tudo bem. - Sam inclinou a cabea para o lado, como se estivesse muito curiosa, mas no disse nada. - H uma carta a dentro para voc ler.  do tio Jake, 
eu pedi a ele para escrever.
      Jo segurava o pacote como se ele fosse explodir a qualquer momento, enquanto tentava adivinhar o que aquele homem revoltante poderia ter escrito. Sua vontade 
era atirar tudo para bem longe.
      -  Voc no vai abrir?
      - Sim,  claro.  melhor entrar. - Jo afastou-se da porta e a menina entrou, com os olhos arregalados, examinando tudo  sua volta. - Eu ia tomar uma xcara 
de ch. Quer um pouco de leite? Um refrigerante?
      - Eu gostaria de um pouco de ch tambm. De vez em quando, tomo uma xcara com Chrissie. - Subiu no banquinho.
      -  Tio Jake toma caf.
      Jo sentou-se de frente para Sam, olhando a sacola de papel sobre o balco. Era melhor resolver logo o assunto. Com um gesto decidido, pegou o pacote, notando 
o olhar curioso da menina. A folha de papel estava dobrada e, quando a abriu, as trs palavras foram como um soco no estmago. Mordeu o lbio trmulo.
      "Prezada srta. Brent".
      Ento, ele sabia quem ela era.
      "Prezada srta. Brent:
      Minha sobrinha gostaria de convid-la para jantar, esta noite s seis e meia. Se no tiver transporte, minha governanta, sra. Christiansen,  ir  busc-ia. 
Infelizmente,  estarei  ocupado na  cidade  e  no poderei voltar a tempo."
      Estava assinado: "J. Marshall".
      -  Voc vai, no , Jo? Por favor! - A voz de Sam cortou seus pensamentos e ela afastou o olhar da caligrafia ousada para o rosto mido da menina. - Chrissie 
 uma tima cozinheira. Pedi a ela para fazer um pudim de maracuj. Lembra que eu falei dele?
      - No sei, Sam. No costumo sair muito. Estive doente... - Vendo a decepo no olhar de Sam, Jo acrescentou, quase sem perceber: - Por isso, no vou poder 
voltar muito tarde.
      -  Que bom! - O rosto de Sam se iluminou num grande sorriso e ela escorregou do banco para passar os bracinhos em torno da cintura de Jo. - Vamos nos divertir 
muito. Vou lhe mostrar Snuffy...    o meu gatinho. E Betsy, minha boneca, e todos os meus brinquedos. Acha que vamos ter tempo para ler uma historinha? - Falava 
animadamente, sem poder adivinhar o tumulto de emoes dentro de Jo. - Minha mame costumava ler muitas histrias para mim.
      De incio, ao sentir o toque da criana, Jo ficara gelada. Porm, num gesto instintivo, seus braos se levantaram para envolv-la. De repente, Sam estava sentada 
em seu colo, e um soluo subiu  sua garganta, ao se lembrar de um outro corpinho frgil e do cheiro de cabelinhos limpos e macios. Uma lgrima escorreu por sua 
face. No mesmo instante, uma grande preocupao apareceu no olhar da menina.
      -  O que foi, Jo?  por causa de seu rosto? - Franziu a testa, numa expresso de compaixo quase adula. - Tio Jake me disse que voc tem um machucado. Di 
muito?
      -  No. - Jo falou com dificuldade. - No, no di.
      Sam levantou a mo para os cabelos louros de Jo, afastando-os para trs, e depois passou os dedos suavemente pela cicatriz.
      -  Como foi que aconteceu?
      Ningum tocara em sua face, depois de ela sair do hospital. S os dedos de Jo percorriam aquela marca, conhecendo cada dobra, cada sulco. Sentiu vontade de 
arrancar aquela mozinha dali, mas s a cobriu com a sua.
      -  Foi um acidente de automvel - respondeu, finalmente.
      -  Ah! E o doutor no pde consertar?
      -  No. Agora faz parte de mim e tenho que aprender a viver com isso. - Jo falou distraidamente, lembrando-se das palavras de Maggie: "Se no vai deix-los 
fazerem a plstica,  Jo, ter que: aprender a viver com isso".
      - No precisa ficar triste, Jo.   Mal  d  para  se ver,  quando  o
      cabelo est por cima. - Sam deu-lhe uns tapinhas no brao, num gesto de consolo. - Por favor, no chore... Voc ainda  a moa mais bonita que j vi na vida.
      - Oh, Sam! - Engasgou com um soluo e abraou-se  menina, sentindo um prazer agridoce naquela agonia. Quantas vezes apertara o corpinho de Jamie contra o 
seu, consolando-o, amando-o, derramando sobre ele todos os sentimentos de uma me por seu filho, toda a ternura que, de algum modo, ela e Mike tinham perdido pelos 
caminhos da vida...
      Com um pouquinho de imaginao, podia quase se permitir acreditar que esse fiapo de gente era Jamie, aquele menino bonito, de olhos azuis, cachinhos dourados 
e sorriso encantador. Afastou-se de Sam, quando seu estmago comeou a se contrair dolorosamente. No. Jamie estava morto e nada, nem ningum, poderia traz-lo de 
volta. Nem mesmo essa criana pura e inocente, que agora a abraava com tanto carinho. Num gesto firme, Jo tirou os bracinhos do pescoo.
      -  Nosso ch est esfriando - disse, desviando o olhar do rosto de Sam. - Acho...  devo ter alguns biscoitos por aqui. - Procurando no armrio, encontrou um 
pacote e ofereceu-o  menina.
      -  Obrigada. No vai comer tambm?
      -  No, no quero.
      -  Voc vai escrever uma carta para eu levar para o tio Jake? - perguntou Sam, depois de comer dois biscoitos e tomar um gole de ch, com um ar muito adulto.
      -  Oh. sim, seria bom.
      Jo foi buscar uma caneta e uma folha de papel e ficou olhando para eles sem ver. A imagem de Jake Marshall apareceu diante de seus olhos e o corao comeou 
a acelerar. Podia ver a expresso de raiva se transformando em admirao. Piscou com fora para afastar aquela viso e acalmar os nervos.
      -  No consegue pensar no que dizer? - A voz de Sam interrompeu suas fantasias e Jo olhou para o rostinho inquiridor, - Tio Jake tambm levou um tempo para 
escrever para voc. Ele ficou assim. - Sam franziu a testa.
      Jo sorriu ligeiramente e respirou fundo.
      "Prezado sr. Marshall", escreveu, sentindo os dedos rgidos, desacostumados a usarem a caneta, terei muito prazer em jantar com sua sobrinha. Tenho meu prprio 
transporte, obrigada."
      Pensou um pouco, antes de assinar, mordendo a ponta do dedo, desejando que ele no a tivesse reconhecido. Era o poder da propaganda, pensou, tristemente. J 
h dois anos que fizera aquele anncio, mas Jake Marshall ainda se lembrava do rosto que vendera milhares de dlares de um conhecido sabonete.
      Finalmente, tomou uma deciso e escreveu: "J. Harrison". Talvez ele pensasse que estava enganado, que ela no podia ser Joelle Brent, ex-modelo. Ex-atriz. 
Ex-esposa. Ex-me. Ex-tudo. Sua mo tremia ligeiramente, ao dobrar a folha de papel e ao d-la para a menina.
      Sam guardou-a cuidadosamente no bolso da cala e sorriu.
      -  Bem, acho melhor eu ir, agora. - Tomou um ltimo gole de ch. - Tio Jake me disse para no demorar, porque ele tem que ir para a cidade. - Escorregou do 
banco e saiu correndo para a porta. Virou-se, antes de sair. - Acho que ele vai ver Lexie. - Franziu o narizinho. - Chrissie diz que os homens gostam de passear 
com moas de vez em quando. Acha isso certo, Jo? - perguntou, gravemente, com a cabea inclinada para o lado.
      -  Sim,  bastante comum. - Jo escolheu as palavras com cuidado.
      -  No sei por que ele sai com Lexie. Ela  horrvel!
      -  Oh, Sam, isso no  bonito de dizer. A menina deu um suspiro.
      -  Acho que no. Fui mal-educada, no? Mas  que gosto muito do tio Jake. Ele  bonzinho...  como voc, Jo. - Sorriu e acenou em despedida. - At de noite!
      J estava escurecendo quando Jo entrou no carrinho velho. Olhando para as nuvens cinzentas e pesadas, girou a chave na partida. Teve que apertar vrias vezes 
o acelerador para o motor pegar, e ele resfolegou como em desagrado, enquanto subia a colina at a estrada que acompanhava a costa. Dirigindo devagar para no for-lo, 
Jo tomou a direo da velha casa O'Connor, como Maggie a chamava.
      Maggie... Esperava que a irm no telefonasse, enquanto estivesse fora. Tentara ligar vrias vezes, antes de sair, mas a linha estava sempre ocupada. Por causa 
do sarampo, Ben devia estar cuidando dos negcios em casa.
      Sentiu um estremecimento, quando entrou na alameda, estacionando o carro perto da enorme casa trrea que parecia ter uma ampla varanda em todos os lados. Ia 
bater, mas Sam veio correndo pelo gramado e atirou os braos em volta de sua cintura.
      -  Oi, Jo! Puxa, como  bom ver voc aqui! - Pegou a mo dela. - Sabe? Voc  a primeira amiga que convido para jantar.
      -  Eu...  eu tambm estou muito contente. Faz...  faz bastante tempo que no saio para jantar fora.
      Sam sorria alegremente, enquanto subiam os degraus que levavam  varanda. Uma mulher baixinha apareceu na porta, limpando as mos no avental. Os cabelos grisalhos 
estavam presos num coque e sua roupa parecia fresca e imaculada. Com a mesma alegria de Sam, estendeu a mo para Jo.
      - Chrissie, esta  minha amiga Jo - disse a menina, cheia de
      orgulho.
      - Muito prazer. Sou Joan Chnstiansen.
      -  Joelle Harrison, sra. Christiansen. - Jo sorriu e, percebendo os msculos da boca ainda tensos, levou a mo ao rosto, para verificar se os cabelos estavam 
cobrindo a cicatriz.
      -  Pode me chamar de Chrissie.. .  como todos. Posso cham-la de Jo? - Afagou a cabea da menina. - Sam fala tanto em voc, que duvido que pudesse cham-la 
por outro nome.
      Entraram no vestbulo, de onde saa um corredor que devia dar para os quartos. Logo  frente ficava a sala de visitas, com uma janela panormica, e depois 
a sala de jantar e a cozinha.
      -  O jantar estar pronto  dentro de uns  dez minutos - disse Chrissie. - Sam, querida, leve Jo para a sala de visitas. Eu aviso quando a mesa estiver servida.
      Jo colocou a bolsa e o casaquinho sobre uma das confortveis poltronas e foi at a janela. Apesar de j estar bastante escuro, ainda podia ter uma boa vista 
da praia. A rea escura  sua direita era a colina coberta de rvores que ocultava sua casa.
      -  Bonito,  no? - perguntou Sam,  ajoelhando-se no brao da poltrona para poder acompanhar o olhar de Jo.
      -  Sim, muito bonito. Faz tempo que esto morando aqui?
      O rostinho de Sam pareceu empalidecer subitamente e um lampejo de medo surgiu nos olhos azuis.
      -  Faz. - Comeou a mexer no tecido do estofado. - Tio Jake me trouxe para morar com ele e j estivemos em muitos lugares. Mas gosto mais daqui.
      -  Pois acho que voc tem muito bom gosto. - Jo forou sua voz a ficar mais alegre e a menina pareceu relaxar.
      -  Adoro brincar na praia, mas sozinha no tem muita graa. - Deu um suspiro exagerado. - Tio Jake s vezes vem fazer castelos de areia comigo, mas quase sempre 
est muito ocupado com seus livros. - O sorriso iluminou novamente o rostinho. -  to bom ler algum para falar, como voc, Jo, e tio Jake disse que agora posso 
conversar  quanto  quiser.   Quer  ver  meu  quarto?  Vamos,   vou  lhe mostrar meus brinquedos. - Sam j estava pegando a mo dela para lev-la, quando Chrissie 
veio chamar.
      -  O jantar est servido. Voc vai ter que deixar a apresentao de suas bonecas para depois, queridinha.
      Quando chegou a hora de Chrissie servir seu to recomendado pudim de maracuj, Jo percebeu que estava se divertindo muito. H anos no se sentia to relaxada. 
Nem uma vez sua mo se levantara para tocar a cicatriz, e esse pensamento a fez ficar quase feliz. Quem sabe estaria dando os primeiros passos para voltar a ser 
dona de si mesma? Poderia comear a pensar em ser uma pessoa inteira novamente?
      Chrissie no fez nenhuma pergunta pessoal durante a refeio e, como o nico tpico da conversa de Sam parecia ser seu querido tio Jake, Jo pouco a.pouco foi 
se habituando a ouvir seu nome sem sentir aquele mal-estar no estmago,
      Depois do jantar, da insistiu em ajudar Chrissie com a loua, enquanto Sam ia guardando tudo com um ar de responsabilidade. Ao terminarem, passou uma ou duas 
horas no quarto da menina, sendo apresentada a todas suas bonecas e bichinhos de pelcia, vendo brinquedos e os pequenos tesouros escondidos em gavetinhas. s nove 
horas, Chrissie veio avisar Sam de que era hora de vestir o pijama e ir dormir.
      -  Quer ler uma histria para mim, Jo? - pediu a menina, com os olhos muito brilhantes, enquanto se acomodava nos travesseiros.
      -  No, Sam. Acho que Jo j est cansada de tanta conversa - comeou a governanta.
      -  Oh, no, nada disso! - Jo apressou-se a interromp-la, quando viu a decepo no rostinho da garota. - Vou ler, sim; s no quero atrasar sua hora de dormir.
      Sam sorriu e tirou um livro meio rasgado da estante que ficava sobre a cama.
      -  Oh, no faz mal. Tio Jake me disse que esta seria uma noite especial, porque voc ia estar aqui. - Folheou o livro procurando a histria que queria e deu-o 
a Jo. -  a minha favorita, O Prncipe Feliz.
      - Vou fazer uma xcara de ch para ns duas, Jo - disse Chrissie, baixinho. - Quando terminar de ler, deixe o abajur aceso e depois venha para a cozinha.
      Quando Jo terminou de ler a triste histria do prncipe, viu que as plpebras de Sam j estavam pesadas. Sonolenta, ela a abraou, encostando a cabecinha em 
seu ombro.
      - Foi lindo, Jo. Muito obrigada por ler para mim.
      Um turbilho de sensaes, um misto de dor e prazer, percorreu o corpo de Jo, e ela fechou os olhos para combat-lo, segurando a menina contra o peito, esforando-se 
para no pensar em Jamie. Porm, uma lgrima escapou, escorreu pelo rosto e caiu no brao
      de Sam.
      -  No chore, Jo - disse a menina, passando delicadamente a mo em sua face. - Quando chorei por causa do prncipe, tio Jake disse que eu no devia ficar triste 
porque a histria significa que o amor continua para sempre, mesmo quando as pessoas se separam.
      Jo abraou-a com mais fora e depois ajeitou os cobertores. Sussurrou um boa-noite e quase saiu correndo. Quando se viu no corredor, apoiou-se na parede para 
no cair.
      Como tinha sido idiota em vir! Devia saber o que ia acontecer. A criana a fazia recordar-se de tudo e, o que mais temia, lhe mostrava o que perdera.
      Levou a mo ao rosto, tocando a cicatriz. Podia aprender a viver com ela, mas viver sem Jamie.. . No pense! No pense!, repetia em silncio, enquanto respirava 
fundo. Afastou-se da parede e comeou a andar peio corredor, meio cambaleando. Precisava sair dali, tinha que voltar para casa.
      -  Ah, voc est a. - Chrissie veio em sua direo. - Venha, vamos tomar nosso ch.
      - Eu...  eu... j est tarde. Acho que devo ir para casa.
      -   melhor esperar um pouco, meu bem. Est chovendo muito. Vai ficar ensopada, s em ir at o carro.
      Jo percebeu que o rudo que ouvia no estava dentro de sua cabea; era a chuva batendo no telhado.
      -  Que pena estarmos tendo um tempo to ruim...   Chuva na praia  to deprimente, no acha? - Chrissie comeou a andar para a cozinha e Jo seguiu-a, com relutncia. 
- Espero que melhore um pouco amanh. Como gosta do ch?
      -  S com acar, por favor. - Jo sentou-se, respirando fundo. Chrissie serviu o ch e colocou a xcara sobre a mesa.
      -  Pronto. Voc parece um pouco plida. No est se sentindo bem?
      -  No, estou tima. .Deve ser cansao. - Apertou a xcara, tentando aquecer os dedos gelados.
      -  Espero  que Sam no a tenha cansado demais. Olhe,  se ela comear a exagerar,  s dizer, e terei uma conversinha com ela. Jake ficaria aborrecido, se soubesse 
que Sam est sendo inconveniente.
      -  Oh, no, ela no  nenhum incmodo. Eu me diverti muito, esta noite. - E era verdade, pelo menos at a hora em que linha se despedido da menina. - Ela.. 
. ela  um amor.
      -   mesmo, coitadinha.. .   - Chrissie balanou a cabea.  - Perder os pais daquele jeito e ainda...  - Parou e tomou um gole de ch, - Oh, Deus, j estava 
comeando. Jake detesta comentrios. - A governanta procurou mudar de assunto. - Sabe, at levei um susto, quando Sam voltou da praia dizendo que tinha estado brincando 
com Jo. No incio, pensei que tivesse arranjado um amiguinho. Nem posso lhe dizer como fiquei contente. Geralmente, ela  muito tmida com  estranhos, mantm-se 
fria,  afastada. Isso me preocupa muito. A pobrezinha precisa de mais companhia do que eu e Jake podemos dar. - Chrissie parou de falar para servir mais ch para 
as duas, - Claro, Jake precisa tomar muito cuidado - continuou.
      -  Teve um trabalho enorme, todo este ano, para manter os reprteres afastados. Foi por isso que ficou to perturbado, quando voltou para casa e eu lhe disse 
que "o tal Jo" de quem Sam tanto falava era uma mulher, e muito bonita, de acordo com a menina. Ele s sossegou quando teve certeza de que voc no era jornalista. 
Faz sete meses que estamos aqui, e s ultimamente conseguimos relaxar um pouco.
      -  Balanou a cabea, tristemente. - Foi terrvel. Jake quase ficou maluco.
      -  Para falar a verdade, pensei que ele era meio doido, quando veio falar comigo na praia. - Jo tentou sorrir.  - Acho que me pegou de surpresa. Estava to... 
to furioso. . .
      -  Posso imaginar. - Chrissie deu uma risada. - Jake pode ser terrvel, quando se trata de sua privacidade. . , e  plenamente justificvel. A tragdia, em 
si, j foi muito grande para ter que aguentar as perguntas e flashes, toda vez que pe a cabea fora da porta.
      -  O que aconteceu? Teve a ver com os pais de Sam?
      -  No  ouviu  falar?  Esteve em  todos  os jornais  e  noticirios da TV.
      -  No me lembro. - Jo fixou o olhar na xcara. - Eu... bem, estive doente, no ano passado, de modo que no acompanhei as notcias e... coisas desse tipo.
      -  Oh...  - Chrissie fez uma pausa, como se tentasse decidir se contava ou no. - Acho que no far mal eu lhe contar. Afinal, muito poucos no sabem o que 
aconteceu. O irmo de Jake, pai de Sam, era reprter de televiso e estava sempre viajando para todos esses lugares distantes, cobrindo acontecimentos polticos, 
revolues, desastres, essas coisas. H pouco mais de um ano, os dois, ele e a mulher, foram mortos num desses atos terroristas no Oriente Mdio. - Oh, Deus, que 
horror! - disse Jo, baixinho.
      -  Sam estava com eles e se salvou por milagre. Jake pegou um avio e foi busc-la. A menina passou semanas sem dizer uma palavra, mas ele foi perseverante 
e no desistiu, at ela sair do choque, pobrezinha. Jake tem sido maravilhoso e a ama como se fosse sua prpria filha. - Chrissie passou a mo pelos olhos para enxugar 
algumas lgrimas.
      Jo estava tendo um pouco de dificuldade para reconhecer tantas virtudes naquele homem que a tratara com tanta grosseria na praia. Quanto a Sam. . .
      -  Bem, chega deste assunto, E voc, Jo? - A governanta mordeu uni pedao de bolo.
      -  Oh. Bem.. . no h muito que dizer. - Sentiu seu rosto ficar vermelho  e instintivamente  levou  a  mo  aos  cabelos para  ver se estavam no lugar.
      -  No pude deixar de notar a cicatriz. - O rosto da outra mostrava compaixo. - Foi algum desastre de automvel?
      Gelando, Jo teve que lutar com aquela nsia inevitvel de gritar que no queria tocar no assunto, que no queria nem pensar no que acontecera. Olhou para a 
porta c pensou em sair correndo. No entanto, a mulher continuava to calma e atenta, que aquela tranquilidade funcionou como um blsamo. At agora, s Maggie tinha 
possudo essa qualidade, e, pouco a pouco, Jo sentiu os msculos relaxarem.
      Colocou a xcara sobre a mesa com mos trmulas e ouviu a si mesma responder:
      -  Sim, foi um acidente de automvel.
      -  Deve ter sido muito traumatizante - falou Chrissie, cheia de simpatia. - Mas,  sabe?, eu  nem  teria  notado a cicatriz,  se  Sam no tivesse me contado. 
Seus cabelos a escondem muito bem, imagino que vai fazer uma plstica, no ?
      Os dedos de Jo repetiram a viagem pelo sulco e ela franziu a testa, tentando afastar todas as associaes dolorosas.
      -  No sei. Eu...  no h nada decidido ainda.
      -  Entendo. Claro que sua famlia. .. - Chrissie interrompeu-se, um pouco embaraada: - L vou eu de novo, bisbilhotando! Por favor, desculpe-me. Sou uma velha 
metida e minha nica desculpa  que gosto das pessoas e procuro me interessar por elas.
      - Est bem, no h o que perdoar. Acho que estou um pouco enferrujada, quando se trata de conversar. Desde.. . desde o acidente, eu.. . - Jo engoliu em seco. 
- Estou encontrando dificuldades em fazer minha vida voltar aos eixos e parece estranho falar de mim mesma. A nica pessoa com quem converso sobre o que aconteceu 
 Maggie, minha meia irm. Meu padrasto, o pai de Maggie, ela, o marido e as duas filhas so minha nica famlia. - Engoliu em seco novamente. - Meu...  meu marido 
morreu no acidente.
      Pronto, j tinha falado. Agora, s precisava contar a Chrissie que seu filho tambm tinha morrido. Fale!, dizia alguma coisa dentro dela. Fale bem alto!
      No! No pense! No pense! Seus reflexos voltaram a gritar e ela torceu as mos, at sentir a aliana machucando a carne.
      -  Pobrezinha, que coisa terrvel! - estava dizendo a governanta, cheia de compaixo. - H quanto tempo foi isso?
      -  H... h quase dezoito meses.
      Chrissie viu a palidez de Jo e inclinou-se para tocar seu brao.
      -  Sinto muito. Espero que no tenha ficado muito nervosa por eu ter tocado no assunto. Quer outra xcara de ch? Posso fazer um fresquinho.
      -  No, obrigada. Preciso ir embora. - Levantou-se, pesadamente.. -  tarde e acho que a chuva j amainou um pouco.
      - Sim, est bem melhor. - Chrissie tambm se levantou. - Tenho um guarda-chuva de sobra. Pode us-lo. Vai precisar dele para entrar e sair do carro. - Foi 
procurar o guarda-chuva e entregou-o a Jo. - Muito obrigada por ter vindo. Fiquei muito contente. Agora que sabe onde moramos, espero que volte outras vezes.
      -  Obrigada   pelo   jantar.   Estava   delicioso.    -   Jo   vestiu   o ca saquinho.
      -  Oh, eu adoro cozinhar. E, Jo, muito obrigada por Sam. Voc fez um bem enorme  menina. Acho que agora entendeu por que Jake estava to preocupado, quando 
foi procur-la.
      Uma onda de culpa tomou conta de Jo, ao se lembrar de sua pri meira reao ao ver a criana na praia. Estava to envolvida em si mesma e na prpria dor que 
nem lhe passara pela cabea que a menina podia estar sofrendo tambm.
      O ronco de um motor suplantou o barulho da chuva e dois raios de luz iluminaram as folhagens.
      -  Oh,  Jake! Ele chegou cedo.
      As palavras da governanta encheram Jo de pavor, e um desejo quase histrico de escapar a fez desejar sair correndo pela escurido.
      No entanto, estava logo atrs de Chrissie, que continuava parada na porta, e no poderia passar por ela sem empurr-la. Ficou - imvel, agarrando o guarda-chuva, 
vendo a figura alta sair do carro, levantar a gola do palet e alcanar a varanda com aiguns passos longos e seguros.
      Para Jo, os segundos seguintes foram um turbilho de imagens incoerentes, como pedaos de filme. Jake Marshall, parecendo enorme perto delas. Jake Marshall 
abrindo o palet para sacudir os pingos de chuva. A impresso de fora dos ombros largos, moldados no pulver bege que usava.
      Seus olhos encontraram os dela, e Jo abaixou o rosto, tentando controlar o nervosismo.
      -  Que surpresa, Jake! - disse Chrissie, sorrindo. - Pensei que fosse ficar na cidade por causa da chuva.
      -  No estava to forte, quando sa. - Falou com a mesma voz profunda da qual Jo se lembrava to bem. - Nesta ltima meia hora, tive que vir quase me arrastando. 
- Virou-se para Jo. - Como vai, srta. Brent?
      Chrissie olhou para ela, intrigada.
      - .. .   Harrison, Joelle Harrison - Jo disse rapidamente.
      Ele inclinou ligeiramente a cabea, sem desviar o olhar. Ela sentiu as pernas ficarem fracas e teve certeza de que Jake podia ver o que havia no fundo de sua 
alma.
      -  Tenho que ir, agora. - Tentou abrir o guarda-chuva, mas ele se recusou a obedecer a seus gestos nervosos.
      Jake tirou-o das mos dela e abriu-o com aparente facilidade.
      -  Vou acompanh-la at o carro - disse, segurando o guarda-chuva, de modo que ela teve que ficar bem perto.
      Seus braos se tocaram, e Jo sentiu um arrepio na espinha. Sua mo tremia, quando abriu a porta do carro. Algum tempo depois, teve que concordar com ele em 
que o motor no ia pegar.
      -  Talvez haja uma condensao no distribuidor - sugeriu Jo, olhando para ele, parado ao lado da porta, a chuva caindo em cascata pelo guarda-chuva. - Vou... 
vou tentar limpar.
      -  Vou lev-la para casa e amanh darei uma  olhada - disse Jake, com firmeza.
      -  Oh, no... eu no poderia aceitar.
      A mo forte se fechou sobre seu brao e, antes que ela pudesse dizer outra palavra, j estava fora tio carro e ele guardando as chaves no bolso. Depois de 
coloc-la em seu prprio carro, foi at a varanda Para falar com Chrissie. Finalmente, acomodou-se atrs do volante do luxuoso BMW. A chuva ficara ainda mais forte, 
formando quase uma parede de gua.
      Jo apertou as mos no colo, desejando no estar to consciente de cada movimento que ele fazia. Com gestos firmes e suaves, manobrou o automvel e entrou na 
estrada, dirigindo devagar pela curva da baa. Ela fechou os olhos com fora, usando todos os seus recursos para apagar a lembrana daquela outra viagem de carro 
pela noite chuvosa e suas terrveis consequncias. Depois do que lhe pareceu uma eternidade, viu que ele estacionava o mais perto possvel da porta de trs da casa.
      O guarda-chuva quase se dobrava, sob o peso da gua, e Jo teve que gritar para dizer a Jake que a chave estava junto com a do automvel, que ele guardara no 
bolso.
      A porta de trs se abria na lavanderia, que pareceu ainda menor, quando Jake Marshall entrou, tirando o palet e dobrando-o cuidadosamente sobre o tanque. 
O guarda-chuva foi colocado ao lado. Jo ficou imvel, boquiaberta. Por acaso aquele homem tinha a inteno de ficar? Depois do encontro na praia, no havia mais 
nada para ser dito. 
      Jake deu uma ltima olhada para a porta, antes de fech-la e virar-se para ela.
      -  Numa hora destas,  difcil acreditar nas previses do tempo, que prometem sol para amanh - disse, calmamente, passando a mo pelos cabelos.  Os pingos 
caram sobre seu pulver e ele fez uma careta.
      Com um gesto automtico, Jo pegou uma toalha passada que estava sobre a mquina de lavar e entregou-a a ele, percebendo que seu casaquinho tambm estava todo 
molhado, de um lado. Enquanto Jake enxugava a cabea, tirou o casaco e ficou olhando, desanimada, para o vestido, tambm molhado.
      -  melhor ir trocar de roupa. - A voz veio meio abafada pela toalha.
      -  Est. .. est tudo bem.
      -  Ser mais confortvel  - disse ele, aparecendo por entre as dobras do tecido. - Quero falar com voc. Sobre Sam - acrescentou, muito srio.
      - O que h com ela? - perguntou Jo, sem fazer qualquer movimento para atender  sua sugesto.
      Jake ps a toalha sobre a mesa de passar.
      -  Olhe, srta. Brent.. . - Encolheu os ombros num gesto irritado. - Sra. Harrison. Acho que ns dois deveramos tentar esquecer nosso primeiro encontro. Quero 
realmente conversar sobre minha sobrinha e dou-lhe minha palavra de que no precisa temer nada de minha
      parte. No tenho o hbito de agir com tanta grosseria como fiz na praia acredite, e acho que lhe devo desculpas. Estava furioso porque imaginava que suas intenes 
eram outras.   .
      Jo ficou observando-o cautelosamente e depois sacudiu a cabea.
      - Est bem, entre. Vou l em cima trocar de roupa.
      Acendeu as luzes enquanto subia a escada, percebendo que tremia de frio. Ou, pelo menos, garantindo a si mesma que era por causa do frio.
      Tirou o vestido molhado e rapidamente escolheu uma cala de veludo e um pulver de malha grossa, sentindo o calor dissolver o torpor de seu corpo. Escovou 
os cabelos dourados. O ar mido os fazia ficar mais armados, e notou, com alvio, que a onda grande e cheia cobria totalmente a cicatriz.
      -  Tomei a liberdade de pr a gua para ferver - disse Jake Marshall, quando Jo desceu. O vidro de caf instantneo j estava sobre o  balco.  -  Com   acar? 
- perguntou,  preparando  duas xcaras.
      -  Sim, obrigada.
      -  Vamos ficar aqui mesmo? - Ele indicou as banquetas. - Ou prefere ir para a sala?
      -  Aqui est bem, - Jo deu graas por o banco ficar na ponta do balco, c no lado a lado com o outro. Pelo menos, poderia manter alguma distncia.
      Comeou a beber o caf, sentindo o olhar srio sobre ela. A tenso era quase insuportvel. Quando ele finalmente falou, o som de sua voz a fez se sobressaltar:
      -  Gostaria de agradecer pela...  ateno que tem dado  minha sobrinha. Ela simpatiza muito com voc. Seu tipo  muito semelhante ao da me dela. - Fez uma 
pausa, olhando para o rosto de Jo, c ela precisou se segurar no balco para impedir a mo de cobrir a face, num gesto de defesa. - Mas esse fato tambm representa 
um problema.
      Jo arregalou os olhos, imaginando de que problema ele poderia estar falando, e a dor surda que sentia no fundo de sua alma pareceu se intensificar. Jake Marshall 
no podia compreender o problema que Sam criara para ela. No podia saber das associaes dolorosas que aquele corpinho infantil trazia  sua conscincia.
      - Por quanto tempo pretende ficar aqui? - perguntou ele, um pouco bruscamente. - Sei que no  a dona desta casa, ela pertena aos Chamberlain, de modo que 
imagino que a esteja alugando e gostaria de saber por quanto tempo.
      Jo sentia uma emoo, mas no conseguiu defini-la. Era algo como irritao, quase raiva, pela arrogncia com que aquele homem faiava, exigindo uma resposta, 
a uma pergunta pessoal, que no tinha nenhum direito de fazer.
      -  Ainda no decidi - disse, finalmente. - Esta casa  de minha irm e meu cunhado, de modo que posso ficar o tempo que quiser. Vim...   vim descansar um pouco 
e no tenho data marcada para voltar. - Fez um grande esforo para enfrentar calmamente o olhar de Jake.
      -  Entendo. - Passou a mo pelo queixo, pensativo.
      -  O que entende, sr. Marshall? - Jo ouviu a prpria voz e, com um  pequeno choque, percebeu que  um pouco da  antiga segurana transparecia em seu modo de 
falar.
      Os olhos castanhos brilharam estranhamente, como se ele estivesse desconcertado com a mudana de tom.
      -  No  minha inteno me intrometer em sua vida, acredite. Me nico objetivo  proteger minha sobrinha.
      -  De mim? - perguntou Jo, incrdula.
      -  De qualquer outro tipo de.. . - Fez uma pausa. - Traumas. - Chrissie me contou que Sam perdeu os pais de um modo muito
      trgico...  e sinto muito por isso. Mas como eu...  bem. . .
      Jake ficou em p e deu alguns passos pela pequena cozinha, parando de costas para ela, massageando os msculos tensos da nuca. O pulver se esticou sobre os 
ombros slidos e largos, e Jo sentiu quase que fisicamente a fora que emanava de sua figura alta.
      Ele devia ter pelo menos um metro e oitenta, era grande e musculoso, e as calas bem cortadas realavam os quadris estreitos e as pernas firmes e compridas. 
Quase sem perceber, Jo comeou a se lembrar da sensao daquele corpo forte apertado contra o dela, quando a segurara na praia. Seu corao acelerou.
      De repente, ele se virou para olh-la e Jo corou quando seus olhares se cruzaram. Engoliu o caf, e a xcara fez barulho quando a colocou sobre o pires, com 
a mo trmula.
      -  Como voc poderia criar um problema? - disse Jake, enquanto voltava para o balco e se sentou novamente perto dela. - Esta  a questo. Eu no saberia exatamente 
dizer. Para falar a verdade, no sei como agir com voc, srta. Brent.
      - Harrison - corrigiu, automaticamente.
      Jake levantou uma sobrancelha e estendeu a mo para pegar o pulso de Jo, olhando para a aliana em seu dedo.  - Estive fazendo algumas perguntas, hoje. Sobre 
voc. Acho que posso dizer que sei muitas coisas sobre Joelle Brent Harrison.
      
      
                                         CAPTULO IV
      
      
      Jo ficou olhando para ele com a mente totalmente entorpecida. Sabia que devia tentar dar uma resposta adequada, proteger-se, dizendo que no fazia idia do 
que ele estava falando. Porm, as palavras se recusaram a sair.
      -  No foi difcil - disse Jake, suavemente. - Metade da populao talvez no saiba seu nome, mas certamente se lembra de seu rosto. Afinal,  foi   uma   campanha 
de  publicidade  de  grande  penetrao. Qualquer pessoa interessada em teatro tambm saberia dizer quem  Joelle Brent. Voc  uma atriz bastante famosa.
      Tomando conscincia de que Jake ainda segurava sua mo, Jo tentou se soltar.
      -  Por favor,  me largue:
      Os dedos se apertaram ainda mais.
      -  E ento, Joelle Brent Harrison, voc no  uma atriz de sucesso?
      -  "Era"  a palavra adequada, sr. Marshall. No passado. Apesar de eu no ver por que isso possa lhe interessar.
      -  Eu me interesso por Sam. Ela  uma menina muito perturbada. Est comeando a se recuperar e no vou permitir que nada, nem ningum, a faa retroceder.
      -  E o que tenho a ver com isso? Como eu poderia fazer mal a Sam?
      Ele demorou um pouco para responder:
      -  Poder prejudic-la muito, se dedicar ateno a ela para depois abandon-la sem mais nem menos.
      -  Sr. Marshall, eu no procurei sua sobrinha.
      -  Sei   disso.  Infelizmente,  voc  estava  por  perto  quando  Sam comeou a se aventurar a sair de casa. Cada vez que nos mudamos, ela passa  semanas, 
at meses,  antes  de  se  sentir segura  no  novo ambiente. - Suspirou. - De qualquer modo, Sam fala em voc constantemente e suspeito de que v em voc a imagem 
da me que perdeu.
      Jo notou uma expresso de dor nos olhos castanhos, antes de o rosto dele tornar-se novamente srio e impassvel. Comeou a sentir a volta da velha agonia e 
levantou-se rapidamente, puxando a mo que ele segurava. Balanando a cabea, ps os braos em torno de si mesma e virou-se de costas.
      -  Olhe, no queria deix-la nervosa.  - Jake  deu  a volta ao balco e veio para a frente dela.
      Jo levantou a mo como para afast-lo e deu um passo para trs.
      -  Talvez eu esteja vendo fantasmas onde no existem - disse ele, passando a mo pelos cabelos midos. - Mas o fato  que me preocupo demais com Sam, e voc, 
sendo atriz, poderia estar demonstrando algo que realmente no sente por ela. Tem que entender que no posso me dar ao luxo de ignorar todos os aspectos da situao.
      Todos os aspectos. Jo sentiu vontade de rir, mas lutou contra isso porque estava  beira da histeria. E tudo por causa de Jake Marshall! O que podia ele saber 
de todos os aspectos? Se tinha se informado sobre ela, por que no percebia a agonia que estava lhe inflingindo? No sabia que cada criana que atravessava seu caminho, 
at mesmo as filhas de Maggie, era uma dolorosa lembrana da nica coisa pura e genuinamente verdadeira que existira em sua vida vazia, disfarada por uma fachada 
de luzes?
      Uma nvoa cinzenta pareceu envolv-los. Algum, em algum lugar, estava fazendo um barulho horrvel, dando um grito como um animal ferido, e Jo tentou no ouvir. 
Depois, sentiu tiras de ao prendendo seus ombros e sua cabea sendo balanada vigorosamente, os cabelos se afastando do rosto. Mas o barulho continuou, at ela 
escutar uma batida, como uma bofetada, e uma grande dor se espalhar por sua face.
      Levou a mo ao rosto, do lado sem cicatriz, e olhou para Jake atravs de uma cortina de lgrimas. No havia mais nenhum som, e o silncio pesado caiu entre 
eles.
      Piscando com fora para poder focalizar melhor os olhos, Jo percebeu o que havia de verdade na situao. Ele lhe dera uma bofetada porque ela perdera o controle. 
A dignidade suplantou todas as outras emoes. Como se atrevera? Antes, sempre havia um sedativo, uma palavra tranquilizadora, nunca uma agresso fsica.
      -  Sinto muito. Tive que fazer isso. - A  voz  de  Jake estava firme, controlada. - Voc ficou fora de si.
      -  Como pde...  como teve coragem de fazer isso comigo? - As palavras saram misturadas com soluos convulsivos. - Como se atreveu a me bater?
      -  Estava histrica e no consegui faz-la me ouvir. Tive que usar o ltimo recurso.
      As lgrimas a cegaram novamente e comearam a correr pelo rosto. Ouviu a exclamao abafada de Jake, enquanto ele a puxava de encontro ao corpo, passando um 
brao por suas costas, a outra mo segurando sua cabea contra o peito largo.
      -  O que causou tudo isso? - perguntou, suavemente.
      Jo s conseguiu balanar a cabea, tomada pelas lgrimas. Pouco a pouco, a tenso foi diminuindo e os soluos se enfraquecendo. Seu rosto se apoiou no calor 
daquele peito largo e ela tomou conscincia daquela proximidade, do aroma da loo de barba de Jake, das batidas de seu corao. Essa conscincia trouxe um outro 
tipo de tenso. Em algum lugar dentro dela, uma onda de calor comeo a dissolver o torpor,  fazendo  o  sangue  latejar  nas  veias,   despertando   todas  as sensaes 
que imaginava adormecidas para sempre. Vagarosamente, levantou  a cabea para  olhar para ele,  sem  saber da  incerteza e vulnerabilidade que seus olhos tristes 
transmitiam.
      Jo viu um msculo se contraindo no queixo forte de Jake e sentiu uma mudana no modo como a segurava contra seu corpo. Sob sua mo as batidas do corao dele 
tinham mudado de ritmo e os olhos escureceram. Quando seus lbios desceram vagarosamente para tomar os dela, no fez qualquer esforo para se afastar, para negar, 
e um pequeno suspiro escapou pelos lbios entreabertos, vidos de receber aquela carcia suave.
      Os braos de Jake a envolveram com mais fora, puxando-a mais para junto do corpo firme, enquanto o beijo se tornava sensual, exigindo uma rendio. As mos 
de Jo subiram pelo peito dele para acariciar o pescoo musculoso sob a gola do pulver e os cabelos escuros e midos. Os lbios quentes tocaram a ponta de sua orelha, 
movendo-se para a pele macia de seu pescoo, e ela sentiu seu prprio tremor se repetindo no corpo de Jake.
      Ele levantou a cabea para olh-la, seus olhos captando cada detalhe, parando sobre os lbios cheios. Quando se inclinou para torn-los mais uma vez, Jo ouviu-o 
murmurar seu nome com uma voz espessa de desejo.
      - Santo Deus! Voc  linda. . .
      Jo respondia s carcias, sabendo que no tinha qualquer resistncia quele homem. De repente, a minscula pontinha de medo que sentia comeou a crescer, at 
se tornar emoo avassaladora, e ela o empurrou com as duas mos.
      -  Jo? - A voz estava rouca, e ele tentou pux-la novamente.
      -  No. Por favor. - Continuou a empurr-lo.
      por alguns segundos que pareceram uma eternidade, Jake ficou abraando-a. Depois, suas mos caram para os lados e o espao entre eles aumentou, tornando-se 
um abismo intransponvel. Subitamente gelada, Jo comeou a ansiar pelo calor do corpo dele.
      -  Acho melhor eu ir - disse Jake, num tom normal. - Parece que a chuva diminuiu um pouco.
      Jo deu uns passos hesitantes atrs dele, estendendo a mo, querendo desesperadamente cham-lo de volta, mas seu raciocnio ignorou as ordens do corao.
      Quando chegaram  lavanderia, Jake vestiu o palet e virou-se para ela, ajeitando a gola. Seus olhos estavam escuros e impenetrveis.
      -  Obrigada... - Jo parou, sentindo a garganta apertada. Ele levantou uma sobrancelha, numa expresso irnica.
      -  O prazer foi  todo  meu - observou,  de modo  sugestivo,  e Jo corou.
      -  Por...   por me trazer para casa - acrescentou ela, rapidamente, torcendo as mos.
      Um canto dos lbios de Jake se levantou num sorriso cnico e ele inclinou a cabea quase imperceptivelmente.
      -  Repilo: o prazer foi todo meu. Boa noite, srta. Brent.
      Jo ficou parada na porta, vendo o carro subir a colina e as lanternas vermelhas desaparecerem na escurido. Com movimentos vagarosos, trancou a porta e foi 
apagando as luzes, enquanto se dirigia para a cozinha. Como um rob, pegou as xcaras do balco, lavou-as e colocou-as no escorredor. Quando chegou ao quarto, foi 
at o espelho e ficou se olhando. Tocou os lbios ligeiramente inchados, lembrando-se das sensaes evocadas pela presso exigente dos beijos de Jake.
      A simples lembrana daqueles lbios sensuais nos dela, do corpo firme pressionando o seu, fez seus sentidos comearem a girar fora de controle e desaparecer 
qualquer idia de resistncia. Seu corpo pareceu tomar conta de tudo, dominando a mente.
      Jo afundou na cama. Se ele tivesse pedido para ficar, no teria negado. Santo Deus, o que estava acontecendo com ela? Nunca agira desse modo antes. Mesmo nos 
tempos de estudante, na escola de arte dramtica, sempre se mantinha afastada de envolvimentos sexuais; nunca se sentira tentada a aceitar os avanos de homens encantadores 
que conhecera em seus tempos de atriz. Preocupada com a carreira, fugia de relacionamentos mais ntimos que poderiam desviar sua ateno. At mesmo com Mike... sim, 
at com ele mantinha-se firme, apesar de todas as discusses, s se entregando depois de ter absoluta certeza de que era mesmo o homem com quem ia casar, com quem 
estava disposta a compartilhar todo um futuro.
      E agora reagia a um homem que mal conhecia com um abandono' de que nem mesmo sabia que era capaz. Inacreditvel! E aterrador. Comeou a tremer. E se o acidente 
tivesse afetado sua capacidade de se manter firme em suas convices, em distinguir o certo do errado? No. Apesar de tudo, ainda tinha noo de seus padres morais, 
porm, Jake Marshall s precisava olh-la com aqueles olhos escuros e profundos, e tudo parecia desaparecer...
      Como  gostaria  que  Maggie  estivesse   ali...   Ela  seria  calma  sensata,  diria que era uma  reao natural  a um homem  atraente depois de todo aquele 
tempo. Jo estendeu a mo para o telefone ia discar,  quando  pensou melhor. No  podia perturbar  a  irm essa hora da noite. Maggie pensaria que algo estava muito 
errado e ficaria preocupada.
      Mas havia algo errado. Era esse o problema, e parecia se transfor-mar numa bola de neve, fugindo de seu controle. Estava comeando a sentir de novo, a experimentar, 
a reagir, e no queria isso. Tinha medo dessas sensaes. Sem elas, no haveria dor. No haveria agoniai da perda. Nem ansiedade...                              
      Encolheu-se toda, num gesto de autoproteo, o estmago se con traindo num nervosismo desesperado. No podia se permitir sentir novamente. No tinha foras 
para enfrentar os traumas que certa-mente surgiriam com o tipo de relacionamento que os beijos de Jake Marshall prometiam.                                       
      Levantando-se num gesto decidido, forou seus pensamentos a se fixarem numa resoluo. Tinha que cortar todos os laos com aquela famlia. Tinha que se proteger, 
que cuidar de seu escudo, daquela concha ainda frgil que comeara a formar em torno dos restos da pessoa que havia sido no passado.
      O rostinho feio de Sam surgiu em sua mente e Jo mordeu o lbio. Fosse qual fosse a deciso que tomasse, a menina sofreria. Seria melhor cortar tudo agora, 
no incio, do que permitir que a situao evolusse.
      Sentiu o corao apertado. A pobrezinha j sofrera tanto, em sua curta existncia... Como o destino podia ser to cruel? Que coinci-dncia terrvel manobrara 
sua vida para faz-la vir a esse lugar, quando a menina estava precisando tanto de uma substituta para a me morta
      to tragicamente? E por que ela? Sam era uma criana inocente. No podia ter idia do que seus braos evocavam, da dor que seus olhos azuis eram capazes de 
provocar.
      Abafando um soluo, Jo atirou-se novamente na cama. Sim, os laos tinham que ser cortados. Logo que Jake Marshall devolvesse seu carro, na manh seguinte, 
iria embora, voltaria para a casa de Maggie por alguns dias, at encontrar um outro lugar, uma toca para se esconder, um refgio para cuidar das feridas.
      O rosto de Jake Marshall surgiu com tanta clareza, diante de seus olhos, que Jo at prendeu a respirao. Todos os outros pensamentos desapareceram e sentiu 
um estremecimento pelo corpo, que h bem pouco considerava um terreno deserto, onde no havia lugar para a volta de experincias mortas e esquecidas. A imagem em 
seu pensamento era to forte e definida, cada detalhe aparecia com tanta nitidez, que ela sentia que, se estendesse a mo, poderia tocar o corpo firme e musculoso 
de Jake. Quando sua lembrana se focalizou naqueles lbios sensuais, comeou a tremer de novo, recordando-se da presso suave dos beijos que pouco a pouco tinham 
ficado mais duros, mais exigentes, E de sua resposta, de seu abandono...
      Inclinando-se para a frente com um gemido, Jo cobriu o rosto com as mos, tentando apagar aquela figura impressa em seu crebro, livrar-se da teia do desejo 
que ele podia tecer em torno de suas emoes, to frgeis e vulnerveis.
      No pense! No pense!, gritou consigo mesma. Era simplesmente uma coisa fsica. Ele era s um outro homem atraente, igual a tantos que conhecera no passado. 
Tinha vivido num mundo cheio de homens charmosos e conseguira lidar com eles. Saberia lidar com Jake Marshall tambm. De qualquer modo, no teria que se preocupar 
com isso. No dia seguinte j estaria longe dali e ele seria apenas mais uma lembrana mergulhada na nvoa escura de seu passado.
      Jo levou muito tempo para pegar no sono. Quando acordou, o sol j estava brilhando, secando a terra molhada. Tomou um banho quente que aliviou o mal-estar. 
Ao se sentar para tomar uma xcara de caf, j comeava a se convencer de que a mudana para uma outra casa  de  praia  ou  de  montanha  seria  a  resposta  para 
seus
      problemas imediatos.
      Claro que teria que enfrentar Jake, quando viesse trazer o carro. Olhou para o relgio, imaginando a que horas chegaria e quanto tempo teria para se preparar. 
Precisava tomar uma atitude mais composta, levantar a cabea, mostrar-se calma, E distante.
      Ele a beijara, s isso; no significava nada, no mundo atual. Quantos a beijaram, em sua vida ftil do passado? Era um cumprimento normal, aceito por todos... 
porm, nenhum deles fora como Jake Marshall. Por que se enganar? Ningum a beijara daquele modo fazendo ruir todas as suas defesas. Nem mesmo Mike.
      Seus ombros tombaram, tristemente. Nem mesmo Mike, repetiu si mesma, e sentiu uma ponta de culpa. Sabia que tivera uma grande parcela de responsabilidade pelos 
problemas de seu casamento e tinha certeza de que, se no fosse por Jamie, j estariam separados.
      Respirou com dificuldade, quando as temveis recordaes comea ram a surgir com mais fora. No pense! No pense!
      Num gesto decidido, levantou-se e arrumou a cozinha, mantendo o pensamento fixo no que estava fazendo. Depois foi para a lavanderia para secar as roupas molhadas 
da vspera. O sol ainda estava fraco, mas, com a porta e as janelas abertas, dentro de poucas horas as roupas secariam.
      Quando abriu a porta, ficou surpresa. O carro estava parado no lugar habitual. Jake devia ter vindo enquanto ela dormia. As chaves estavam no assento do motorista, 
sobre uma folha de papei dobrada.
      "O carro no lhe dar mais problemas." Estava assinado com as iniciais. Jo sentiu-se tomada de raiva. Aquelas duas letras, grandes e decididas, eram uma demonstrao 
da autoconfiana dele, de sua arrogncia. Devia estar satisfeita por no ter que v-lo. Agora podia partir sem qualquer outro contato com Jake Marshall... ou com 
a menina. Sentiu o corao gelado, enquanto voltava decidida para dentro da casa, dizendo a si mesma que a tristeza era s por Sam e no tinha nada a ver com aquele 
seu tio prepotente.
      Duas horas mais tarde, a casa j estava arrumada, e as mala prontas. Tudo o que restava para ser recolhido eram as coisas na geladeira, que teriam que ser 
deixadas para o ltimo minuto. Olhando em volta, Jo sentiu uma certa relutncia cm partir, apesar de saber que no havia motivo para permanecer ali. Era um lugar 
ideal. Havia sido um lugar ideal... em tempo passado. Tudo agora tinha que ser falado no passado. . .
      Uma batida forte na porta de trs quase a matou de susto. Ficou imvel, at que a voz histrica de Sam, repetindo seu nome vrias vezes, a fez sair do choque. 
Correu para a lavanderia. Ao abrir a porta, Sam se atirou em seus braos, soluando desesperadamente.
      A menina levou algum tempo at conseguir falar com coerncia; suficiente para Jo entender o que havia acontecido. Levou-a para sentar-se num banquinho perto 
da pia da cozinha e limpou seu rosto com uma toalha mida.
      -  Agora acalme-se, Sam, e diga exatamente o que aconteceu com Chrissie. - Jo fingia uma tranquilidade que no sentia.
      -  Ela...  ela caiu. - A menina falava com dificuldade. - Ela caiu da escada da frente e no...   ela no consegue se  levantar.
      -  Novos soluos estremeceram seu corpinho. - Voc tem que vir,
      Jo! Chrissie disse para eu correr c vir pedir ajuda. Vim correndo pela estrada o mais depressa que pude. Voc vai comigo, Jo?
      - Claro.  - Pegou Sam e levou-a rapidamente  para o carro,
      um milho de pensamentos aterrorizantes tomando conta de sua imaginao.
      O motor pegou imediatamente, e em poucos minutos estavam na casa dos Marshall. Sam saiu correndo para a parte da varanda que dava para a praia, com Jo atrs 
dela, temerosa do que iria encontrar.
      -  Os olhos dela esto fechados. - Sam parou de repente, o rosto branco como cera. - Oh, Jo, ser que ela est morta?
      Jo abaixou-se e pegou a mo da governanta para sentir o pulso. Chrissie abriu os olhos com dificuldade.
      -  Graas a Deus! - disse a mulher, numa voz fraca. - Estive rezando para Sam encontr-la em casa.
      -  Oh, Chrissie, voc no est morta! Que bom! - Sam debruou-se sobre a mulher, abraando-a carinhosamente.
      -  Claro que no estou, queridinha. - Olhou-a com uma expresso de dor e, pegando sua mo, virou-se para Jo. - Acho que quebrei a perna. No consigo me mexer.
      - Vou... vou chamar o medico. - Jo levantou-se, tentando no deixar nenhuma das duas perceber o choque que sentia por ver o ngulo to pouco natural daquela 
perna. - Onde encontro o nmero?
      -  No caderninho ao lado do telefone. Dr. Hodges.
      -  Fique aqui e tome conta de Chrissie, Sam, enquanto telefono para o doutor.
      Jo correu para a sala e, com gestos nervosos, procurou o nmero.
      -  J esto a caminho - disse, num tom aliviado, alguns minutos depois,  enquanto  cobria  Chrissie  com  um  cobertor  que  tinha ido buscar no quarto de 
Sam.
      Menos de meia hora mais tarde, a ambulncia chegou e a governanta foi levada para o hospital, com Jo e Sam seguindo no carro. No instante em que chegaram, 
um atendente veio buscar a maca, e Chrissie segurou a mo da moa, ansiosa.
      -  Quer cuidar de Sam at Jake voltar para casa? - pediu, muito agitada. - Vai fazer isso, no , Jo?
      - Claro. No se preocupe com ela. Pode deixar tudo comigo,
      -  Muito obrigada, Jo. Nem sei como agradecer.  - Lgrimas brilhavam nos olhos da velha. - No quero nem pensar no que teria acontecido, se voc no estivesse 
por perto. - Engoliu um soluo. Jake no vai demorar. Disse que estaria de volta l pelas nove.
      Jo apertou a mo de Chrissie e se afastou para dar passagem  maca.
      -  Ela vai estar boa, amanh? - Os olhos de Sam estavam fixos em Jo, enquanto caminhavam de mos dadas at o estacionamento.
      -  Bem, vai levar algum tempo, at a perna sarar - respondeu cautelosa. - O mdico tem  que engessar para que o osso fiquei direitinho no lugar.
      -  Quanto tempo ela vai ficar no hospital? - Sam continuava assustada e seus olhos estavam cheios de lgrimas.
      -  No sei. Depende do lugar em que a perna quebrou. Agora os mdicos vo tirar as radiografias para ver se ser fcil consert-la.. - Jo abriu a porta do 
carro e prendeu o cinto de segurana em volta da cintura da menina.
      -  Jo?
      -  Sim? - Virou-se para olhar a criana.
      -  Quando voltarmos para casa.. . quer ficar comigo at tio Jake voltar?
      Jo sentiu um aperto na garganta e ps os braos em torno de Sam num gesto de conforto.
      -   claro, meu bem. Prometi a Chrissie que ia tomar conta de voc. Vamos voltar para casa, vou fazer o jantar e depois podemos telefonar para o hospital para 
ver como Chrissie est passando, Ficarei com voc, at. ..  at seu tio voltar.
      -  Oh, Jo! Estava com tanto medo de ficar sozinha! - Deu um suspiro de alvio. - Que bom que voc est comigo...  Eu...  eu tenho muito medo do escuro.
      Por volta das oito horas, Sam comeou a cabecear de sono. O dia fora cheio de emoes. Depois de coloc-la na cama, Jo comeou a ler uma histria. Antes de 
terminar, a menina dormia profundamente.
      Um pouco incerta sobre o que fazer at a hora de Jake chegar preparou uma xcara de ch e sentou-se na cozinha, tentando no pensar nele.  Seus dedos tremeram 
e apertou a xcara com fora, desejando que o corao no batesse to forte.
      E ela que decidira no v-lo novamente!, pensou, desanimada. No queria nem imaginar como a estada de Chrissie no hospital iria afetar Jake Marshall e a sobrinha. 
Ele teria que contratar outra governanta, uma estranha para Sam, aquela criana j to traumatizada. . .
      Terminou de arrumar a cozinha, ajeitou as almofadas na sala, e Jake ainda no havia chegado. Sentindo uma culpa inexplicvel, como se entrasse num territrio 
proibido, comeou a explorar os outros cmodos da casa.
      Era bem maior do que pensara de incio. Alm do quarto da menina, havia outros trs dormitrios e dois banheiros. Afastou-se rapidamente da porta de um deles, 
que obviamente pertencia a Jake, pois viu o pulver bege sobre uma cadeira ao lado da camiseira.
      O nico cmodo que faltava para explorar abria-se para a sala de visitas, e Jo experimentou a maaneta, com a sensao inexplicvel de que a porta devia estar 
trancada. No entanto, ela se abriu com facilidade. Tateou  procura do interruptor. Era um escritrio amplo e confortvel, e ficou surpresa com o nmero de livros 
nas estantes que cobriam as paredes. Num dos lados ficava uma escrivaninha grande e macia, com uma mquina de escrever cuidadosamente coberta com sua capa de plstico. 
A cadeira giratria, prtica e ajustvel, contrastava com o conforto da grande poltrona colocada perto da janela.
      Jo atravessou o assoalho acarpetado para passar a mo pelo couro marrom e macio da poltrona. Empilhados cuidadosamente sobre uma mesinha estavam trs ou quatro 
livros, todos marcados com pedaos de papei, com anotaes feitas naquela caligrafia ousada que conhecia to bem. Com muito cuidado, levantou o de cima e leu o ttulo 
na lombada, franzindo ligeiramente as sobrancelhas, ao ver que era um compndio sobre medicina forense. Os outros trs livros tambm estavam relacionados com leis 
e tcnicas de investigao.
      Colocando os livros de volta no lugar, Jo comeou a ler os ttulos nas prateleiras. Antes do acidente, era uma leitora inveterada, sempre lamentando no ter 
tempo para se dedicar mais a seu passatempo. Jake Marshall tambm parecia ter um gosto muito variado.
      Um volume de capa verde chamou sua ateno e ela o tirou da estante com um sorriso brincando nos lbios. Era de uma de suas autoras favoritas na juventude 
e no podia imaginar o que um romance como aquele estaria fazendo na biblioteca de Jake. Ergueu a capa e viu o nome escrito na primeira pgina, numa caligrafia quase 
infantil: Denise Willis.
      Sentando-se na poltrona de couro, colocou o livro no colo e comeou a ler, ficando logo absorvida na histria romntica passada na Idade Mdia. Cochilou no 
trecho em que a herona era raptada e estava sendo levada para a Frana. Nem percebeu quando o livro caiu no cho, enquanto se acomodava melhor na almofada macia.
      Profundamente adormecida, no ouviu a porta do carro bater nem os passos pela varanda, fazendo uma parada em frente  porta da cozinha e depois entrando na 
casa.
      Algo locou seu rosto, com suavidade e carinho, e ela sorriu de leve, ainda meio adormecida. Estava com a cabea apoiada no brao e espreguiou-se, levando 
a mo  face para identificar aquela carcia. Devia ter sonhado, pensou, abrindo os olhos devagar.
      Nesse instante, viu Jake Marshall perto dela, inclinado sobre a poltrona, com as mos em seus braos, prendendo-a onde estava.
      No poderia dizer por quanto tempo ficaram assim, olhando um para o outro,  pois  o  momento foi  to  cheio  de  emoo  que era impossvel  pensar com  coerncia. 
Foi  Jake  quem  quebrou  aquela imobilidade. Com um movimento vagaroso, abaixou-se para pegar o livro cado, dando uma olhada rpida  capa, antes de co!oc-lo 
sobre a mesa, junto com os outros.
      -   Eu estava lendo...  devo ter pegado no sono - Jo gaguejou, desejando que ele se afastasse para fugir de sua presena magntica. - Que horas so?
      -  Mais de meia-noite - respondeu, com naturalidade.
      -   To  tarde? Voc est  atrasado - disse,  baixinho,  antes  de pensar no que falava.
      -  E voc parece uma esposa. - Jake levantou uma sobrancelha e falou no mesmo tom.
      Jo ficou vermelha.
      -   Desculpe. Eu...  que ns o espervamos... bem... Chrissie me disse que voc chegaria l peias nove. . .
      -   Houve um contratempo - disse Jake, os olhos fixos nos lbios dela.
      Jo sentiu um tremor de puro desejo percorrer seu corpo. Como queria que ele a abraasse! como queria sentir aqueles lbios tomarem os seus mais uma vez! Mas 
Jake se afastou rapidamente, ficando em p e colocando entre eles um pouco daquela distncia que ela havia desejado antes.
      -  Por falar em Chrissie - disse ele, finalmente -, que diabo aconteceu por aqui?
      
      
                                            CAPTULO V
      
      
      O fato de estar afundada na poltrona colocou Jo em desvantagem e ela se moveu de sua posio meio deitada. Jake deu alguns passos  frente e estendeu a mo 
para ajud-la a se levantar. Ela olhou para aqueles dedos morenos, sentindo uma sbita relutncia em loc-los, desejando poder recusar sua ajuda. Mas claro que isso 
seria uma grosseria indesculpvel e, com um gesto hesitante, aceitou a mo.
      Com um mnimo de esforo, viu-se em p, por um instante to perto dele que leve a impresso de sentir o calor de seu corpo, uma forte atrao que parecia pux-la. 
Porm, ele se afastou e foi se recostar na escrivaninha, uma perna cruzada sobre a outra e os braos cruzados.
      Numa frao de segundo, Jo pensou em todas as mulheres que estariam dispostas a correr para ele. Era, de longe, o homem mais atraente que conhecia, e aquele 
magnetismo inconsciente que parecia dele emanar era um perigo muito real. Jo j tinha problemas demais para aument-los, entrando na fila de mulheres ansiosas pelas 
atenes de Jake Marshall.
      Ele levantou uma sobrancelha e Jo teve certeza de que sabia que ela no tinha qualquer controle sobre suas emoes.
      -  E ento? - A voz suave e profunda ressoou no silncio da sala, fazendo-a estremecer.
      - Sam est na cama...  dormindo.
      -  Isso eu j sei. Fui ao quarto dela, quando ningum respondeu a meu chamado.
      -  Sinto muito, no ouvi nada. Acho que peguei no sono.
      -  Onde est Chrissie?
      -  Ela sofreu uma queda, na escada da frente. - Jake afastou-se da escrivaninha e descruzou os braos. - Chrissie est no hospital. Ela... ela quebrou a perna. 
Mas telefonei ao hospital um pouco antes de pr Sam na cama,  e  disseram que passa bem,  que no houve complicaes. Est s um pouco abalada.
      -  Entendo. - Jake esfregou o queixo. - Isso significa que vai passar um bom tempo no hospital.
      -  Acho que, no mnimo, uma semana. Mas vai ter que ficar mais tempo engessada.
      Ele balanou a cabea devagar e virou-se para apoiar as mos no tampo da escrivaninha.
      -  Ela vai precisar ficar em convalescena. Se voltar para c, no descansar nem um pouco, de modo que seria melhor que ficasse na casa de sua irm, na cidade.
      Jo observava seu perfil forte, enquanto ele franzia a testa, preocupa-do. Deu um passo  frente, querendo ficar perto dele, mas parou horrorizada com seus 
sentimentos.
      -  Acho que est na hora de eu ir para casa. - Tinha que escapar o mais depressa possvel. - Prometi a Chrissie que tomaria conta de Sam at voc voltar - 
terminou, quase ofegante.
      -  Ah, sim. Sinto muito no ter chegado mais cedo.
      -  Est tudo bem. Eu...  eu vou indo. - Virou-se para a porta sentindo o corpo rgido, parecendo no querer obedecer-lhe. - Boa noite - disse, enquanto ele 
se inclinava para abrir a maaneta.
      -  Na verdade,  bom dia. - Jake falou to perto de seu rosto que ela precisou se esforar para no recuar. - So duas horas da manh - disse ele, olhando 
para o relgio.
      Ela saiu para a varanda e estremeceu ligeiramente por causa do vento mido que vinha do mar.
      -  Jo? - Ela parou, virando-se timidamente para encar-lo. - Muito obrigado pela sua ajuda. Foi muita bondade.
      Jo balanou a cabea, sentindo um n inexplicvel na garganta, e foi para o carro. Quando subia para a estrada, deu uma olhada para trs e viu-o parado na 
varanda, ainda olhando em sua direo.
      Mais uma vez, teve uma enorme dificuldade para pegar no sono. Tivera que abrir a mala para pegar a camisola, prometendo a si mesma que voltaria para a casa 
de Maggie assim que amanhecesse. O acidente de Chrissie s tinha adiado sua partida por um dia.
      Ajeitando o travesseiro, virou de bruos e apoiou o rosto na mo. Ao sentir a cicatriz, ficou muito quieta. Levantou a cabea e passou os dedos pela face. 
No pensara naquela marca terrvel o dia todo, nem mesmo se preocupara em escond-la.
      Um pensamento de culpa passou por seu crebro. Estivera se concentrando em outras pessoas, nos sentimentos de outras pessoas, e no nos seus prprios. Pela 
primeira vez desde o acidente, no linha ficado trancada no casulo de auto-inquirio e autopiedade.
      Por que no deveria sentir pena de si mesma?, argumentou em sua defesa. E por que, de repente, sentia que precisava se defender? Por algum motivo, sentia-se 
presa numa armadilha, como se tivesse topado com uma teia de aranha e no conseguisse se soltar de seus fios sedosos e envolventes. E no centro da teia estava Jake 
Marshall, que a atraa como um im. E havia tambm a menina. . .
      Virou de costas, agitada. Sentia um medo terrvel ao pensar em suas reaes. Antigamente, teria tudo sob controle e evitaria a situao com frieza e confiana. 
Mas agora... agora no podia mais confiar totalmente em si mesma.
      Sentiu uma nova onda de apreenso. No tinha escolha. No tinha outra alternativa, a no ser escapar daquela teia.
      Finalmente o cansao a venceu e Jo pegou no sono. Ao acordar, guardou a camisola na mala e vestiu as roupas que havia separado para a viagem.
      Devia telefonar para Maggie, pensou, enquanto tomava uma xcara de caf. Ao imaginar o que a irm diria quando a visse de volta, deu um suspiro. Maggie era 
nica. Aceitaria sua deciso sem uma s palavra. Era o que sempre fazia.
      Ouvindo o ronco abafado de um motor, Jo quis se convencer de que poderia ser o carro da irm, apesar de saber que aquele rudo era de um automvel de luxo, 
como um BMW. Duas portas bateram ao mesmo tempo e logo depois Sam chamou:
      -  Jo! Jo! Sou eu. E tio Jake tambm - acrescentou, cheia de entusiasmo, como se esse fato devesse ser considerado uma grande honra para Jo.
      Ela sentiu a mo mida, quando pegou a maaneta. Seu corao batia descompassadamente. Sam entrou correndo e abraou-a pela cintura.
      -  Oi, Jo! Por que no ficou em nossa casa? Temos um monte de quartos!
      Por cima da cabea da menina, os olhos de Jo se encontraram com os de Jake.
      -  No... no podia deixar minha casa sozinha por tanto tempo. - Inventou uma desculpa apressada. - Vocs j...   Como est Chrissie?
      -  Estamos indo ver Chrissie agora, no , tio Jake? - A menina virou-se para pegar a mo do tio. - Ele telefonou para o hospital e o mdico disse que ela 
est tima. Voc quer ir conosco ao hospital?
      -  Bem, eu...  - Jo parou. Agora  seria  a hora  de dizer-lhes que estava de partida. Talvez pudesse mentir que havia sido chamada com urgncia. Mas, ao olhar 
para a menina, as palavras se recusaram a sair.
      -  Espere um pouco, Sam - Jake  falou.  - Quero conversar primeiro com a srta, Harrison. Podemos entrar?
      -  Claro. Sinto muito. - Jo afastou-se, sentindo que havia algo de estranho no ar.
      Sam entrou saltilando e foi logo para a janela que dava para a praia. Muito tensa, Jo seguiu atrs dela e sentou-se na beira do sof, com as mos no colo, 
observando Jake atravessar tranquilamente a sala, indo colocar-se atrs da sobrinha.
      -  Voc tem uma linda vista.
      -  Sim. ...  muito tranquila. - Jo falou aos arrancos, sentindo sua tenso crescer.
      Ele se virou para olh-la, passando a mo pelo queixo num gesto distrado, e no deixou de notar as malas colocadas perto da porta.
      - Estou numa encrenca - disse Jake. - Preciso de sua ajuda.
      - Em que sentido? - Por acaso, ia lhe pedir para ficar com a menina ali em sua casa?
      -  O acidente de Chrissie me deixou com um problema. O pior  que a av de Sam est fazendo companhia  filha, que acaba de ter um beb, e no lenho ningum 
que possa cuidar dela. - E fez uma pausa. - Ento pensei em voc.
      - Mas  voc pode ficar em  casa com ela...   - comeou Jo,  horrorizada com a sugesto. Ficar com a menina o dia todo... No! No conseguiria. Como ele podia 
ter pensado nisso? Sentia que Sam estava se tomando muito especial para ela e no podia permitir que   essa  amizade fosse  mais  longe.  Aceitaria  a  proximidade 
de  outra pessoa, no queria sentir mais a dor da perda.
      Lanou um olhar para Sam, que acompanhava os desenhos da cortina com a ponta do dedo, e sentiu seu corao se apertar. Talvez a menina realmente precisasse 
dela. E  possvel que voc tambm precise da criana, disse uma vozinha dentro dela, mas Jo afastou rapidamente esse pensamento.
      - Claro que estarei com ela - Jake respondeu. - Mas vou ter  que trabalhar muiio, nas prximas semanas.  Tenho um contrato a cumprir e no posso estender meu 
prazo. Seria s por algumas semanas, um ms, no mximo, e estou disposto a lhe pagar muito bem. Sam  uma boa menina. Voc no ter muito trabalho com ela. 
      Nesse  instante,  Sam  correu  para  Jo,   ajoelhou-se  e  colocou   os cotovelos em seu colo.
      -  Diga que vai para ficar conosco, Jo. Precisamos de voc. E prometo ser muito boazinha. Chrissie gostaria muito tambm, foi o que ela disse no telefone, 
no , tio Jake?
      A menina virou-se para o tio, que estava parado, com as mos na cintura, olhando Jo.
      - Oh, Sam, no sei. Eu estava para voltar  cidade. A decepo tomou conta do rosto da criana.
      -  Quer dizer...  - Seu lbio comeou a tremer. - Quer dizer que voc no quer ficar comigo e com tio Jake? - Os olhos comearam a se encher de lgrimas.
      -  No  que eu no queira ir, Sam.  s que... - Jo afastou o olhar do rosto angustiado da menina e, ao virar-se para Jake, viu que ele estava com uma expresso 
muito tranquila. Ocorreu-lhe que linha trazido a sobrinha de propsito, para conseguir o que queria.
      Ficou furiosa, desejando poder dar vazo  raiva, dizendo-lhe o que achava daquela atitude to baixa. Ele estava usando uma pobre criana perturbada para conseguir 
uma bab e poder cuidar da prpria vida sem ter que se preocupar com problemas domsticos. E sabia muito bem que ela no resistiria  splica nos olhos da menina.
      -  Por favor, Jo - implorou Sam. - Voc vai ter um quarto s seu - disse, muito sria.
      -  Ela no poderia ficar aqui comigo? - Jo olhou para Jake, que balanou os ombros.
      -  Prefiro que venha para casa - respondeu, com toda a naturalidade. - Ento, saberia que vocs duas estariam...  em segurana. Tambm, quando estou trabalhando, 
no gosto de me preocupar com comida, lavanderia, etc., e seria bom ter algum para cuidar dessas coisas para mim. Sei que posso parecer egosta, mas... - Levantou 
as  mos e deixou-as cair,  seu olhar encontrando o  dela  com  um brilho de desafio.
      Cozinheira e bab de luxo, pensou Jo. Era preciso ser muito descarado! Nesse instante. Jake sorriu para ela e, enquanto uma pequenina parte de seu crebro 
tentava dizer-lhe que aquele sorriso era a cartada definitiva, seus sentidos traioeiros j estavam sucumbindo ao charme dele.
      -  Voc no vai ter que me ver muito - acrescentou Jake. - Estive ocupado com uma srie de coisas, nestas ltimas semanas, e agora vou ter que trabalhar da 
manh at a noite.
      -  Bem.. .  - comeou Jo, sentindo-se sem ar. Sabia que podia recusar e terminar o assunto ali mesmo. Seria o mais seguro a fazer, acabar com tudo e fugir. 
Porm, hesitava, querendo e no querendo. Jake virou-se vagarosamente e  voltou para a janela, deixando-a para tomar a deciso.
      A mozinha de Sam bateu em seu joelho e, depois de um olhar de conspirao para o tio, ela se inclinou e sussurrou:
      - Por favor, diga que vai. Se voc no for, acho que tio Jake vai pedir a Lexie, e eu no suporto ela.
      - O que foi, Sam? - Jake virou-se para a sobrinha, e ela olhou para o cho com um ar culpado.
      -  Est tudo bem - disse Jo, apesar de no saber exatamente para quem estava bem. - Eu...  eu vou.
      -   mesmo? - Os olhos de Sam se iluminaram. - Oh,  Jo, sensacional! - Atirou-se ao pescoo da amiga.
      Mais uma vez, os olhares de Jake e Jo se cruzaram, por cima da cabea da menina, e ela ficou pensando em todos os xingamentos que gostaria de lhe dizer.
      -  Voc vai agora mesmo? - perguntou Sam, toda feliz.
      -  Ainda tenho algumas coisas para arrumar, aqui, de modo que acho melhor voc ir visitar Chrissie. Mais tarde, quando eu terminar de fazer as malas, e depois 
de telefonar para a minha irm...  - Olhou para Jake. - Quando vocs estaro de volta?
      - Acho que l peas quatro.
      - Ns vamos almoar num res...   res...   Como  mesmo, tio Jake?
      - Restaurante.
      -  Num restaurante, Jo. No  divertido? Tem certeza de que no pode vir tambm?
      -  No, meu bem, preciso deixar tudo arrumado. Irei assim que vocs chegarem em casa.
      Jake tirou um chaveiro do bolso e separou uma chave.
      -  Olhe, leve a chave de casa. Pode entrar e ir se acomodando, quando terminar.
      Seus dedos tocaram os dela, ao colocar a chave em sua mo, e Jo levantou-se abruptamente, sentindo um frio no estmago. Agora no poderia mais voltar atrs.
      Depois que eles saram, Jo ficou ensaiando seu telefonema para a irm. Finalmente, respirou fundo e ligou.
      -  Maggie?  Jo.
      - Jo! Graas a Deus! Estava certa de que alguma coisa horrvel tinha acontecido com voc. O telefone esteve com defeito? Liguei um monte de vezes e voc no 
atendeu. .. Se o carro no estivesse no conserto, eu j estaria a.
      Enquanto Maggie  parava para tomar flego, Jo conseguiu  dizer algumas palavras:
      - Tentei ligar para voc, tambm,  mas estava sempre ocupado. Ben est trabalhando em casa, no ?
      -  Sim, mas, graas a Deus, ele j ficou quase bom do sarampo.
      -  Que bom! No deve ter sido um ataque muito forte.  - Jo procurava ganhar tempo. -- E as meninas?
      -  Tudo bem. Mas, e voc? O telefone estava mesmo com defeito?
      -  Eu...  estive fora. Fui jantar.
      - Saiu para jantar! - Maggie pareceu entusiasmada. -  mesmo? Oh, Jo, que timo! Eu sabia que uns dias na praia iam fazer maravilhas por voc. Onde esteve? 
No Queen's Head, ou foi mais para o sul?
      -  No foi num restaurante.  Eu...   bem,  as pessoas que esto morando na casa dos 0'Connor...   eles me  convidaram,  e eu... eu fui.
      Houve uma pequena pausa, enquanto Maggie digeria a novidade.
      -   Voc se divertiu?
      -   Sim. Eles...  so muito agradveis.
      -  Oh, Jo, no imagina como isso me deixa feliz.  um grande passo   na   direo   certa.   Estou   muito   contente.   Quem   so   eles? Conte-me tudo.
      -  Na verdade, no h muito que contar. Eu os vi pouco.
      - H quanto tempo eles esto a?.No vi ningum, quando passamos as ltimas frias.
      -  Pelo que soube, parece que esto aqui h alguns meses. Jake... disse que sabia que voc e Ben eram os proprietrios do chal. - Jo esperou que Maggie no 
tivesse notado seu lapso.
      -   mesmo?  possvel que tenha sido o sr. Warren, na imobiliria. Ele fala pelos cotovelos.
      -  Talvez.
      -  Quem  Jake? - perguntou Maggie, pondo fim ao alvio de Jo. - Jake? - repetiu ela, tentando parecer desinteressada e s conseguindo demonstrar que estava 
sem jeito. -  o dono da casa.
      - Ele     casado?  -  A   voz  de   Maggie  soou  exageradamente despreocupada.
      -  Eu...  no, acho que no.
      -  Oh. - Houve uma riqueza de expresso nessa pequena palavra, e Jo sentiu que corava. - Ele  alto,  moreno e bonito,  alm  de solteiro?
      -  Sim, para falar a verdade, . Um pouco alto, moreno e bonito demais.
      -  E  rico? - Magge riu. - O que faz" para viver? - No tenho a mnima idia.
      - Oh...  Voc disse "eles". Ele mora com os pais?
      -  No.  H  uma governanta  chamada  Chrissie,  ou pelo menos havia. Ela sofreu um acidente ontem e quebrou a perna. Foi por isso que estive l novamente, 
ontem    noite.  Eu...   eu  fiquei  com  a sobrinha de Jake, at ele chegar da cidade.
      -  H uma sobrinha tambm?
      -  Sim, o nome dela  Samantha e tem seis anos. - Jo fechou os olhos e apertou os lados do balco com toda a fora.
      -  Entendo. - A voz de Maggie estava mais suave. - Por que ela mora com o tio?
      -  Os pais foram... mortos no ano passado. No sei mais detalhes, mas estou lhe telefonando para avisar que, com Chrissie no hospital, no h ningum para 
cuidar de Sam. Ento, eu...  eu aceitei ficar com ela. S por algumas semanas.
      Houve um silncio estupefato do outro lado da linha.
      -  Maggie? Ainda est a?
      - Sim, estou. No sei o que dizer, Jo. Como...  como acha que vai conseguir lidar com a situao?
      -  Acho que vai dar certo. - Jo voltou a sentir aquela dor surda  no corao. - Ela  muito boazinha e no dar trabalho.
      -  E voc, Jo? Sei como se sente a respeito de. . , bem... -  Maggie fez uma pausa, procurando as palavras certas.
      -  Estarei bem, Maggie. No h outra pessoa que possa ajudar. No tive como me recusar. - Era a pura verdade.
      -  Se tem certeza... Bem, acho uma tima idia. Voc me manter  informada, no ?
      -  Claro. Vou ligar para dar o nmero dos Marshall, assim que chegar l.
      -  Quer dizer que vai ficar na casa deles?
      - Sim. Jake achou que assim seria melhor. - Jo sentiu uma ponta de irritao com a prpria complacncia.
      -  Jo?
      -  Sim?
      -  Ele sabe o que... bem, ele sabe quem voc ?
      -  Sim, ele me reconheceu por causa da propaganda do sabonete. Bem,  melhor eu desligar, agora. Preciso terminar a arrumao antes de ir para l. D um abrao 
em Ben e um beijo nas meninas.
      -  Certo, Jo. E, se quiser conversar ou precisar de qualquer coisa, sabe onde estou, querida.
      -  Obrigada, Maggie. At logo. - Desligou e ficou sentada, com o queixo apoiado nas mos.
      Tinha dito a Maggie que ficaria bem, que conseguiria lidar com a situao. Um arrepio de temor a invadiu e comeou a sentir a volta da velha tenso.
      Depois de algumas horas, no havia mais nada para retardar sua partida. Ps as malas no carro, tomando a direo da casa. O BMW no estava sob a cobertura 
e ela abriu a poria, sentindo-se um pouco como uma invasora.
      Escolheu um dos quartos desocupados e no levou muito tempo para desfazer as malas. Olhando para o relgio, decidiu que era hora de comear a pensar no jantar. 
J que aceitara o emprego, tinha que lev-lo a srio. Estava fazendo um inventrio do que havia na geladeira, quando o telefone tocou, assustando-a de tal modo que 
quase deixou cair a bandeja de carne.
      Ao ouvir a, voz de Jake, ainda mais profunda e vibrante no telefone, Jo sentiu as pernas fracas e precisou procurar uma cadeira para se apoiar.
      -  Oh, sim. Como vai?
      - Liguei para saber se voc estava a e para avisar que no precisa se preocupar com o jantar. J estamos indo e compramos pratos prontos. Espero que goste 
de comida chinesa.
      - Sim, gosto, obrigada. - Jo estava encontrando grande dificuldade para respirar.
      -  timo, chegaremos em meia hora, mais ou menos. E, Jo - a voz abaixou um pouco -, mais uma vez obrigado por concordar em nos ajudar.
      Ela levou algum tempo para afastar o olhar do telefone desligado.
      
      
                                           CAPITULO VI
      
      
      Naquela primeira manh, Jo acordou cedo, vendo o sol entrar pela janela com as cortinas abertas. Virou-se na cama estranha, piscando algumas vezes antes de 
reconhecer o quarto decorado em azul-claro. Jake Marshall. Estava na casa dele e ali ficaria por algum tempo. Respirou fundo.
      A casa estava em silncio. Jo virou-se na cama para dormir mais um pouco, mas um barulho vindo da cozinha a fez sentar-se, erguendo-se como uma mola. No sabia 
ao certo se devia se levantar para ver quem era. No queria se encontrar com Jake Marshall logo cedo, mas... e se fosse Sam? Podia haver algum perigo.
      Afastou as cobertas rapidamenle e vestiu o roupo de tecido de toalha, amarrando a faixa na cintura com gestos nervosos. Foi para a porta e abriu-a vagarosamente. 
Com passos hesitantes, tomou a direo da cozinha.
      Estava atravessando a sala de jantar, quando um palavro abafado a fez parar. No havia dvida de que era Jake Marshall, e no parecia de muito bom humor. 
Talvez fosse do tipo de pessoa que acorda e se levanta com o p esquerdo. Mike era assim. O menor barulho provocava uma torrente de palavras irritadas. Jo sempre 
dera um jeito de se afastar, e a Jamie, de seu caminho, at ele se acalmar.
      Enquanto hesitava, Jake apareceu na porta da cozinha, com os cabelos despenteados como se tivesse passado as mos por eles. O queixo estava escuro, com a barba 
da manh, e os olhos pareciam cansados e pesados. Usava a mesma roupa da vspera.
      Teria trabalhado a noite inteira? Jo lembrou-se de ter ouvido o som abafado da mquina de escrever at tarde. Ele parou quando a viu, a xcara a meio caminho 
da boca.
      -  Bom dia. - Jo engoliu em seco. - Ouvi um barulho e pensei que podia ser Sam.
      Jake tomou um gole e suspirou, com prazer.
      -  Estava precisando disto. Quer um tambm? A gua est quente.
      -  Sim, gostaria. - Seguiu-o at a cozinha.
      Ele preparou outra xcara de caf instantneo e ficaram bebendo em silncio. Apesar de Jo manter os olhos na bebida, sentia o olhar de Jake passando por ela, 
intensificando sua tenso. Incapaz de suportar mais aquilo, levantou a cabea, muito nervosa.
      - Voc...  voc trabalhou a noite inteira?
      Jake fez uma careta.
      -  Perdi a noo da hora. S percebi que j era dia quando vi o sol batendo na janela. Pelo menos estou satisfeito com o que fiz. Produzo muito mais quando 
estou bem concentrado e ultimamente no estava tendo tempo para me dar a esse luxo.
      -  Deve estar cansado. - Uma observao idiota, pensou Jo, mas tinha que continuar falando.
      -  E estou mesmo. - Jo notou os olhos escuros se fixarem em seus lbios e comeou a tremer de novo. - Venha comigo para o estdio. L  mais confortvel. - 
No esperou pela resposta e fez um sinal para ela passar  sua frente pela porta da cozinha.
      A manga do roupo tocou o brao dele e Jo teve que se esforar para manter os passos tranquilos e compassados, em vez de sair correndo.
      -  O que  que voc escreve? - perguntou, olhando a pilha de papis ao lado da mquina.
      Ele no respondeu imediatamente. Tomou um gole de caf e olhou-a com uma expresso ligeiramente intrigada.
      -  Livros.
      -  Quer dizer que  escritor? - perguntou, surpresa, pois imaginava que ele fosse jornalista.
      O rosto bonito de Jake abriu-se num sorriso divertido, que o fez parecer muito mais jovem.
      -  Pode-se dizer isso.
      -  Que tipo de livros escreve? No me lembro de... - Jo parou, corando de embarao.
      -  Ter ouvido falar de mim? No uso meu prprio nome. - Fez um sinal para uma prateleira, onde havia vrios livros encadernados formando uma coleo. Jo ps 
a xcara sobre a mesa e foi pegar um dos volumes.
      Sua mo comeou a tremer, e ela deixou escapar uma exclamao de surpresa:
      -  Quer dizer que voc  Jason Marsh? - perguntou, incrdula. Jake inclinou a cabea. - Li todos os seus livros. Pelo menos, todos os que saram antes do... 
Eu... eu gostei demais. So sensacionais! - Notou um certo ceticismo na expresso dele. -  verdade.
      Colocando a xcara de lado, Jake deu a volta  escrivaninha.
      -  Obrigado.
      Com aquela proximidade, os nervos de Jo comearam a clamar por mais espao e ela desejou poder se afastar.
      -  Tambm vi todas as peas em que voc trabalhou.  E gostei muito.
      Os dedos de Jo se apertaram cm torno do livro, e ele os cobriu com os seus, ao tirar o volume da mo dela.
      - A ltima foi a minha preferida.
      Enquanto Jake colocava o livro na estante, Jo tocou a cicatriz. Todos os medos, o horror e o desespero tinham voltado subitamente para maltrat-la, e, junto 
com eles, o desejo de se afundar no nada, na escurido, procurando o conforto do esquecimento.
      No pense! No pense! Ordenou a si mesma. Precisava fugir. Precisava chegar ao quarto. . .
      Dedos fortes fecharam-se sobre seu brao, impediram a fuga e a obrigaram a se virar para ele. Num gesto automtico, Jo deixou os cabelos carem para a frente, 
cobrindo a cicatriz. As mos dele s a soltaram para deslizarem sob aquela cortina de fios de puro ouro que brilhavam ao sol. Com gentileza, mas cheios de determinao, 
os polegares foraram seu queixo para cima, at seus olhares se encontrarem.
      -  Voc  uma tima atriz - disse Jake, num tom tranquilo.
      -  ? - A voz de Jo retorceu a palavra com amargura e ela respirou fundo. - Joelle Brent no existe mais, sr. Marshall.
      -  Talvez esteja um pouco afastada, mas no acredito que Joelle Brent teria desistido do modo como voc fez.
      -  Desistido? O que est querendo dizer?
      -  Exatamente  isso.  Voc  no  quer  deixar  a  verdadeira  Joelle Brent sair para lutar, no ?
      -  No..- Foi um sussurro quase inaudvel. - No. - Dessa vez, ela falou mais alto, a raiva subindo daquele tumulto de emoes. - Como pode saber o que... 
- As lgrimas sufocaram suas palavras e ela teve que piscar com fora para poder focalizar o rosto de Jake.
      Havia uma tenso no queixo forte e quadrado, e na linha da boca sensual. Os olhos estavam semicerrados, ocultando sua expresso. O momento de imobilidade, 
devido quela centelha de atrao fsica, tornou-se impossvel de ser medido, e Jake vagarosamente abaixou os lbios sobre os dela, suas mos acariciando suavemente 
o maxilar, as pontas das orelhas, seu corpo se moldando contra o dela, mal a tocando, mas fazendo-a estremecer com sua virilidade.
      No instante em que a beijou, Jo j estava perdida. Respondeu sem qualquer hesitao consciente. Sua boca entreabriu-se sob a dele, convidando  procura sensual 
de um modo quase febril como se estivesse morta de sede e ele lhe oferecesse gua pura e cristalina.
      Suas mos escorregaram em torno da cintura firme, seu corpo se curvando numa reao submissa, a presso das coxas musculosas a incendiando atravs do tecido 
macio do roupo. Os dedos longos e morenos acariciavam suas costas, deixando uma trilha de prazer, e os lbios quentes e sensuais deslizaram para a brancura aveludada 
do pescoo. Jo gemeu baixinho, entrelaando os dedos nos cabelos escuros.
      Seus seios endureceram, de encontro  solidez daquele peito, pulsando em seu despertar, e ele lhe deslizou as mos para os quadris, a fim de pux-la para mais 
perto, como se isso fosse possvel, no deixando qualquer dvida quanto  prpria excitao.
      Naqueles trridos segundos, uma parte de Jo, perdida num torvelinho de emoes, lhe dizia que era loucura, que ambos estavam perdendo a cabea, mas ela a ignorou 
totalmente, apertando o corpo contra o de Jake, numa completa rendio aos sentidos.
      -  Jo? Jo? - Uma vozinha penetrou em sua mente entorpecida peia sensualidade, fazendo-a voltar  realidade de um modo brusco e quase doloroso. - Jo, onde est 
voc?
      Ela enrijeceu nos braos de Jake, as mos escorregando para a cintura dele para afast-lo. Mesmo enquanto seus corpos se separavam, os lbios continuaram unidos, 
no querendo que findassem aqueles momentos de prazer. Com relutncia, ele a libertou. Os olhos, ainda escuros de desejo, a queimavam com sua intensidade.
      -  O nome  Jake - disse ele suavemente.
      Jo ficou a olh-lo, a ponta da lngua umedecendo os lbios, late-jantes, por causa dos beijos apaixonados, num movimento que era um convite inconsciente.
      -  Diga! - ele pediu baixinho. - Meu nome. Tenho que ouvir voc diz-lo.
      -  Jake...
      Seus dedos  a apertaram com  fora,  antes  de  ele  se  afastar de um modo quase brusco e ir se sentar  escrivaninha.
      -  Jo? Ah, voc est a. - A figurinha magra de Sam, vestida num pijama, atravessou o assoalho acarpetado, vindo abra-la pela cintura. - Pensei que tivesse 
ido embora ou que tinha sonhado que estava conosco.
      -  No, no sou um sonho - disse Jo, suavemente.
      -  Bom dia, tio Jake. - Sam sorriu para ele, incapaz de perceber a tenso que ainda havia no ar. - Vai poder ir  praia conosco?
      Jake passou a mo pelos msculos tensos da nuca.
      -  Acho que no, Sam. Vou tomar um banho e depois voltar para meu trabalho.
      Ele tirou a folha que estava na mquina e leu o trecho que escrevera, com toda a ateno voltada para o papel. Jo pegou a mo de Sam, levando-a para a porta.
      -  Venha, vamos tomar caf - disse, baixinho. Jake parecia totalmente absorto, mas, enquanto ela safa, Jo sentiu um estremecimento de emoo e soube que ele 
a observava.
      Os dias seguintes foram de calma rotina, e Jo descobriu que nunca se sentira to bem desde o acidente. Tinha muito pouco tempo para pensar e passava grande 
parte do dia na praia com Sam, que raramente parava de falar. Resolveram se dedicar  tarefa de recuperar a horta abandonada que ficava ao lado da garagem e plantar 
novas sementes que Sam ia verificar a cada meia hora.
      O servio no era muito, pois Chrissie tinha deixado tudo meticulosamente limpo, de modo que era fcil para Jo estar fora de casa. E longe de Jake Marshall. 
Desde aquela primeira manh, mal o vira. Fiel  sua palavra, ele trabalhava de sol a sol, e muitas vezes atravessava a noite batendo  mquina.
      Jo dizia a si mesma que o melhor que tinha a fazer era se afastar dele o mais possvel, porque sabia que no podia confiar nas prprias emoes. Se pudesse 
ficar com Sam em sua casa, no teria que enfrent-lo diariamente. Mas, quando tentou faiar no assunto, Jake recusou terminantemente, entrando no escritrio com uma 
expresso sombria.
      No que dizia respeito  menina, Jo agora conseguia relaxar para conversar calmamente com ela e at mesmo toc-la sem sentir qualquer repulsa, como acontecia 
antes. Estava at dormindo melhor, apesar da presena perturbadora de Jake Marshall, e no acordava mais no meio da noite, perdida naquela escura sensao de puro 
medo.
      Cerca de uma semana depois de sua chegada, Jo estava passando algumas roupas que lavara pela manh, aproveitando a hora de tranquilidade em que Sam tirava 
uma soneca, e comeou a pensar em Jake. Ouvia o leve rudo da mquina de escrever e ficou curiosa. Qual seria o roteiro do novo livro? Gostaria de ir lhe perguntar. 
No entanto, isso significava entrar no estdio sozinha e, depois daquela primeira manh, sempre procurava ter Sam a seu Jado, quando ia falar com ele. Entrar naquele 
domnio sem a companhia da menina seria se arriscar a enormes perigos emocionais. Jake sabia que ela estava usando Sam como um escudo, contra ele, isso ficava bvio 
no modo como a olhava, quando seus olhos escuros se encontravam com os dela.
      A campainha do telefone a sobressaltou, fazendo-a se sentir culpada por estar pensando em Jake. Desligou o ferro e correu para atender, antes que perturbasse 
o sossego da casa.
      - Al - disse, ofegante.
      Houve uma pequena pausa, antes de a voz rouca perguntar se era da casa de Jake Marshall.
      -  Sim - respondeu Jo, sem se importar com o tom ligeiramente grosseiro da mulher.
      -  Quem est falando? Onde est Chrissie?
      - A sra. Christiansen sofreu um pequeno acidente. Ela caiu e, infelizmente, quebrou a perna. Sou... sou Jo Harrison. Estou no lugar dela at ela poder voltar.
      -  Entendo. Bem, quero falar com Jake. Jo hesitou.
      -  Sinto muito, o sr. Marshall est trabalhando e deixou instrues para no ser perturbado.
      - Isso no me inclui. Ele falar comigo.
      -  Sinto muito. Posso anotar o recado e, quando Ja. ..  quando o sr. Marshall estiver livre, ele lhe telefonar. - Jo sentia-se muito mal em ter que dizer 
aquilo, mas Jake havia sido incisivo: nenhuma interrupo, por qualquer motivo que fosse, Ela e Sam tinham andado na ponta dos ps toda a manh.
      Houve um instante de silncio pesado.
      -  Quem  voc, mesmo? - O tom rouco desaparecera, deixando uma nota spera.
      -  Jo Harrison.
      -  Sim. Pois bem, srta. Harrison, faa o favor de ir informar ao sr. Marshall que estou telefonando. Diga-lhe que  a srta. Vale.
      Jo hesitou novamente. A mquina de escrever tinha parado, mas ele deixara mais do que claro que no admitiria interrupes. Mal tomara uma xcara de caf, 
e ela suspeitava de que no estivesse no melhor dos humores.
      -  Srta. Harrison! - A moa no disfarou a irritao.
      -  Sra. Harrison - disse Jo, tentando ganhar tempo.
      -  Seja l quem for,  melhor chamar Jake imediatamente!
      -  Com quem est falando, Jo? - perguntou Sam, entrando na sala com os olhos ainda sonolentos.
      Cobrindo o bocal, ela respondeu:
      -  Srta. Vale.
      -  Lexie? Hum! - A menina franziu o narizinho numa careta.
      Jo sabia que devia chamar a ateno de Sam, mas, na verdade, sentiu-se mais inclinada a rir.
      -  Sra. Harrison! - A voz gritou no ouvido de Jo. - Exijo que informe a seu patro que quero falar com ele, ou ento, estou avisando, vai perder esse seu emprego!
      Jo suspirou. No ia conseguir resolver a situao sem irritar um dos dois. Se essa moa era a noiva de Jake... Uma cinta de ao envolver seu corao, mas eia 
se forou a ignor-la. Se Lexie Vale era a noiva de Jake, na certa ele no se importaria com a interrupo.
      -  Por favor, espere um instante, srta. Vale. - Colocou o fone sobre a mesa e foi para o estdio.
      -  Tio Jake vai ficar uma fera - disse Sam, com ar de sabida. Jo levantou as mos e deixou-as cair num gesto de resignao.
      Respirando fundo, bateu  porta. A mquina continuou no mesmo ritmo, e ela bateu mais forte. O rudo parou e um palavro precedeu uma ordem para ela entrar.
      - H um telefonema para voc - comeou Jo, no muito encorajada pela expresso sombria de Jake.
      -  Nada de chamados - disse, lacnico, voltando a olhar para a folha datilografada.
      -   a srta. Vale.
      -  Diga-lhe para ligar na semana que vem,
      -  Acho que ela no vai aceitar um recado desses vindo de mim - falou, numa vozinha fraca.
      -  Por que no?
      - Por que? Ora, ela no tem a mnima idia de quem eu sou. Jake encolheu os ombros.
      -  Diga-lhe  que ligarei  depois. - Mal  disfarando a  irritao, olhou novamente para ela,  uma sobrancelha levantando-se num  ar inquiridor, quando viu 
que continuava parada na porta. - O que foi
      agora ?
      - Bem, como ela  sua noiva... - Jo parou, ao notar que ele franziu a testa.
      -  Lexie disse isso? - No. Foi Sam.
      -  Sam?
      Jo fez que sim e Jake a encarou, antes de se levantar.
      -  Ento  melhor eu ir logo e no deixar minha...  noiva esperando.
      Sam olhou para o tio com um ar de dvida, quando ele atravessou a sala para atender ao telefone, seu rosto se abrindo num sorriso, depois que ele piscou para 
ela. Jo ficou incerta sobre se devia sair. No entanto, se Jake quisesse privacidade, teria atendido na extenso que havia no estdio. Resolveu simplesmente no prestar 
ateno.
      -  Al, Lexie.  Jake.
      No prestar ateno  voz profunda e vibrante era mais Fcil de dizer do que fazer, Jo viu-se procurando ouvir cada palavra. No que ele estivesse falando 
muito. Lexie Vale parecia monopolizar a conversa.
      S quando Jake se virou ligeiramenie para olh-la  que abaixou a cabea sobre o vestidinho que passava.
      -  Na verdade, a sra. Harrison tem sido de uma grande ajuda - disse ele, e,   meno de seu nome, Jo olhou para ele,  para surpreender um ar divertido em 
seu rosto. - Bem, no  da idade de Chrissie. mas tambm no poderia ser chamada de adolescente.
      Jo corou de raiva. Como ele se atrevia a discuti-la com outra pessoa como se no estivesse ali?!
      -  Muito atraente - comentou Jake, seus olhos danando por sobre o corpo de Jo, enquanto Sam abafava uma risadinha com a mo. - Ainda no discutimos isso. 
- A voz profunda estava mais spera, e ele se virou de costas, pondo a mo no bolso de trs do jeans e balanando-se para a frente e para trs, flexionando os msculos 
das pernas. - Sinto muito, Lexie - disse, finalmente. - No vou poder. Estarei trabalhando por umas duas semanas e talvez leve ainda mais tempo, se houver outras 
interrupes. - Seu rosto ficou sombrio, enquanto lanava um outro olhar para Jo.
      -  Na semana passada eu lhe disse que ia ficar trabalhando. Tenho um prazo para entregar o livro, e por isso no adianta insistir. - Alguns segundos depois, 
ele desligou e, pelo jeito, a despedida no devia ter sido muito amigvel.
      Jo procurou se concentrar no vestido que estava passando.
      -  Lexie vem para c? - perguntou Sam.
      - Acho que no - respondeu Jake, falando com naturalidade e espreguiando-se languidamente. - Estou precisando nadar um pouco para afastar as teias de aranha. 
Tenho companhia?
      -  Eu! - berrou Sam. - Vou pr o mai. - E saiu correndo da cozinha.
      -  E voc, Jo? - ele parou diante dela, com os braos cruzados, to perturbadoramente masculino, que ela teve que se esforar para afastar o olhar.
      -  No, preciso terminar isto - disse, rapidamente,
      -  Covarde! - murmurou, desafiando-a. - Deixe essa roupa para depois. No tem obrigao de acabar tudo agora.
      -  Eu sei, mas... eu... eu no estou com vontade de nadar.
      -  Vai querer quando estiver na gua. - Deu aquele sorriso que fazia  suas pernas ficarem  moles.  - Vamos, Jo,  a  vida no   s trabalho.
      No instante em que viu aquele sorriso, Jo soube que no ia conseguir resistir ao apeio. Com um suspiro, desligou outra vez o ferro.
      -  Vou trocar de roupa.
      -  Boa menina!
      -   Boa menina, ora essa! - resmungou  Jo,  enquanto vestia  o biquini. Qualquer um pensaria que ela era uma criana da idade de Sam, e Jake estaria lhe dando 
uns tapinhas na cabea por ela ser obediente. Na certa, a convidara para nadar porque queria ter algum cuidando de Sam, enquanto mergulhava despreocupado. E ela, 
como sempre, tinha cado feito um patinho.
      Mordeu o lbio.
      Santo Deus, estava se comportando como uma mocinha ingnua, tecendo sonhos de prncipe encantado e romances de cinema! Era isso, nada mais que um sonho gravado 
em celulide. Precisava tomar muito cuidado para no se envolver com Jake Marshall. Ela mesma era sua pior inimiga.
      Afastando os pensamentos, vestiu a sada-de-praia e pegou uma toalha. Sabia que precisava manter trancada a porta que levava s suas emoes. Seria sua nica 
proteo.
      Alm de um olhar dos ps  cabea, quando ela saiu para a varanda, Jake mal pareceu notar sua presena, no fazendo qualquer esforo para conversar, enquanto 
se dirigiam para a praia. Usando um calo azul-marinho, e com uma toalha jogada no ombro, ele parecia simplesmente magnfico e extremamente masculino. Tanto que 
Jo teve que se esforar para ouvir a conversa alegre de Sam.
      Deu um suspiro de alvio, quando o viu atirar-se diretamente nas ondas, enquanto ela mexia no cinto, um pouco tmida em tirar a sada-de-praia. Sam correu 
atrs do tio, chamando Jo para acompanh-los.
      A gua estava muito fria e ela sentiu um arrepio ao molhar as pernas.
      - Vamos, Jo - encorajou-a Sam. - No vai sentir frio depois que entrar.
      No muito animada, ela molhou o corpo, na esperana de se acostumar mais depressa com a gua fria. Jake veio boiando para perto, observando-a com um ar divertido.
      -  Seria mais fcil se ns a ajudssemos a se decidir? - perguntou, com uma risadinha.
      -  No, obrigada. Prefiro entrar aos pouquinhos.
      -  Oh, eu tambm! Mas s vezes  mais divertido com um pequeno empurro de uma mo amiga.
      Vendo que ele se aproximava, Jo resolveu no arriscar. Mergulhou na primeira onda, emergindo depois de alguns metros para afastar do rosto os cabelos molhados, 
seus olhos procurando o corpo bronzeado de Jake.
      A risada profunda veio de sua direita.
      -  Eu disse que com um pouco de ajuda seria melhor.
      Antes que pudesse responder, sentiu os braos de Sam nos ombros e virou-se para ela, surpresa.
      -  Como chegou at aqui? - A gua mal estava dando p para ela.
      -  Eu nadei - respondeu a garota, cheia de orgulho, - Sou uma grande nadadora, no , tio Jake? Vou mostrar como consigo pegar uma onda at a praia.
      Nem tinha acabado de falar, e seu corpinho j desaparecia, levado por uma vaga mais forte.
      -  Ser que no h perigo? - perguntou Jo, preocupada, sem tirar os olhos da cabea da menina, temendo perd-la de vista.
      -  Pode ficar tranquila.  Ela  como um peixe.  - Jake estava muito mais perto agora. - Estou sempre de olho,  claro. Apesar de ser confiante, ela no  irresponsvel.
      Enquanto ambos a observavam, Sam chegou  praia e acenou.
      -  Vou fazer um castelo de areia - gritou, e logo se ajoelhou um pouco afastada das ondas.
      Jo virou-se para Jake.
      -  A gua no parece to fria, depois do primeiro choque - disse, gostando de ver o modo como as gotas de gua salgada escorriam pelos ombros dele, brilhando 
como diamantes ao sol. Ele tambm a observava.
      -  Vai  ter que  tomar cuidado  para no ficar  muito  queimada. Sua pele  muito clara.
      -  Felizmente, costumo ficar com um bom bronzeado, desde que no exagere.
      Uma grande onda os levantou e Jo abriu os braos para se equilibrar, mantendo o queixo fora da gua. Jake fez o mesmo e sua mo tocou a dela, os dedos se fechando 
depois em torno do brao de Jo, logo acima do cotovelo; ele sentiu a pele spera e olhou para a cicatriz de mais de dez centmetros.
      -  O mesmo acidente? - perguntou baixinho, acariciando a marca.
      -  .
      Levantou a mo para cobrir a face, mas ele a pegou.
      -  Sei que tem uma cicatriz no rosto, Jo. No h motivo para tentar esconder - disse, com naturalidade, seus olhos fixando-se deliberada-mente na face marcada. 
Ela recuou ligeiramente, incapaz de controlar a reao involuntria.
      Uma onda veio sobre eles, traioeira. Apanhada de surpresa, Jo agarrou-se a ele, mas Jake tambm perdera o p e afundaram juntos. Seus corpos quase nus se 
tocaram e a sensualidade daquela sensao eletrizante fez Jo passar os braos pela cintura de Jake.
      Enquanto emergiam, a realidade voltou, e ela se afastou, mas ele a segurou com fora, acariciando-lhe as costas. Seus olhos se encontraram, o castanho-escuro 
e o azul-turquesa do mar.
      O corpo de Jake se moveu em sua direo, uma perna nua se insinuou entre as dela, as mos agarrando-a pelos quadris, a excitao do homem atiando o fogo que 
comeava a queimar nela, no fundo de seu ser.
      -  Jake, por favor. . .
      -  No. No ser um favor, ser um prazer. Um grande prazer.
      -  No  isso. Quero.. . quero voltar para a praia. - As mos de Jo estavam apoiadas no peito forte e bronzeado, e ela precisou se controlar para no acarici-lo.
      -  Eu tambm. - Ele deu um gemido, e seus lbios tocaram o ombro delicado de Jo, a lngua enviando ondas de prazer pelos seus nervos.
      -  Jake! Por favor, no me toque.
      -  Quero voc, Jo - disse, suavemente, de um modo sensual, sua voz numa melodia excitante acompanhada pelo murmrio do mar.
      Jo mal conseguia respirar e sentia-se imobilizada por aquele olhar penetrante.
      - Deus, ser que no percebe o que est fazendo comigo, o que esteve fazendo, desde o primeiro instante em que a vi?!
      A cabea bem-feita inclinou-se sobre ela, ocultando o sol, e Jo soube que simplesmente no ia encontrar foras para recusar aquele beijo. Estavam to absorvidos 
um no outro, que no viram a onda enorme que se quebrou contra eles, fazendo Jake solt-la, enquanto afundavam.
      Quando Jo conseguiu voltar  tona, esfregando os olhos, viu que estava sozinha; Jake ia se afastando com braadas poderosas. Presa de emoes conflitantes, 
comeou a nadar para a praia para se encontrar com Sam, que tentava salvar as paredes de seu castelo de serem destrudas peias ondas.
      Levando a mo aos olhos para proteg-los do sol, Jo viu a figura de Jake na gua. Ele havia dito que a queria. Muitos homens tinham dito isso em outros tempos, 
sem jamais conseguir faz-la reagir. Um arrepio de medo passou por seu corpo. Agora sabia o que aquelas palavras significavam, pois tambm queria Jake e no sabia 
como apagar aquele fogo que ele despertara e que podia crescer, fugindo totalmente de seu controle, para consumi-la em suas chamas.
      
      
                                            CAPITULO VII
      
      
       medida que os dias passavam, a tenso entre Jo e Jake parecia aumentar, tornando-se mais explosiva sempre que seus caminhos se cruzavam. E Jo tinha a impresso 
de que eles estavam se cruzando muito mais frequentemente do que acontecia antes daquele encontro na praia.
      Mais uma vez, seu sono tornou-se inquieto e perturbado, mas a causa no era mais o terror que a perseguira depois do acidente. O motivo de sua atual inquietao 
era uma coisa perfeitamente tangvel. Jake Marshall a mantinha acordada, debatendo-se nos lenis at as primeiras horas da madrugada. Jake Marshall fazia seu corpo 
pulsar, ansiando por ele, querendo ser beijada, acariciada e levada ao auge do prazer que seu corpo agora desperto exigia.
      Sabia que aqueles olhos profundos estavam sempre sobre ela, no tentando esconder o desejo, e s precisava pensar na expresso dele para queimar com um fogo 
igual. Cheia de valentia, tentava ignorar o que lia em cada linha do rosto tenso e viril. Procurava fugir, absorvendo-se no servio da casa.
      A certa altura, decidiu que a coisa mais sensata a fazer seria conversar com Jake e esclarecer a situao, antes de ela fugir ao controle e resultar numa exploso 
que poderia deix-los emocional-mente feridos. Sim, seria muito sensato, mas no conseguiu nem tentar tocar no assunto.
      A primeira rachadura na parede trrida que havia entre eles foi causada por Sam. Um dia, depois do almoo, as duas estavam fazendo homenzinhos de massa de 
biscoito, quando Jake veio juntar-se a elas, encostando-se na porta da cozinha com os braos cruzados, seu olhar penetrante no combinando com a atitude casual.
      - O que esto fazendo?
      Ajoelhada numa cadeira e com as mozinhas cheias de pedacinhos de cereja cristalizada, Sam sorriu para ele.
      -  Estamos fazendo bonecos de biscoito e estou pondo os narizes. Venha ver, tio Jake.
      Ele se aproximou da mesa, parando ao lado do corpo tenso de Jo.
      -  Ser que vo ficar to gostosos como parecem? - A pergunta foi dirigida  menina, mas Jo sentiu-se estremecer.
      -  Claro - garantiu Sam, cheia de confiana. - Jo  uma cozinheira fantstica. Sabe?, acho que Jo e Chrissie so as melhores das melhores cozinheiras do mundo!
      Jake levantou uma sobrancelha e deu um sorriso. Desviando o olhar para Jo, notou que a mo que segurava a xcara com passas tremia visivelmente.
      -  Olhe estes aqui, tio Jake! - continuou Sam, feliz, - Jo ps nossos nomes nestes bonequinhos.
      Nesse instante, Jo deixou cair a xcara de plstico, que bateu no cho com um rudo abafado. As passas se espalharam pelos ladrilhos, Jake abaixou-se ao mesmo 
tempo que ela para peg-las, e sentiu o hlito quente dele perto do rosto. Quando seus dedos se tocaram, puxou a mo como se tivesse sido queimada.
      Endireitando-se imediatamente, Jake pareceu ficar com o rosto escuro de raiva. Jo levantou-se, com o rubor tingindo as faces.
      -  Quando os bonequinhos estiverem prontos, Jo pode jogar o meu no lixo. Acho que isso lhe dar uma grande satisfao - disse ele, rspido, e saiu da cozinha.
      Jo ficou olhando para a porta, at sentir Sam tocar seu brao. A menina estava com o rostinho feio muito plido, o lbio tremendo.
      -  Por que tio Jake est to bravo? Por que est com raiva de ns? - Duas grandes lgrimas escorreram por suas faces.
      Jo abraou-a carinhosamente, sentindo um grande conforto naquela proximidade.
      -  Ele...  ele no est com raiva de voc, queridinha - disse, afastando os cabelinhos finos da testa de Sam.
      -  Ento,  por que est com  raiva  de  voc? - O pensamento perturbou-a ainda mais, e deu um soluo dolorido. - No quero que tio Jake fique com raiva de 
voc.
      -  Ele   est   s   cansado,   querida.   Tem   trabalhado   sem   parar naquele livro e por isso est um pouco irritado. - Esperou ter sido convincente.
      -  Voc no vai embora, no , Jo? - Sam se agarrou ao pescoo dela. quase com desespero. - Mesmo se tio Jake ficar muito bravo, voc no vai me deixar, promete?
      Jo sentiu uma contrao dolorida, ao ver a preocupao no rosto da menina, e enxugou as lgrimas com um gesto carinhoso.
      - Ora, como posso ir embora? Olhe, tenho todos estes homenzinhos de biscoito para assar.
      Forou sua voz a parecer alegre, enquanto pensava no que estaria fazendo a esse inocente e inseguro pedacinho de gente. Mais cedo ou mais tarde, teria que 
devolv-la aos cuidados de Chrissie. Sentiu um n na garganta e engoliu doloridamente. No s Jake Marshall, mas tambm Sam, to necessitada de amor e segurana, 
tinham conseguido penetrar sua armadura contra emoes.
      Apesar de tentar no dar grande importncia ao incidente, Jo percebeu que a menina, como ela mesma, ficou preocupada, no encontrando a alegria que esperava 
no projeto de fazer os bonequinhos de biscoito. Pelo resto da tarde, enquanto Jake se mantinha no estdio, a mquina de escrever em silncio, sentiu vrias vezes 
o olhar ansioso da menina sobre ela.
      Jake jantou sozinho, no escritrio, e, quando Jo comeou a ler para Sam dormir, apareceu na porta do quarto, com o rosto cansado e a barba j mostrando a sombra 
de um dia. As duas olharam para ele um pouquinho assustadas e Jake deu um ligeiro sorriso, quase uma careta, vindo sentar-se na beira da cama.
      -  Que histria estamos lendo hoje? A do prncipe, de novo?
      -  No, A   Viagem da Chaleira. Jo comprou para mim quando fomos fazer compras - disse Sam. -  sobre uns anezinhos que saram para procurar um novo lar. 
Venha ver, tio Jake! - Apontou para o livro aberto no colo de Jo.
      Ele se levantou e veio para perto dela, olhando a ilustrao. Sua perna tocou o joelho de Jo, e o rudo do brim raspando contra o algodo do vestido arrepiou-a.
      -  Olhe o barco,  tio Jake.   uma  chaleira.  Eles atravessam  o oceano nela. E aqui  onde o golfinho vai salv-los. Quer que Jo comece de novo para voc 
poder ouvir a histria toda?
      -   Esta noite, no. Continuem de onde esto. Alm disso, desconfio de que Jo j leu essa histria muitas vezes. - Tocou o narizinho de Sam com a ponta do 
dedo antes de se abaixar para beij-la, apoiando-se momentaneamente no ombro de Jo. Quando se endireitou, ela suspirou com um misto de dor e alvio.
      Jake flexionou os msculos com um gesto cansado.
      -  S vim para dar boa-noite. Vou tomar um banho e dormir - I disse, abafando um bocejo. - At amanh.
      - Quer tomar uma xcara de ch ou um copo de leite, antes de se deitar? - perguntou Jo, e ele balanou a cabea. - Por que no d um beijo de boa-noite em 
Jo, tio Jake? - disse Sam, inesperadamente. - No faz mal que sua barba est picando.
      -  Por que no? - Ele deu uma risadinha divertida e, antes que Jo percebesse o que ia fazer, pegou sua mo e beijou a palma, fazendo I seu corao bater a 
cem por hora. O toque dos lbios estava mais
      carregado de sensualidade do que se tivesse beijado sua boca.
      Sam deu uma risadinha gostosa, olhando para os dois com um ar encantado. Quando Jake saiu, Jo usou toda sua determinao para se recompor e se concentrar no 
resto da histria.
      -  Pronto - disse, quando terminou. - Muito bonita, no ?
      -  Hum, hum. Gostaria que os anezinhos viessem morar aqui, na nossa praia. - Sam suspirou e olhou para Jo, com a testa franzida. - Posso perguntar uma coisa?
      -  Claro. - Procurou manter a voz natural, percebendo de repente que talvez no pudesse responder ao que estava por vir.
      -  Voc gosta do tio Jake?
      - O que a faz pensar que eu poderia no gostar dele? - disfarou, sentindo a garganta se contraindo.
      -  Ah,  no sei.  Acho  que   porque  eu  quero  que  voc  goste muito dele.
      -  Pois bem. eu gosto dele. - Jo arrumou as cobertas e ajeitou os travesseiros. - Agora, feche esses olhinhos e durma.
      -  Ele gosta muito de voc, Jo...  eu sei.
      -  Que bom...  - Ficou com o rosto  muito vermelho.  -  agradvel saber que h algum que gosta da gente, no ?
      -  Voc gostaria de casar com ele? - Os olhos azuis de Sam estavam muito brilhantes. - Tio Jake diz que agora sou filhinha dele. Assim, eu poderia ser sua 
filhinha tambm, Jo.
      Ela sentiu um aperto no corao, enquanto olhava para o rostinho solene da menina.
      -  Oh, Sam - suspirou, sentando-se na beira da cama. - Querida, as coisas no so assim to simples. As pessoas... bem, as pessoas tm que se amar de um modo 
especial, antes de comearem a pensar em casar.
      - Eu sei. Mas ser que voc no podia amar tio Jake de um modo especial?
      - Eu... no faz muito tempo que conheo seu tio e no sabemos muito um sobre o outro. - Jo procurava desesperadamente pelas palavras. - Acho que ainda  muito 
cedo para responder a uma coisa dessas.
      -  Ah... - Sam fez uma carinha triste. - Quando vi tio Jake beijando voc, naquele dia em que estvamos nadando, achei que ele ia querer casar. No quero que 
v embora. - A voz de Sam se prendeu num soluo, e Jo pegou sua mozinha.
      -  Voc sabe que s ficarei aqui at Chrissie voltar - comeou, procurando demonstrar tranquilidade. - Depois, vou voltar para... para minha casa, l do outro 
lado da praia.
      -  Mas eu gosto de voc, Jo, e quero que fique para sempre. - Sam esfregou os olhos.
      -  Ns... bem, ns vamos nos visitar muitas vezes. - Sentia-se absolutamente perdida, tentando lidar com aquela situao, apesar de saber desde o incio que 
ela iria surgir, mais cedo ou mais tarde.
      Sam ficou olhando para ela, agarrando as cobertas com toda fora.
      -  Ainda acho que voc devia casar com tio Jake. Ele  muito bonzinho, E voc lambem  muito boazinha. Muito, muito mais do que Lexie. Lexie  horrvel!
      -  Sam, acho que no deve falar essas coisas na frente de seu tio - disse Jo, apressadamente, decidindo que o assunto tinha ido longe demais e imaginando, 
seu embarao, se a menina resolvesse tocar nele quando os trs estivessem juntos. - Alm disso, se ele quer casar com a srta. Vale, voc ter que aceitar a situao. 
 uma escolha que s seu tio pode fazer.
      Sam deu um suspiro dolorido, e Jo passou-lhe um leno de papel.
      -  Agora assoe esse nariz e pare de se preocupar. Amanh vamos fazer um colar com as conchinhas que voc pegou na praia.
      Sam balanou a cabea, com uma carinha triste, enxugou os olhos e afundou nos travesseiros. Quando Jo se inclinou para beij-la, a menina abraou seu pescoo.
      -  Boa noite. - Voc e tio Jake so as pessoas que mais adoro neste mundo.
      Lgrimas brilhavam nos olhos de Jo, quando entrou no quarto para pegar a camisola e o roupo. Um banho quente ajudou-a a relaxar um pouco. Seus msculos cansados 
pediam cama, mas, como j estava se tornando um hbito, custou a pegar no sono. A figura de Jake Marshall se interpunha entre sua mente ativa e o esquecimento que 
seria mais do que bem-vindo.
      As palavras de Sam juntaram-se ao quadro, e ela sentou-se na cama, apoiando o queixo nos joelhos. O que estava acontecendo? Se no estivesse to decidida a 
enterrar as emoes, diria que se apaixonara por aquele homem.
      Tinha todos os sintomas: a tenso quando ele estava perto, as batidas aceleradas do corao quando pensava nele, o calor dolorido quando sentia seu toque, 
a nsia, o desejo. Oh, Deus, como o queria! No se lembrava de ter sentido isso por qualquer outro homem.
      E ele a queria tambm, j o admitira claramente. Mas querer e amar eram duas emoes completamente diferentes. Pelo menos, sempre pensara assim. Agora, estava 
to confusa... Jake Marshall transformara sua vida numa coisa quase irreal, como um conto de fadas, completamente diferente do que era, mesmo antes do acidente.
      Sabia que podia se envolver facilmente num caso com ele e que estaria disposta a se contentar com muito pouco, com o que ele quisesse dar. Jo fechou os olhos 
com fora.
      Maldito Jake Marshall! Nenhum homem a havia feito nem mesmo considerar a possibilidade de se envolver num caso. At mesmo Mike acabara desistindo da idia 
de viverem juntos por algum tempo, antes de se decidirem a casar. Jo suspirou, sentindo a pontada de dor que sempre acompanhava seus pensamentos sobre ele. Talvez, 
se tivessem ficado juntos, descobrissem antes que no eram realmente compatveis e no teriam casado. E no haveria Jamie.
      Jamie. Jamais poderia esquecer a alegria e felicidade de t-lo nos braos pela primeira vez. J era lindo ao nascer. E tambm sabia que jamais esqueceria o 
medo que se juntou  alegria. O medo da responsabilidade de cri-lo, medo de ter que faz-lo completamente sozinha, pois, quela altura, Mike e ela j tinham se 
tornado praticamente estranhos um para o outro. E aquele outro medo, ainda mais terrvel a cada minuto que passava, causado pelo conhecimento de que Jamie era lindo 
demais, de que ela era bem-sucedida demais, de que tinha sorte demais e que, de algum modo, teria que pagar por isso.
      No! No! No pense! No pense!, gritou para si mesma, ouvindo o terror ecoando em seus ouvidos. Foi ento que percebeu que no era seu grito que ouvia. Em 
poucos segundos, j estava correndo pelo corredor, na direo do quarto de Sam.
      Apesar de o pequeno abajur estar aceso, Jo ligou o interruptor e foi direto para a cama onde a menina estava encolhida num dos cantos. As cobertas tinham cado 
no cho e Sam abafava os gritos no colcho.
      Jo a fez virar, e os gritos aumentaram, gelando seu sangue. Uma frase se destacava, horrvel, aguda, perfeitamente clara:
      - Mame est cheia de sangue!
      Por um segundo, ela ficou imvel, e logo estava com Sam  nos braos, ninando-a com infinito carinho, murmurando palavras de conforto, quase cantando, at os 
gritos se transformarem em soluos e Sam levantar os braos para se agarrar a ela, com um desespero que revelava o quanto estivera apavorada h poucos instantes.
      - Vamos,  queridinha,  no chore mais.  J  passou e estou aqui com voc.
      Afastou delicadamente a cabecinha molhada de seu ombro, sentindo o tecido fino da camisola molhado pelo suor que empapava o pijama de Sam. Podia compreender 
muito bem o que a menina sofrera em pesadelo e sentiu-se tomada de compaixo. Beijou a testa mida e, gentilmente, tirou os bracinhos de seu pescoo.
      -  Estou aqui, Sam. No precisa mais ter medo,
      -  Oh, Jo. fiquei to assustada! No me deixe. No v embora! Tenho medo de ficar sozinha!
      -   Vamos, vamos, . . - Jo segurou a cabecinha contra o ombro e, nesse momento, Jake entrou no quarto, muito plido.
      Ele atravessou o quarto e sentou-se na cama perto delas. Sua perna nua encostou-se na de Jo e o brao passou por cima do dela para afagar a cabea de Sam.
      -  E, o que foi isso, bonequinha?
      -  Ah, tio Jake! - Sam olhou para ele com o rosto muito branco, as lgrimas escorrendo pelas faces. - Sonhei de novo. Aquele sonho feio. Vi mame com... Oh, 
tio Jake, eu estava sozinha! - terminou com um soluo, atirando-se no colo do tio.
      - Bom, agora tudo acabou. Jo e eu estamos aqui - disse, abraando-a carinhosamente.
      Depois de alguns  minutos,  os soluos  por fim cessaram  e  Sam bocejou, cansada.
      - Eu queria um copo de gua.
      - Espere. - Jo levantou-se e pegou a pequena moringa decorada com bichinhos que ficava sobre a camiseira  noite. Enquanto Sam bebia, olhou-a com um ar preocupado. 
- Ela est encharcada de suor e os lenis tambm - disse, baixinho. Jake balanou a cabea e pegou a menina no colo. - Vou dar-lhe um banho quente, enquanto voc 
troca a cama,. Quando ele voltou, trazendo Sam enrolada numa toalha felpuda, Jo vestiu-a com um pijama passado e colocou-a na cama. A menina j estava quase dormindo. 
Puxando as cobertas, Jo afastou os cabelos finos da testa, no escondendo sua preocupao com a palidez daquele rostinho.
      - Vamos, j est tudo bem - disse Jake.
      -  Talvez acorde de novo. No seria melhor eu ficar aqui?
      -  No, v para a cama. - Passou a mo pelos cabelos, num gesto cansado. - Geralmente, ela no acorda de novo. Sempre parece dormir profundamente,  depois 
desses  pesadelos.  Ficarei  um  pouco mais, at ter certeza de que ela est tranquila.
      Jake desligou a luz principal e virou-se para Sam, seus olhos brilhando na semi-escurido. Nesse instante, Jo tomou conscincia da transparncia de sua camisola, 
ainda maior por causa da umidade, e estremeceu ligeiramente.
      -  Voc est com frio.   melhor  trocar de  roupa  tambm.   E obrigado por ter vindo ajudar Sam.
      Encostada na porta de seu quarto, Jo comeou a tremer de verdade, por causa da brisa fresca do mar que entrava pelas venezianas. Olhou para si mesma, horrorizada 
com a figura que fazia naquela camisola transparente. Santo Deus, era como se estivesse nua! Sentiu o rosto em fogo, enquanto pegava outra camisola na gaveta.
      Estava sendo completamente ridcula. Ambos tinham apenas reagido automaticamente, ao ouvir os gritos de Sam, sem pararem para verificar se estavam vestidos 
adequadamente.
      Porm, sua camisola curta deixava muito pouco para a imaginao, realando os seios e os quadris, terminando bem acima dos joelhos, exibindo uma boa parte 
das pernas. Muito corada, Jo puxou as cobertas para se cobrir, com muitos minutos de atraso, tentando se convencer de que Jake j vira muito mais de seu corpo quando 
usara o biquini. E que, agora h pouco, estava mais interessado no bem-estar de Sam.
      Lembrou-se do modo como a olhara enquanto saa do quarto da menina e cobriu o rosto para afastar a viso do fogo que vira no brilho daqueles olhos castanhos.
      Depois de algum tempo, ouviu passos no corredor e seu corao quase parou, pois ele fez uma pausa  sua porta, antes de continuar at o quarto. No conseguiu 
mais pegar no sono.
      Forando seus pensamentos a se afastarem dele, foi at a janela e ficou olhando para a praia banhada pelo luar. Pensou em Sam. Pobre criana! Que coisas horrveis 
estavam guardadas em sua memria " para causar pesadelos como aquele? Lembrando-se dos prprios terrores, encheu-se de compaixo por ela, ainda to novinha e passando 
por tanta agonia.
      Por vrias vezes, voltou para a cama e tentou dormir, mas o sono se recusava a vir. Finalmente, depois de mais de uma hora, decidiu ir  cozinha para tomar 
um pouco de leite ou uma xcara de ch.
      Abriu a porta sem fazer o menor rudo e andou peio corredor nas pontas dos ps. Deu uma espiada no quarto de Sam. Dormia tranquilamente, como se o pesadelo 
nunca tivesse ocorrido.
      Quando o ch ficou pronto, levou a xcara para a mesa da cozinha e tomou um gole, suspirando.
      -  Parece que voc estava mesmo precisando. - A voz de Jake quase a matou de susto, e ficou olhando para ele, sem palavras. - Gostaria de um pouco tambm. 
Posso? - Sem esperar pela resposta, Jake serviu-se de uma xcara e sentou-se em frente a ela.
      Jo tomou outro gole. Todos os seus sentidos estavam plenamente acordados, gritando por causa daquela proximidade.
      -  No conseguiu pegar no sono? - perguntou Jake, depois de beber um pouco de ch.
      -  No. Pensei...  pensei que, tomando alguma coisa. . .
      - Foi o que imaginei, quando a ouvi andando por a. No  fcil relaxar, depois de ser acordado de um sono profundo com um choque.
      Ficaram em silncio, o nico rudo vindo do relgio que tiqueta-queava na parede.
      -  Sam  costuma  ter sempre esses  pesadelos? -  perguntou  Jo, depois de algum tempo.
      -  No comeo, aconteciam quase todas as noites, mas fazia tempo que no tinha um. Pensei que a pobrezinha estivesse livre deles, mas vejo que me enganei. Voc 
tem idia do que poderia t-lo desencadeado? Quero dizer, Sam parecia preocupada ou nervosa por causa de alguma coisa, antes de dormir?
      Jo no queria mencionar a irritao de Jake naquela tarde, mas, como ele a observava com uma expresso inquiridora, encolheu os ombros e resolveu falar:
      -  Sam   ficou   nervosa   esta   tarde.   Pensou   que   estivesse   bravo com ela.
      - Entendo - disse ele, abaixando o olhar para a xcara.
      -   Mas eu expliquei que voc estava cansado por causa do excesso de trabalho e ela pareceu ficar satisfeita com a explicao.
      Jake murmurou um palavro e algumas recriminaes contra si mesmo. Esforando-se para entend-las, Jo percebeu alguma coisa como "era bom que fosse s isso". 
Imaginou que talvez algo no estivesse indo muito bem com o livro.
      -  E foi tudo?
      - Sim. - Jo hesitou e depois achou que seria justo acrescentar: - Ela tambm parece muito preocupada com seu futuro casamento com a srta. Vale.
      Jake ficou muito quieto e tomou um outro gole de ch, suas plpebras escondendo a expresso dos olhos.
      -  Talvez voc devesse... - Jo parou, achando melhor no se aprofundar muito no assunto para seu prprio bem.
      -  Devesse o qu?
      -  Bem, Sam  muito sensvel e insegura. O que ela  precisa  de  uma  me.  Acho  que  deveria falar-lhe  de  seu  noivado  com  a srta. Vale, deixar a menina 
passar mais tempo com sua noiva para conhec-la melhor e... e gostar dela. - Sua voz foi sumindo, e mais uma vez o nico rudo que rompeu o silncio foi o do relgio.
      -  E acha que elas conseguiriam?
      -  Conseguiriam? - repetiu Jo, sem compreender.
      -  Gostar uma da outra.
      -  No sei dizer, no conheo a srta. Vale. - Mas se lembrou de sua m impresso ao atender ao telefone. - No entanto, para comear, seria bom se elas se vissem 
com mais frequncia.
      Jake sorriu, cnico.
      -   um pouco mais difcil do que parece. Sabe, a srta. Vale tem muitos atrativos, mas no morre de amores por crianas; especialmente as do tipo de Sam... 
to feinhas. - Apoiou os cotovelos na mesa e encarou Jo. - Para completar, acho que sou egosta demais para pensar na necessidade de encontrar uma me para Sam como 
um motivo  para  me decidir a  casar.  - Seus  olhos  escuros  pareciam penetr-la. - O que posso conseguir do casamento alm do que j tenho, sem ter que me comprometer?
      Jo sentiu que corava, por causa daquela franqueza, e afastou o
      olhar do rosto moreno.
      -  No tenho nada com o assunto - disse. - Foi s uma sugesto,
      nada mais do que isso.
      -  Certo, sra. Harrison. - Jake inclinou a cabea, caoando. - No entanto, eu seria um patife, se no reconhecesse o problema de minha sobrinha. A pobrezinha 
j sofreu mais do que muitos adultos.
      -  Chrissie me contou que os pais dela foram mortos longe daqui - disse Jo, afastando o pensamento dos prprios sofrimentos.
      -  Voc no leu os jornais?
      -  No. Eu...  estive fora...  por algum tempo. .- Como podia contar a algum que estivera internada, cheia de sedativos, para no
      se ferir ou a outra pessoa?
      -  Foi h quase quinze meses. A imprensa fez o maior estardalhao, como sempre. No posso culp-los. - Jake encolheu os ombros.
      -  Chrissie me disse que seu irmo era reprter.
      -  Ah, sim. - Ele fez uma careta. - Dave nunca, ficava mais de duas  semanas  no  mesmo  lugar.  Mal  voltava  para  casa,  j  estava ansioso para partir. 
S parou algum tempo quando conheceu Denise.
      -   Sua cunhada?
      -  Sim. Eles casaram um ms depois de se conhecerem. Por muitos anos,  Denise  o  acompanhou  a  todos  os  lugares.   Ela   gostava  de novidades, de toda 
aquela excitao. - Por um instante, Jake ficou com uma expresso muito fria. - Para ser justo, Denise foi a esposa perfeita para Dave. Ajudou-o muito.
      -  Ela ia a todos esses lugares que so notcia? - perguntou Jo, incrdula. - Mas...  e Sam?
      -   A chegada de Sam perturbou todo o esquema. Denise nunca se importou com a maternidade e, logo que pde, deixou a menina com a av e seguiu para perto de 
Dave. A menina s estava com eles no Oriente Mdio porque a me de Denise sofreu um pequeno problema cardaco e precisava descansar no hospital. O hotel onde estavam 
foi atingido por uma bomba e muitos morreram,  inclusive Dave e Denise. Sam escapou por milagre, mas ficou vrias horas sob os escombros, engatinhando para encontrar 
a me. - Jake deu um suspiro. - Esse  o motivo dos pesadelos.
      -  Oh. Jake, que coisa terrvel! - Impulsivamente, tocou a mo dele. - Ento, voc foi busc-la?
      A mo morena se moveu, os dedos se cruzando com os dela, apertando-os firmemente.
      -  Normalmente, Sam teria voltado para a casa da av, que foi praticamente quem a criou, mas a notcia da morte de Denise causou um outro ataque cardaco, 
muito mais grave. Esteve internada por muito tempo e s agora est se recuperando. Mora com outra filha, no Sul. Sam pensa que  porque a tia teve um beb. - Jake 
deu um outro suspiro. - Assim...  a menina teve que ficar comigo.
      -  E... e ela o adora - Jo falou, emocionada.
      -   Eu sei - murmurou Jake, passando o polegar suavemente peia palma dela, e toda a atmosfera do momento mudou dramaticamente, enchendo o ar com uma tenso 
eletrizante.
      A conscincia do que estava acontecendo atingiu Jo como um soco, e ela quis puxar a mo. Os dedos de Jake a apertaram mais, seu olhar desafiando-a a tentar 
se afastar dele. Ficaram sentados assim, imveis, por segundos que pareceram infinitos.
      -  ...     tarde.   Acho  que  vou  voltar  para  a  cama.  -  Ela empurrou a cadeira para trs, ainda tentando libertar a mo. - No resta muito da noite, 
mas. . .
      Jake levantou-se com ela, seu olhar fixando-se nas mos entrelaadas, antes de soltar lentamente os dedos.
      - No   no resta - disse, rouco.
      Jo dirigiu-se para a porta, sentindo os cabelos da nuca se arrepiarem sob o olhar de Jake. Sua audio pareceu ficar mais sensvel e podia ouvir a respirao 
dele, a cada passo, cada movimento, enquanto a seguia pelo correto at o quarto de Sam, onde a menina dormia
      profundamente.                     
      Ao chegar a seu  prprio  quarto,  entrou  e  virou-se  para  dizer boa-noite na voz mais natural que conseguiu. Ele parou por um instante seus olhos percorrendo 
o rosto de Jo, os seios sob o tecido do roupo, os quadris arredondados, as pernas elegantes e bronzeada .
       - No seria melhor dizer bom-dia?- Apoiou-se na parede. juntinho dela -  o que gostaria de ouvi-la dizer de manh, quando acordssemos lado a lado.- Sua 
voz era uma carcia, suas pupilas brilhantes pareciam queim-la. - E tambm gostaria de um boa-noite quando estivssemos pegando no sono. Por isso, no posso me 
afastar de voc, agora.
      
      
                                         CAPITULO VIII
      
      
      Jo ficou suspensa por um segundo, sem conseguir acreditar no que ouvia. Depois, entrou rapidamente no quarto, batendo a porta. Porm, seu momento de hesitao 
custou caro e Jake foi rpido demais para ela. Mesmo com o peso de Jo contra a porta, ele no teve que fazer muito esforo para abri-la e entrar.
      Os braos fortes a aprisionaram, ela se virou para enfrent-lo, esmagada entre o peito forte e a porta. Ficaram assim, imveis, olhos nos olhos.
      A cada segundo que passava, Jo se sentia sucumbindo  seduo que emanava daquele corpo poderoso. Os olhos escuros, carves na meia-luz do abajur, percorriam 
seu rosto, a linha suave do queixo, e se demoravam por instantes nos lbios trmulos. Jake ficou mais tenso, enquanto seu olhar descia pelo pescoo, at chegar aos 
seios que acompanhavam o ritmo agitado da respirao.
      - Faz idia do quanto desejo voc, Jo? - murmurou, com voz rouca, e passou a ponta do dedo pelo queixo bem-feito, tocando a curva sensvel dos lbios numa 
carcia leve, como o toque de uma pluma, deslizando pelo pescoo elegante para parar na ponta do decote em "V" do roupo.
      Jo sabia que devia fugir, fazer alguma tentativa para quebrar o encantamento, mas seu corpo queimava, incendiado pelo fogo daquele olhar que a imobilizava, 
deixando-a surda a todos os sons, exceto o da respirao de Jake; cega a tudo, exceto quele corpo alto e musculoso. Seria um sonho, uma alucinao da sua imaginao 
exaltada? No. Sua reao era real; a nsia de ser tocada, quase uma sensao de fome que contorcia suas entranhas.
      O dedo se afastou da pela macia, mas s para que a mo pudesse exigir o toque total de um seio cheio e palpitante. Jo literalmente parou de respirar.
      -  No! Por favor, Jake, no... - As palavras foram afogadas pelo desejo que a carcia provocava, mas ela tentou se libertar.
      -  Por favor,  Jake,  sim. - Ele imitou  sua voz  e  se  inclinou sobre ela.
      Jo virou o rosto, apavorada, sabendo que seu corpo a trairia, no instante em que aqueles lbios sensuais tocassem os seus. Por um pouco, Jake contentou-se 
em lhe mordiscar a ponta da orelha, de um modo enlouquecedor, e depois deslizou os lbios pelo pescoo vulnervel. Ela comeou a tremer, sentindo as pernas bambas. 
Quando os lbios de fogo comearam a descer, seguindo a linha do decote, Jo virou-se para olh-lo.
      - Jake, pare. . .
      Suas palavras se perderam, abafadas pelo beijo exigente, embriagador, e o corpo de Jake foi chegando mais perto, com uma demora premeditada, at se apoiar 
totalmente no dela. As coxas firmes e o peito largo e forte pareceram derreter o tecido de suas roupas.
      Jake soltou a faixa do roupo e vagarosamente o fez escorregar pelos ombros macios at cair abandonado no cho. Depois a mo voltou para o seio quente. Jo 
gemeu baixinho.
      Levantou os braos para envolv-lo, seus dedos se afundando na carne firme daquelas costas poderosas.
      -  Meu roupo - disse Jake, rouco. - Desamarre!
      Procurando peio cinto com dedos trmulos, ela desfez o n e escorregou as mos pela pele macia da cintura de Jake, deliciando-se com uma explorao vagarosa 
c sensual daquele fsico poderoso.
      A mo forte e experiente puxou a ala da camisola e os lbios quentes acompanharam a linha do ombro, descobrindo um seio e deixando-a totalmente enlouquecida.
      Jake puxou-a novamente contra ele, os lbios tomando posse dos dela.
      Num instante qualquer, a camisola caiu no cho, junto ao roupo,  Jake tomou-a nos braos para coloc-la sobre a cama estreita, desarrumada pelo sono inquieto 
do comeo da noite. Tirando o prprio roupo num gesto rpido, ele se ajoelhou ao lado dela, as mos per correndo os contornos arredondados do corpo maduro e feminino.
      -  Meu Deus, como voc  linda...  Muito mais linda do que imaginei...
      Os lbios encontraram novamente seus seios e Jo entrelaou os dedos nos cabelos fortes e espessos, deliciando-se com sua maciez. Jake levantou a cabea para 
olhar para ela, o rosto iluminado por um raio de luar que se insinuava por entre as cortinas.
      - Como tenho sonhado ter voc assim junto a mim - murmurou com dificuldade. - Nunca desejei uma mulher como desejo voc. Jo E nunca imaginei que um dia fosse 
confessar uma coisa dessas - terminou, to baixinho, que ela precisou se esforar para entender as palavras.
      Seus lbios se encontraram, e o beijo foi longo e ardente, transportando-a numa onda sensual. Nunca havia sido levada por caminhos, como esse, com Mike. Jamais, 
em toda sua vida de casada... A primeira centelha de dvida a assaltou, formada em parte de culpa, em parte de medo, e comeou a crescer, a gritar, chamando por 
sua mente consciente, alertando-a para tomar cuidado. Depois daquele xtase, teria que enfrentar a viagem de volta  realidade, as consequncias de seus atos.
      Consequncias!, gritou novamente a voz dentro dela. Santo Deus o que estava fazendo? Jo ficou gelada. E se engravidasse? No estava tomando qualquer precauo, 
e Jake...   Oh, no!  Um filho, no! Nunca! Jamais poderia ter outro filho, no suportaria passar novamente pela alegria da maternidade, para depois enfrentar... 
Oh. a desolao e a agonia da perda. . .
      -   No! - A palavra saiu rouca, numa voz que mal reconheceu como sendo sua. - No! No!
      Jo sacudia a cabea freneticamente, as mos contra o peito de Jake. impotentes contra aquela parede de msculos, como se ele agora fosse s um adversrio pronto 
a trazer dor e angstia.
      -   No, Jake, no posso. - As lgrimas comearam a escorrer por entre os clios, enquanto olhava o rosto tenso  sua frente.
      - Ento, acha que pode chegar at aqui e depois dizer que no quer? - perguntou, spero. Seu olhar parecia queim-la. - No pode estar falando srio - disse, 
depois de segundos que pareceram uma eternidade, num tom de ameaa, seus lbios se esmagando contra os dela num beijo sem ternura, de puro castigo.
      O terror aumentou a fora de Jo e ela lutou, esmurrando-o nos ombros e nas costas. Quando os lbios exigentes finalmente a libertaram. Jake estava respirando 
pesadamente, os olhos dele penetrando-a como lminas de ao negro.
      -   Pelo amor de Deus. por qu?! - rosnou Jake, seu corpo ainda prendendo o dela contra a cama. - Jo fechou os olhos e balanou s cabea, em silncio. - No 
me diga que foi s fingimento. Voc pode ser uma atriz, mas no sou um menino inexperiente. Estava me querendo tanto quanto quero voc, no ?
      Ela continuou em silncio, o rosto virado para o lado. Ele lhe agarrou o queixo, forando-a a encar-lo.
      -  No estava?
      Jo fechou os olhos novamente, concordando com um levssimo movimento da cabea.
      Os dedos de Jake a apertaram, provocando dor e depois ele a libertou, respirando fundo.
      - Imagino que exista um motivo - disse, com sarcasmo.
      Jo continuou imvel, com a garganta apertada, incapaz de emitir qualquer som.
      -  Que, pelo jeito, voc no est disposta a revelar.  Por favor, queira me esclarecer. - O tom a fez gelar at os ossos.
      Como poderia explicar a ele a agonia? Nesse momento de paixo frustrada, depois da volta da lucidez, como poderia comear a falar sobre seus fracassos como 
esposa, como... E sobre Jamie, o lindo Jamie. .. e sobre a muralha de culpa que construra  sua volta, tijolo por tijolo, e que se desmoronara na noite do acidente, 
esmagando seu corpo e sua alma?
      -  Quer dizer que vou ter que adivinhar? - brincou Jake, com um humor gelado. - Vejamos! Falta de vontade? No, ns dois sabemos que no  verdade. Medo de 
perder sua preciosa virgindade, sra. Harrison? - Deu uma risada spera. - Ora, vamos, Jo, invente outra!
      -  Jake, por favor, no... no torne as coisas mais difceis.
      -   Mais difceis? Seria possvel?
      -   Jake, eu... Mike... - Engoliu dolorosamente e comeou novamente: - Meu marido. . .
      Jake disse um palavro e levantou-se, ficando parado ao lado da cama.
      -   No precisa dizer mais nada - falou, por entre os dentes cerrados,  enquanto se  abaixava para pegar  o  roupo,  o corpo suado brilhando  luz suave do 
luar. - No me interessa servir de substituto para um morto.
      -   Oh, Jake, eu. . .
      -   Pelo amor de Deus, no me venha com desculpas lacrimosas. Estou a ponto de possu-la com ou sem seu consentimento, pelo simples motivo  animal de  voc 
ser mulher  e eu  estar precisando  de  uma mulher, qualquer uma. Se ouvir um "sinto muito", acabarei me esquecendo de que sou civilizado.
      Sem outro olhar, saiu fechando a porta. Jo teve certeza de que, se Sam no estivesse dormindo no outro quarto, ele teria batido a porta com estrondo.
      Continuou deitada, sentindo um frio terrvel. As lgrimas haviam secado e uma dor gelada latejava dentro dela. Um gemido baixo, quase uma risada sem humor, 
escapou de seus lbios, ao pensar que ele estava imaginando que ela ainda amava Mike, que queria permanecer fiel  sua memria.
      Sentiu-se tomada pela culpa. O que poderia ter dito para Jake entender to mal a situao? E como se permitira lev-lo at aquele ponto? Tinha ficado furioso, 
e com todo o direito. Ela se comportara de um modo abominvel, indesculpvel.
      Sem um segundo pensamento, Jo levantou-se da cama, vestiu rapidamente o roupo e saiu para o corredor. Hesitou um pouco, quando seus dedos tocaram a maaneta 
da porta de Jake, mas forou-se a abri-la e entrar.
      Tentaria contar a ele sobre Jamie e sobre o fracasso de seu casamento. No podia deix-lo pensando que ainda estava apaixonada por Mke. No podia haver algo 
mais distante da verdade.
      Quando seus olhos se acostumaram com a escurido, viu que a cama estava vazia. Enquanto permanecia imvel, hesitante, sentiu uma brisa forte vindo pelo corredor 
e foi para a sala, encontrando as portas de vidro abertas. Saiu para o terrao a tempo de ver Jake desaparecendo pelos degraus que levavam  praia.
      -  Jake! - O vento trouxe sua voz de volta, enquanto ele se afastava com passos largos, perdendo-se na escurido.
      Jo s pde voltar para o quarto e se atirar na cama, soluando desesperadamente. Sabia que sua atitude afastara Jake para sempre.
      Como poderia voltar a viver normalmente, depois de sentir aquelas mos acariciando sua pele, o contato com aquele corpo viril? Estava apaixonada por Jake Marshall, 
agora sabia disso. Ele tomara seu corao como se lhe tivesse rasgado o peito com suas carcias, e ela sentia um vazio imenso.
      Jo s pegou no sono quando comearam a surgir os primeiros raios de sol, e o cansao daquela noite cheia de emoes a fez perder a hora de se levantar.
      Um leve toque em seu brao a acordou. Abriu os olhos pesados, piscando por causa da luz que entrava pela janela. Gemeu baixinho, num protesto, sentindo a cabea 
pesada.
      -  Voc est muito dorminhoca esta manh, Jo - brincou Sam, subindo na cama. - Tio Jake j est com nosso caf quase pronto. Vai ficar a o dia inteiro, sua 
preguiosa?
      Jake. Toda a sordidez da situao voltou num segundo, e Jo sentiu um n na garganta, ao pensar em enfrent-lo novamente. Qualquer tentativa de desculpas aumentaria 
ainda mais seu embarao.
      A menina a observava com um ar de expectativa, e Jo sentou-se, com uma careta.
      -  J estou indo.
      -  Tio Jake disse que a comida estar na mesa em cinco minutos. - Sam pulou da cama e baixou a voz, num tom conspirador: - Acho que   melhor vir depressa, 
porque  ele  est com  uma cara muito feia. - A menina franziu a testa, imitando a expresso do tio.
      -  Est bem. V indo, que estarei l num minuto. - Jo atirou as cobertas  para  longe,  sem  perder tempo em  imaginar qual  seria  o motivo para tanta irritao.
      No demorou muito tempo para vestir um jeans e uma camisa. Fez outra careta, ao ver que escolhera, sem perceber, uma de mangas compridas, com decote fechado 
at o pescoo. A quem estava querendo enganar? Com um gesto nervoso, dobrou as mangas e abriu os primeiros botes, enquanto se dirigia para a cozinha. Jake estava 
de costas, quando entrou, e ela teve certeza de v-lo ficar muito tenso, ao ouvir Sam dizer:
      -  Vamos comer ovos mexidos em cima das torradas, Jo. - A menina j estava sentada em frente ao prato.
      Jake virou-se, seus olhos encontrando-se com os cie Jo por um momento terrvel, antes de ele colocar a jarra de suco na mesa.
      -   Sinto muito por ter perdido a hora - disse ela, quando ele se sentou  sua frente, to perto e to distante ao mesmo tempo. - Obrigada por ter cuidado 
do caf.
      -  Tudo bem. - A voz saiu neutra, e depois disso s a conversa de Sam interrompeu o silncio dos adultos.
      Jo comeou a mexer no prato, perdida em seus pensamentos, lembrando-se de cada cena da noite anterior, incapaz de acreditar que tudo aquilo tinha realmente 
acontecido.
      -  No est gostando dos ovos, Jo? - perguntou Sam, inocentemente.
      -  Sim, claro.  s que ainda no estou bem acordada.
      -  Tudo por minha culpa - disse a menina, com uma carinha arrependida. - Se eu no tivesse acordado voc no meio da noite, no estaria com sono.
      Jo voltou  realidade com um pequeno choque. No imaginava que a garota se lembrasse do pesadelo.
      -  No foi nada, querida. Esses sonhos feios so muito assustadores, no ?
      -  Detesto eles - disse Sam, balanando a cabea. - Podemos ir  praia depois?
      -  Claro.
      Jake ps a faca e o garfo sobre o prato e se levantou.
      -  Bem, com licena. Estarei no estdio, se precisarem de alguma coisa.
      -  Acho que tio Jake est cansado de novo - observou Sam, cheia de compreenso, vendo-o se afastar.
      Ao voltar da praia, as duas estavam tomando suco de frutas, quando Jake reapareceu na cozinha. Usava um safri azul-marinho, com uma camisa combinando, e estava 
to atraente que Jo quase perdeu o flego,
      -  Vou  cidade. Passarei a noite S. Devo estar de volta amanh.
      -  Vai visitar Chrissie, titio? Podemos ir tambm?
      -  No,  Sam.  Depois,  voc  pode  telefonar para  Chrissie,  para perguntar como ela est passando. - Apalpou os bolsos e tirou as chaves do carro. - Bem, 
estou saindo. At amanh.
      Sam correu para o tio e ele a pegou no colo, at chegar aos degraus da varanda.
      -  At amanh, tio Jake. - Beijou-o, carinhosamente.
      Jo sentiu um n na garganta. Como gostaria de poder imitar a menina, correndo para abra-lo, e se despedir com um beijo. . .
      A casa pareceu ficar morta e vazia, sem Jake, apesar de Jo saber que, se ele ficasse ali, passaria todo o tempo trancado no estdio. O dia pareceu se arrastar, 
enquanto ansiava por sua volta, desesperada para se desculpar, para explicar suas aes da noite anterior.
      Foi se deitar assim que Sam pegou no sono e, felizmente, o cansao cobrou sua dvida e ela dormiu imediatamente.
      A batida da porta de um carro acordou-a assustada. Sentou-se na cama, esperando por outros rudos. Quem poderia ser? Jake havia dito que s voltaria no dia 
seguinte. Num segundo, lembrou-se de que ela e Sam estavam completamente sozinhas numa casa isolada, e o pnico apertou sua garganta. Lutando para se controlar, 
vestiu o roupo e abriu cuidadosamente a porta do quarto. Tinha que investigar o que estava acontecendo.   
      Entrou no corredor, andando nas pontas dos ps, e foi para a porta dos fundos, querendo e no querendo ouvir um outro rudo. Uma batida no cho, como se algum 
tivesse tropeado nos degraus, quase a matou de susto, mas ela foi seguida por um palavro abafado, dito numa voz profunda e conhecida que trouxe uma onda de alvio.
      Acendendo a luz, ela abriu a porta. Jake estava com a chave na mo, pronta para coloc-la na fechadura, e a primeira impresso de Jo foi que devia estar um 
pouco bbado. Tinha o palet jogado sobre um ombro e a camisa desabotoada at quase a cintura, escapando do cinto em um dos lados.
      -  Ora, ora, um comit de boas-vindas - disse ele, com sarcasmo, e entrou com um passo decidido e tranquilo, que desmentiu sua aparncia.
      Atirou o palet sobre uma poltrona e foi para a cozinha, acendendo todas as luzes no caminho. Sem muita certeza do que fazer, Jo seguiu-o e ficou parada na 
porta, observando-o enquanto ele enchia de gua a cafeteira eltrica.
      -  Ouer... quer que eu faa isso? - perguntou, hesitante.
      -  O qu? - Os olhos escuros pareciam lquidos e brilhantes.
      -  Quer que eu faa o ch? - Ficou muito corada e comeou a torcer as mos.
      -  No precisa se incomodar. - Jake pegou uma xcara s.
      -  No o esperava esta noite. Levei um susto. Voc...  voc fez boa viagem? - gaguejou, seu bom senso dizendo-lhe que devia deix-lo sozinho.
      -  tima. - A resposta saiu de m vontade.
      -  Bem, eu... boa noite.
      -  Quer um pouco?
      -  Se quiser que eu faa companhia. . .
      -  Santo Deus, mulher! No preciso de companhia para tomar uma xcara de ch!
      Jo abaixou os olhos, as lgrimas ameaando cair por causa daquele tom to grosseiro e inesperado.
      -  Desculpe. Boa noite.
      -  Jo?
      Seu tom tinha perdido muito da agressividade, e ela parou, viran-do-se para lanar-lhe um olhar apreensivo.
      -  Acho que devo pedir desculpas - disse Jake, mais tranquilo. - No estou no melhor dos humores.
      -  Est tudo bem. - A mudana de atitude trouxe novas lagrimas a seus olhos. - Voc deve estar cansado.
      -  Cansado? - Sua boca se contorceu num sorriso sem alegria. - No o bastante. Oh, Deus, como gostaria de estar exausto...   - resmungou, e Jo recuou um passo.
      Jake xingou novamente e virou-se de costas para ela.
      -  V para a cama!
      Ela comeou a se afastar e, quando ouviu as palavras seguintes, parou por um segundo, mas no se virou.
      - E, Jo, se eu fosse voc, passaria a chave na porta.
      Ela fugiu pelo corredor e trancou a fechadura com dedos trmulos, antes de se apoiar na parede, soluando desesperadamente.
      Os dias seguintes foram passando num crescendo de tenso. Jake se mantinha fechado no estdio, apesar de Jo e Sam nunca ouvirem, o rudo da mquina de escrever. 
Ela tentou escapar da atmosfera,: inventando mil desculpas para estar fora de casa, fazendo compras no supermercado, passeando pelo centro comercial, vendo vitrines, 
chamando a ateno de Sam para as novidades, algo que nunca fizera antes. Com receio de ser reconhecida, s ia ao supermercado para o essencial, fugindo de volta 
para casa o mais rpido possvel.
       noite, Jo lutava para dormir, mas o sono se recusava a vir. Procurava ler at ficar exausta, tentando se concentrar nas palavras impressas para afastar qualquer 
pensamento da proximidade de Jake. Pouco a pouco, comeou a entrar em pnico, assustada com a possvel volta da antiga depresso. Tinha verdadeiro pavor, ao pensar 
no esgo-. tamento nervoso que a afastara do mundo por tantos meses.               
      Se Maggie estivesse ali! Se pudesse conversar com ela! Talvez de- vesse ir procur-la. Levaria Sam. Seria bom para ela tambm. Poderia brincar com crianas 
de sua idade. Porm, como falaria de Jake  irm? Teria primeiro que confessar a si mesma que estava apaixonada como uma adolescente e tinha muito medo disso. Precisava 
manter aquele vazio dentro dela, o vazio que a salvava da loucura.
      Pensou em falar com Jake  noite, durante o jantar. Sabia que precisava ver Maggie, conversar um pouco com ela, procurar algum conforto. Pediria para levar 
Sam, e ele no poderia recusar. Porm, Jake no apareceu para o jantar, mandando Sam com o recado de que comeria um sanduche mais tarde.
      Depois de pr a menina para dormir, Jo tomou um banho de chuveiro e acomodou-se na cama, encostada nos travesseiros, tentando ler. Ficou ali durante uma meia 
hora, mas a histria no conseguiu prender seu interesse.
      Um pouco de televiso, talvez? Raramente via algum programa, mas um show de variedades ou um filme talvez a ajudasse a relaxar um pouco. Ouviu o rudo abafado 
da mquina de escrever, quando entrou na sala de visitas para ligar o aparelho. Acomodou-se numa poltrona e, usando o controle remoto, comeou a escolher os programas, 
decidindo-se por uma comdia inglesa com artistas conhecidos.
      Quando o filme terminou, meia hora mais tarde, j se sentia bem melhor. O programa seguinte seria um debate poltico. Sem disposio para se concentrar em 
assuntos mais srios, Jo passou para outro canal. Sua mo se congelou sobre o boto, ao ver aquele rosto to conhecido sorrindo para ela.
      O penteado estava um pouco mais severo, de acordo com a moda da poca e o tipo que representava. Os lbios perfeitos, pintados num tom de rubi, brilhavam. 
Os olhos azuis, realados por clios escuros, mostravam pureza e inocncia. No havia nuvens no horizonte daquela moa to bonita, nenhum peso em seus ombros bronzeados.
      Jo comeou a tremer. De incio, foi s um ligeiro arrepio, mas logo teve que se abraar para impedir o tremor. Seu rosto estava plido, como se tivesse visto 
um fantasma. E era o que havia visto... um verdadeiro fantasma. Aquela imagem era a mesma que costumava ver no espelho todas as manhs. No entanto, havia uma diferena, 
uma enorme diferena. A Joelle Brent do vdeo tinha um rosto perfeito, sem aquela terrvel cicatriz, sem as marcas da agonia.
      Desligou a televiso e ficou olhando para o vdeo escuro. No pense! No pense!, gritou dentro de si, enquanto corria para o quarto, procurando um refgio, 
imaginando que, quando fechasse a porta, fecharia todas as lembranas do lado de fora.
      Claro que no era to simples. Comeou a andar pelo quarto, ansiando pelo sono e seu esquecimento, e ao mesmo tempo temendo as consequncias que aquela coincidncia 
poderia desencadear.
      Jo participara de trs filmes, sempre preferindo trabalhar no palco, e aquele havia sido o primeiro. Esses filmes a tinham levado a papis cada vez melhores, 
at o estrelato, no terceiro, feito logo aps seu casamento com Mike. Sua atuao resultou num convite para trabalhar numa superproduo internacional, que a levaria 
a ser uma atriz mundialmente conhecida. A oportunidade do sculo, dissera Mike, que jamais a perdoara por recusar o papel.
      Como um animal ferido, Jo arrastou-se para a cama e cobriu a cabea com os lenis. No entanto, suas feridas eram profundas demais e no haveria blsamo para 
elas.
      Como era ingnua e tola, naquela poca! Como vivia num mundo de iluses, cheio de flores e presentes! Era tudo to positivo  sua volta, que nem podia imaginar 
o que seria uma nica coisa negativa.
      Nunca pensara em ter filhos, at a tarde em que o mdico confirmou sua gravidez. Diferente de mulheres como Maggie, no se imaginara tendo uma famlia para 
cuidar. No entanto, ao saber que havia uma criana crescendo em seu ventre, toda sua perspectiva se modificou.
      Ainda podia se lembrar do calor que sentia dentro de si, enquanto se dirigia para casa, saboreando seu segredo. Maggie estava certa: era uma experincia deliciosa, 
indescritvel.
      Naquela noite, preparou um jantar especial, com velas e msica suave, ansiando pela volta de Mike. Antes que ele pudesse tirar o palet ao entrar, j estava 
em seus braos, e ele a carregou alegremente para o centro da sala do pequeno apartamento.
      -  Ei, o que  tudo isto? O que estamos celebrando? No me diga que Aaron telefonou, sem esperar que eu chegasse.
      -  No, ele no ligou. Por qu?
      -  Conto depois. Mas diga-me, o que estamos celebrando?
      -  Bem, para comear, j estamos casados h oito meses - brincou Jo.
      -  s isso? Ento, tenho uma coisa muito melhor para comemorar. - Mike colocou-a no cho.
      -  Eu disse que era s o comeo.
      -  Certo. E o que mais?
      -  Vou deixar para depois. Primeiro, conte o que voc tem para celebrar.
      -  Tive um dia sensacional. Aaron e eu passamos a maior parte do tempo com Bill Davies, discutindo sua prxima produo.
      -  Bill Davies, o produtor americano?
      -  Sim. E decidimos que voc ser perfeita para o papel principal.
      -  A estrela de uma superproduo?
      Mike sorriu, no cabendo em si de contente.
      -  Isso merece aquela garrafa de champanhe que estvamos guardando para uma ocasio especial.
      - Oh, Mike, acho que no vou poder participar.
      -  Por causa do teatro? Bobagem!  A filmagem s vai comear daqui a seis meses, justamente quando seu contrato vai estar terminando. Tudo se encaixa maravilhosamente!
      -  No  isso.  por causa de minha novidade, Mike. No vou estar com o corpo certo para filmar. Estou grvida. No  maravilhoso?
      Mike ficou boquiaberto por alguns instantes,  antes de se deixar cair numa cadeira.
      -  Mike, o que aconteceu? - Seu sorriso sumiu.
      Ficou olhando para ela em silncio, e Jo atravessou a sala para ajoelhar-se perto dele.
      -  Mike.. . no fique assim - disse suavemente, mas sentindo um frio no corao. - Haver outros papis.
      -  No seja boba, Jo! - gritou, levantando-se e indo para o bar, servir-se de um usque duplo. - Sabe muito bem que nunca haver outra oportunidade como esta.
      -  Tenho f em meu talento, Mike. - Afastou-se dele. - De qualquer modo, agora  tarde.
      Mike veio at ela e a fez virar-se delicadamente para ele.
      -  Jo, sinto muito. Voc me pegou de surpresa,  tudo. Sabe que tnhamos decidido no ter filhos por um bom tempo.
      -  No fiquei grvida porque quis.
      - Eu sei, eu sei. - Acariciou os ombros dela. - Vai dar tudo certo. Poderemos ter outros filhos mais tarde. - Outros filhos? O que est querendo dizer?
      -  Estou querendo dizer que... bem, hoje em dia  uma operao simples e segura. - Mike desviou o olhar.
      -  Um aborto?
      -  Jo.. . - Apertou seus ombros. - Ainda no  a hora para termos uma famlia. Precisamos pensar em sua carreira. ..
      -  E na sua - disse Jo, cheia de amargura.
      -  E na minha, droga!
      -  E, sem a minha, a sua no ir para a frente.
      -  No to depressa como eu gostaria.
      -  Foi por isso que casou comigo, Mike? - perguntou ela, baixinho.
      -  No seja ridcula! Sabe muito bem por que casei com voc. - Mike  afastou-se.  - Jo,  tenho que  ser franco.  Simplesmente,  no estou pronto para lidar 
com fraldas, choro, vida domstica. Acho que no devemos ter essa criana.
      -  No vou assassinar meu beb.
      Sem uma palavra, Mike deixou o apartamento. Desse momento em diante, nunca mais falaram sobre a criana, e seu casamento deixou de existir. Tornaram-se dois 
estranhos morando na mesma casa. Para agradar Mike, Jo voltou a trabalhar quinze dias depois do nascimento de Jamie.
      Jo enxugou as lgrimas. Sim, Mike estava certo: devia ter feito o aborto. Assim, no teria havido toda aquela agonia... No pense! No pense! Fechou os olhos 
com fora, tentando apagar aquelas imagens do passado, que teimavam em passar em sua mente, como um filme.
       certa altura deve ter pegado no sono, pois comeou a sentir a escurido, a umidade, o terror, O barulho de metal se rasgando, a dor.
      No! No! Jo gritou em seu sono, as mos procurando algo para segurar, para no cair no vcuo da agonia. E, pela primeira vez, sentiu que no estava agarrando 
no nada. Braos fortes a envolveram, puxando-a para um calor quente e seguro.
      -  Jo, est tudo bem... estou aqui. Voc est segura - murmurava uma voz profunda e confortante.
      -  Jake? - Ela estava  quase acordada, agora,  e reconheceu a voz familiar.
      -  Calma.. . - Ele puxou sua cabea contra o ombro, acariciando delicadamente os cabelos.
      -  Oh, Jake, pobre Jamie... coitadinho do Jamie... - Estremeceu e aninhou-se ainda mais naquele peito forte. - Por favor, Jake, me abrace. ..
      Jo sentiu a perna nua encostada na dela e, bem no fundo da mente, percebeu que ele se deitara a seu lado. Um estremecimento de alarme passou por seu pensamento, 
mas a necessidade de amparo a fez se moldar contra ele como se fossem um s. Era loucura... mas uma deliciosa e celestial loucura.
      -  Jake, j estou bem, acho que voc deveria ir, agora - disse baixinho, sonolenta, sem tentar se afastar.
      -  Eu sei. - Beijou-lhe a testa, suavemente. - Relaxe e volte a dormir.
      -  Mas...
      -  Jo, fique quieta, e talvez eu me console s com um pedacinho do bolo, esta noite. Estou fazendo tudo para me manter controlado. No quero perder a cabea.
      Jo sorriu e se aninhou junto a ele, suspirando de alvio e felicidade, seu hlito acariciando o ombro de Jake. Ouviu-o prender a respirao e seus braos se 
apertaram por um instante, antes de ele for-los a relaxar um pouquinho. Ela se deixou levar por um sono tranquilo, protegida pela fora de Jake, esquecida de todos 
os pavores.
      
      
                                           CAPITULO IX
      
      
      Movimentando os msculos entorpecidos, Jo abriu os olhos bem devagar, piscando na escurido. Bocejou, imaginando o que podia t-la acordado. Virou a cabea 
para o relgio sobre a mesinha-de-cabeceira. Ainda no eram cinco horas. Levantou o brao para mudar de posio e ficou gelada, quando ele se encostou numa solidez 
viva e macia.
      Todo seu corpo ficou rgido, enquanto o crebro registrava que Jake estava deitado a seu lado. Tudo voltou de repente, o Filme, o pesadelo, o terror cego e, 
depois, os braos fortes envolvendo-a, a proteo, a segurana.
      Respirou fundo e voltou para o absoluto conforto daquela proximidade. O peito de Jake subia e descia, num movimento rtmico, indicando que ainda dormia profundamente. 
Sentindo-se segura, Jo deu vazo a seus impulsos, encostando-se toda nele. Ficou muito vermelha, quando percebeu que ele estava completamente nu, e as batidas do 
corao comearam a latejar em seus ouvidos.
      Virando a cabea, descansou os lbios contra o ombro forte, passando delicadamente a lngua pela pele bronzeada, o gosto de Jake como um nctar na boca.
      -  Oh, Jake! Se eu. ..  - murmurou.
      Ele se mexeu e virou-se para ela. O brao envolveu-a pela cintura, puxando-a para bem perto. Os lbios encontraram os dela, na escurido, movendo-se suavemente, 
com uma sensualidade sonolenta.
      -  Se o que? - perguntou, baixinho, antes de beijar a pontinha da orelha de Jo, provocando fascas de desejo por todo seu corpo.
      -  Est acordado?
      -  Hummm, espero que sim. - A voz veio rouca, vibrante. - Se no estiver, no me acorde. - Gemeu, e seus lbios voltaram aos dela, numa exigncia desesperada.
      Jo respondeu espontaneamente, reagindo  sua insistncia com um fervor que a fez ficar tonta. Quando Jake comeou a acarici-la por cima do tecido fino da 
camisola, gemeu seu nome baixinho, arqueando-se contra o corpo dele. Com mos ansiosas, ajudou-o a despi-la, ouvindo-o prender a respirao, quando a primeira luz 
da madrugada iluminou os seios, que pulsavam  espera do toque daquela mo forte e morena.
      Suavemente, ela comeou a lhe explorar as curvas e formas da figura musculosa e, por uma centelha de seu raciocnio, ficou muito chocada com sua falta de pudor. 
No entanto, a verdade que havia naquele magnetismo mtuo afastou todos os pensamentos de timidez, deixando-a sem temores de se entregar a Jake com todo amor que 
seu corao ressuscitado tinha a dar.
      Os msculos fortes das coxas dele ficaram tensos, quando os acariciou, e ele comeou a mordiscar os seios macios, enrijecidos pelo desejo. Quando seu corpo 
cobriu o dela, ele disse seu nome num gemido rouco e, para Jo, a doura daquele som trouxe lgrimas de alegria. No houve qualquer pensamento de desistir, e em poucos 
segundos o nico ar que havia era o que respiravam; o nico som, a msica que havia na harmonia de seus corpos; a nica vida, esse momento de puro desejo.
      O ato de amor criou uma nova dimenso para Jo. At ento, estivera dormente, escondida no fundo da escurido de seu ser, e agora subia a alturas que nunca 
imaginara que pudessem existir.
      - Jake. - O nome saiu num suspiro, enquanto flutuava, os desejos satisfeitos, de volta a uma suave realidade. Um sorriso de puro encantamento curvou seus lbios, 
que ainda sentiam o fogo daqueles beijos. - Jake. ..
      Quando acordou, os raios de sol entravam pela janela. O sorriso se acentuou e diminuiu momentaneamente, ao ver que ele no estava mais a seu lado. Porm, a 
marca no travesseiro ainda estava l, e Jo abraou-se a ele, espreguiando-se langorosamente. Amava-o tanto, tanto. E ele.. .
      Uma pequenina nuvem escura flutuava no horizonte dourado. Sabia exatamente o que sentia por Jake: amava-o apaixonadamente. Mas quais seriam seus sentimentos 
por ela? Na noite anterior, muito poucas palavras tinham sido ditas. Ele no chegara a dizer que a amava, enquanto ela. .. Oh, Deus, o que havia dito?
      Porm, ele fizera amor como se... Um soluo ficou preso na garganta. Jake dissera que a queria, mas no mencionara a palavra amor. Sentiu um arrepio gelado 
e percebeu que sua mo se levantara inconscientemente para tocar a cicatriz no rosto, seguindo as dobras e sulcos, um por um. No pouco tempo em que estivera naquela 
casa, a importncia daquela marca diminura. Agora, assumia propores gigantescas. Como podia ter se esquecido?
      Com um n dolorido na garganta, Jo levantou-se e olhou para o relgio, arregalando os olhos, pois eram mais de onze horas. A casa estava totalmente em silncio, 
e ela correu para o banheiro para tomar uma ducha rpida.
      O quarto de Sam estava vazio, e a porta do estdio, aberta. Encontrou um bilhete encostado no bule de ch, sobre a mesa da cozinha: "Estamos na praia".
      Sentou-se e apoiou a cabea nas mos. Como ia poder enfrent-lo, depois do comportamento despudorado daquela madrugada? Como poderia culp-lo, se estivesse 
pensando que ela era uma mulher fcil, sem moral?
      A voz alegre de Sam entrou pela porta, seus passinhos apressados seguidos pelos de Jake, firmes e tranquilos. Jo levantou-se num salto, as faces coradas, agarrando-se 
s beiradas da mesa.
      -  Oi, Jo! Fomos nadar, enquanto voc estava acordando. - Sam passou os bracinhos molhados em volta da cintura dela.
      -  ,  eu dormi demais novamente.  Ando muito preguiosa - disse, rapidamente, tentando no olhar para Jake, mas sua presena era como um im atraindo seus 
olhos.
      Finalmente, seus olhares se encontraram, e Jo inclinou rapidamente a cabea para o rostinho molhado de Sam. Ele estava com uma expresso distante, como se 
aquela noite no tivesse acontecido, como se fosse um produto de sua imaginao exaltada.
      -  Tio Jake disse que voc estava cansada. - Sam deu um beijo molhado na face de  Jo,  e  ela se abraou  quele  corpinho frgil, precisando dar vazo ao 
amor que tinha reservado para Jake, dando-o a algum pronto a aceit-lo sem perguntas ou reservas. Sam sorriu, feliz, - Eu adoro voc, Jo.
      -   melhor ir tomar banho e se trocar, Sam - disse Jake, afinal.
      -  Est bem. - A menina passou saltando perto dele e depois parou, virando-se para Jo. - Quer vir me ajudar a escolher uma roupa para vestir?
      -  Claro. - Levantou-se, o corao acelerado, enquanto se aproximava dele, hesitando quando viu que sua figura grande continuava bloqueando a porta. Nervosa, 
levantou os olhos.
      -  Jo - disse Jake, suavemente. - Sobre a noite passada. . .
      -  Jo! - gritou Sam do quarto.
      Ele tendeu os msculos do queixo e passou a mo pelos cabelos molhados.
      -  Conversaremos mais tarde -. disse, saindo da cozinha e desaparecendo na direo de seu quarto.
      Depois do almoo, Jo e Sam estavam ocupadas cuidando da horta, quando o rudo de um motor de automvel as fez se levantarem, curiosas. Jo levou a mo ao leno 
que prendia seus cabelos, certificando-se de que ainda estava no lugar, e empurrou os culos escuros mais para cima do nariz.
      -   um txi - disse Sam. - Quem ser?
      A mulher que desceu no podia ser outra seno Lexie Vale, pensou Jo, um segundo antes de Sam se chegar para to perto dela, que precisou dar um passo  frente 
para se equilibrar. Olhou para o rosto da menina. Estava contrado, com uma expresso preocupada.
      -   Lexie - sussurrou, quase desesperada, apertando sua mo com fora.
      Um mundo de emoes conflitantes tomou conta de Jo, ameaando sufoc-la. At esse momento, no tinha pensado naquela mulher, e agora a noiva de Jake estava 
ali, e ela se sentia cheia de vergonha. Como podia ter se esquecido de que ele no era livre, que tinha pelo menos um compromisso moral com aquela linda criatura?
      Subitamente, aquele ato de amor cobriu-se de uma onda de sordidez, e ela senliu uma nusea contraindo o estmago. Que tipo de mulher era ela?
      E Jake? Que desculpa podia ter para se esquecer de que estava noivo? No era a atitude de um... um homem decente? Era quase engraado. Se ele no fosse decente, 
que adjetivo poderia encontrar para si mesma?
      Respirando fundo, foi ao encontro de Lexie Vale, que estava pagando o motorista e indicando que ele devia pr sua mala na varanda.
      -  Posso ajud-la? - falou, ao se aproximar, e a moa parou nos degraus, virando-se para olh-la.
      Os olhos perfeitamente maquilados se estreitaram, passando, quase insolentes, desde o leno na cabea at a ponta dos dedos. Jo desejou ter o apoio moral de 
um traje mais elegante. Seu short desbotado e a camiseta velha pareciam itapos, comparados com o modelo exclusivo que a outra usava.
      O conjunto de Lexie era verde, num tom exatamente igual ao dos olhos,  e  a  cor  dos  cabelos   acobreados  se  repetia   no  estampado da  blusa  de  seda. 
Cada   costura,   cada   linha   denunciava   luxo   e sofisticao.
      -  Me ajudar? No, no ser necessrio. - A voz rouca era s um pouco mais alta do que tinha soado no telefone. - Estou aqui para ver Jake.
      Jo tirou as luvas de jardinagem e colocou-as sobre um dos bancos do jardim.
      -  Vou avis-lo de que est aqui.
      -  No precisa se incomodar, sra. Harrison. - Toda a postura de Lexie transpirava arrogncia. -  a sra. Harrison, no?
      - Sim, sou. - A culpa que Jo sentia fazia com que precisasse se esforar para olhar a moa frente a frente.
      - Muito bem, pode continuar com o que estava fazendo. - Indicou a direo da horta. - Conheo bem a casa e sou capaz de encontrar Jake sozinha - disse, virando-se 
e subindo os degraus.
      -  Ela nem disse al para mim - falou Sam, baixinho. - Se tio Jake estivesse aqui, ela teria me beijado e abraado. - Franziu o narizinho, - Por que ser que 
ela veio?
      -  No  sei. - Jo olhou para a porta por onde a  moa tinha desaparecido. - Na certa, para ver seu tio.
      Ou... Tentou afastar o pensamento. Talvez Jake tivesse percebido o erro cometido naquela madrugada e pedira para Lexie vir encontr-lo, para lembrar a si mesmo 
que era um homem comprometido. O corao de Jo comeou a bater dolorosamente. A coisa mais sensata a fazer seria deix-los sozinhos. Se a noiva estava l, podia 
ficar cuidando de Sam, e ela estaria livre para partir. E era provavelmente o que ele tinha em mente, pensou, sentindo o antigo torpor comear a tomar conta de seu 
corpo novamente.
      -  Mas, querido, . . - Os dedos de Lexie, com as unhas pintadas de vermelho, apoiaram-se no brao de Jake. - Pensei  que amos sair sozinhos, aproveitar a 
noite...  jantar, um show, um joguinho de cartas, danar. . .
      -  Sam   no   pode   entrar   no   clube.   Iremos   a   um   restaurante
      qualquer.
      -  Oh,  Jake!  - Lexie  fez  um  beicinho.  -  Voc  est  muito diferente. Acho que tem vegetado demais, aqui, longe da civilizao. Onde est toda aquela 
disposio? Voc costumava querer danar a noite inteira. No me diga que est ficando velho! - A risada alegre pareceu ralar os nervos de Jo.                   
      -  Pode ser.
      -  Alm disso.. . - Lexie chegou mais perto dele, lanando-lhe um olhar encantador -  ...  talvez Sam prefira ficar em casa com a sra. Harrison.
      Os olhos de Jake fixaram-se em Jo, que engoliu doloridamente, sentindo a boca seca, desejando ardentemente poder fugir para no ver essa mulher exibir seu 
direito de propriedade sobre ele.
      - Eu no vou, se Jo no for - disse Sam, olhando para Lexie com uma carinha infeliz.
      -  Eu no falei? - A moa sorriu, satisfeita.
      -  Jo ir conosco tambm - disse Jake, firmemente, soltando-se de Lexie. - Vou telefonar para fazer a reserva.
      -  Oue bom! - Sam bateu palmas. - Assim, Jo e eu poderemos usar nossos vestidos novos. So muito bonitos. Ns compramos na semana passada.
      Jake sorriu para a sobrinha.
      -  Muito bem,  quero  ver voc  linda,  ento.  -  Seus  olhos  se encontraram com os de Jo, antes de voltarem para a menina. - E isso no significa que ter 
a tarde inteira para se vestir. - Afagou a cabea de Sam. - Sairemos daqui a uma hora, quer esteja pronta ou no.
      -  Vamos, Jo! - Sam riu, toda contente. -  melhor comearmos j. Acha que devo ir de trancinhas ou de cabelos soltos?
      Jo no teve escolha seno seguir a menina, mas estremeceu ao sair da sala, sentindo os olhos verdes e frios de Lexie perfurando suas cosias e admitindo, cheia 
de culpa, que a moa tinha toda a razo de estar irritada.
      O fato de Lexie Vale no estar satisfeita com a presena de Jo na casa dos Marshall ficara bem claro desde sua chegada. Jo no sabia, nem queria pensar sobre 
o que ela e Jake teriam conversado naquela tarde. Passara o tempo todo na praia com Sam, procurando deix-los  vontade.
      Se Jake estava com remorsos, no o aparentava. Sempre que olhava para ele, Jo via uma expresso impassvel, quase indiferente. Como gostaria de ser assim: 
conseguir ligar e desligar as emoes de acordo com o momento. . .
      Enquanto punha o vestido novo, olhou, pensativa, para sua imagem no espelho. Por que Jake estava insistindo para ela sair junto com eles para o jantar? Gostaria 
de ficar ali, sozinha em sua casca, fugindo de dolorosas comparaes com o rosto perfeito de Lexie.
      Olhou para o vestido. O algodo macio moldava os seios maduros, a cintura estreita e os quadris  arredondados.  Um toque de batom rosa-plido completou o conjunto 
em tom pastel, o azul-claro do vestido combinando com os olhos e o dourado dos cabelos de Jo. Comeou a escov-los, sentindo as ondas suaves batendo nos ombros. 
O penteado que comeara a usar aps o acidente formava uma grande onda de lado, escondendo a cicatriz.
      Deixando o quarto com alguma relutncia, foi chamar Sam e no a encontrou. Continuou na direo da sala e, para seu horror, viu que Jake estava l sozinho, 
de costas para ela, olhando peia janela. Seus ombros pareciam um pouco cados, como se estivesse deprimido.
      Ele era a ltima pessoa com quem gostaria de se encontrar a ss. Ficou parada, imvel, perto da entrada. Talvez pudesse sair sem chamar ateno, porm, no 
mesmo instante, ele se virou e, por um segundo, Jo viu um ligeiro brilho de tristeza nos olhos escuros.
      -  No sabia que voc...  Estou procurando por Sam - disse, corando.
      - Ela est l fora, na varanda, impaciente por sair. - Ah, bem. Vou. . .
      -  Jo! - A palavra, dita numa voz controlada, a fez parar.
      Ele atravessou a sala e se aproximou. A mente de Jo dizia que devia sair dali o mais rpido possvel, mas as pernas se recusaram a seguir a ordem.
      -  Jo - repetiu, num tom mais rouco, desta vez mais pedindo do que ordenando.
      Continuou parada, com os punhos cerrados, sentindo uma dor enorme que roubou sua voz. A nica coisa que conseguia fazer era ficar olhando para ele, absorvendo 
cada detalhe de sua beleza viril. Os cabelos escuros, com alguns fios brancos nas tmporas, os olhos castanhos com clios longos e espessos, que num outro homem 
poderiam dar at uma impresso de feminilidade, mas que nele tinham um efeito exatamente contrrio. Os lbios. Lbios que davam uma impresso precisa de fora e 
resoluo e que podiam se curvar numa sensualidade excitante, capaz de levar qualquer mulher a alturas jamais imaginadas.
      Oh, Jake, por que teve que ser na hora errada? Por que no nos conhecemos antes de Mike, de Lexie, antes de Jamie?
      Um pouco de sua tristeza devia ler transparecido, pois ele pareceu ficar tenso, e suas mos estavam se levantando para toc-la, quando Lexie entrou na sala. 
Jo sobressaltou-se, com uma sensao de culpa, afastando-se do crculo magntico da atrao de Jake, corando, ao ver o olhar desconfiado da moa. A tenso que havia 
no ar pareceu explodir,   e,  pelo  brilho  nos  olhos  verdes,   sabia  que   Lexie  tinha conscincia dela.
      -  Est pronto,  querido? - perguntou,  docemente,  tomando  o brao dele.
      -  Vou...  vou ver se Sam est l fora - gaguejou Jo, saindo apressada,   com  os  ombros  pesados,   como   se  o  mundo  estivesse sobre eles.
      A viagem de quarenta e cinco minutos at o restaurante pareceu durar uma eternidade, para Jo, mas procurou prestar ateno  conversa animada de Sam para distrair 
o pensamento. Lexie, sentada ao lado de Jake no banco da frente, fazia questo de se dirigir s a ele, falando sobre lugares e pessoas que s os dois conheciam. 
Era uma sucesso de eventos sociais que, pelo jeito, deviam ocupar a maior parte do tempo da moa. De quantos acontecimentos semelhantes ela prpria participara 
no passado?, pensou Jo. Tinha que ser vista, dizia Mike, e amizades eram importantes para sua carreira.
      De algum modo, no podia imaginar Jake Marshall interessado em festas e reunies desse tipo. Olhou para a nuca bonita  sua frente, os cabelos cheios terminando 
logo acima do colarinho branco da camisa. Ansiando por estender a mo e toc-lo, olhou para Lexie, admirando com relutncia o modo como a moa continuava a falar 
alegremente, apesar das respostas lacnicas e pouco frequentes de Jake. Se ele agisse dessa maneira com ela, pensou, teria se fechado num silncio tenso e magoado.
      Seus olhos voltaram para ele e, por alguns segundos, seus olhares se cruzaram pelo espelho retrovisor. Para Jo, foi como um choque eltrico. Pelo resto da 
viagem, forou-se a ficar voltada para Sam e a paisagem que passava pela janela lateral.
      A comida do restaurante estava excepcionalmente boa, mas, para Jo. tinha gosto de cinzas. Estava nervosa como um animalzinho assustado. A maior parte de sua 
agitao era devida  proximidade de Jake, ao modo como seus olhares se cruzavam por sobre a mesa, sempre que ela levantava a cabea do prato. Mesmo quando ele se 
inclinava para ouvir melhor algum murmrio de Lexie, seus olhos permaneciam voltados para ela, causando uma sensao de angstia que a impedia de comer.
      A outra causa de seu nervosismo era o fato de ser sua primeira apario em pblico desde o acidente, e o rudo dos talheres, da conversa dos outros fregueses, 
parecia ecoar em sua cabea. Estavam numa cidade maior, num restaurante grande e muito frequentado. E se algum a reconhecesse? Deu uma olhada rpida em volta, procurando 
por algum rosto familiar, e depois reprovou a si mesma. Quem podia reconhec-la? J fazia quase dois anos e, como Mike costumava dizer, o pblico esquecia facilmente.
      -  Diga-me, sra. Harrison. - Os olhos calculistas de Lexie estavam sobre ela. - J no a vi antes, em algum lugar?
      -  No. - O corao de Jo quase parou.
      -  Tem certeza?
      - Sim. Estou. .. estou certa de que me lembraria de t-la visto. - A voz de Jo falhou, e sentiu as palmas das mos midas de suor. Esperou ardentemente que 
Jake no mencionasse seu passado.
      -  Hum...   estranho - disse Lexie, pensativa. - Parece-me um pouco familiar, agora que est assim, com os cabelos soltos. O que fazia antes de trabalhar 
como governanta?
      - Eu... estive parada por um bom tempo. - Jo tomou um gole de vinho para disfarar o nervosismo.
      -  Posso tomar sorvete, tio Jake? - perguntou Sam, numa vozinha animada. - Ou, ento, morangos com creme?
      -  Claro. E voc, Lexie, quer sobremesa? Jo? - perguntou Jake. As duas fizeram que no. - Bem, ento vamos at o balco para voc escolher alguma  coisa  bem 
deliciosa.  - Ele  se  levantou  e ajudou Sam a descer da cadeira. - Vocs nos do licena por alguns instantes?  -  Afastaram-se  de  mos  dadas,  deixando  Jo 
e  Lexie sozinhas.
      -  Por quanto tempo pretende ficar cuidando da casa de Jake, sra. Harrison? - perguntou a moa, depois de acender um cigarro.
      -  At Chrissie estar em condies de voltar ao trabalho.
      -  Entendo. - Os olhos verdes ficaram contemplando a ponta do cigarro e depois voltaram-se para Jo.
      Como uma cobra, pensou ela. Olhos frios e calculistas como os de uma cobra, esperando pelo momento de dar o bote mortal.
      -  O acidente de Chrissie deve ter sido um golpe de sorte para voc. Jo encarou-a estupefata,
      -  Como pode dizer que um acidente com algum  um golpe de sorte?
      -  Ora,  vamos,  sra.  Harrison!  Jake  no est aqui,  no  precisa fingir.
      -  Fingir? - repetiu Jo, seu primeiro pensamento sendo de que Lexie devia ter se lembrado de onde a conhecia. - No tenho idia do que est falando.
      -  Acho que sabe. - Lexie deu uma risada. - Voc construiu um  belo ninho  na casa de Jake e  foi  bem  espertinha.   Vejo  que conseguiu as boas graas da 
menina.
      Jo respirou fundo para poder falar com calma.
      -  Estou simplesmente substituindo Chrissie, at ela se recuperar. - Como gostaria de  se levantar e  deixar aquela  mulher falando sozinha! - E gosto mesmo 
muito de Sam.
      -  Oh, eu no a culpo por isso. Afinal, deve ter sido um grande choque ter que voltar a trabalhar, depois de ficar viva. Hoje em dia, no  fcil uma pessoa 
se sustentar sozinha. Parece que me disse que  viva, no?
      -  Sim,  eu  disse.  E,  se  insinua  que  estou  procurando  algum  para me sustentar, saiba que no pode estar mais errada. Sou financei- ramente independente, 
como se costuma dizer. Estou bem de vida.
      Lexie levou a taa de vinho aos lbios.
      - Sorte sua. Jake  um pedao de homem, no ? - Um sorriso  frio contorceu seus lbios. Quando Jo no respondeu, insistiu: - ento, sra. Harrison? Ele no 
 lindo?
      -  Acho que  bastante bonito, sim. - Jo manteve a voz calma   e desinteressada, os olhos presos na mesa.
      -  Bastante? - A risadinha de Lexie doeu nos nervos de Jo. -   Mesmo assim,  vou lhe  dar  uma  palavrinha de  aviso,  porque  no   gostaria de v-la magoada.
      -  Olhe, srta. Vale, eu...
      -  Ora, vamos! - Lexie bateu de leve na mo de Jo, que estava  sobre a mesa, e ela no conseguiu  evitar  de pux-la.  - Voc   uma mulher atraente e jovem 
demais para ser viva. A propsito, h quanto tempo perdeu seu marido?
      - H  mais  de um  ano - respondeu,  baixinho,  rezando  para Sam e Jake voltarem depressa.
      -  Pois  isso! Entende-se, voc se acha num estgio suscetve! e muito vulnervel. - Lexie teve um ar de falsa compaixo. - Mas creia,  uma absoluta perda 
de tempo pretender alguma coisa com Jake, porque. .. bem, Jake e eu, . .
      -  Tudo isso  perfeitamente intil, srta. Vale. Estou a par de seu noivado com Jake. Por favor, poderia mudar de assunto?
      -  claro. - Lexie passou a ponta do dedo pela beirada da taa. - Diga-me, foi o prprio Jake que lhe disse que estamos noivos?
      -  Sim. - Jo desviou o olhar, esperando que a outra no visse a dor em seu rosto.
      -  Ah, timo. Bem, posso ver que  uma pessoa sensata.  Mas, sabe?, achei que devia avis-la. Ele sempre tem montes de mulheres correndo atrs dele, e acho 
que no seria humano,  se, de vez em quando, no perdesse a cabea por uma carinha bonita.
      Jo engoliu em seco, sentindo uma pontada no corao. Carinha bonita! Teve que abafar uma exploso de riso histrico.
      -  Mas...   - Lexie encolheu os ombros. - Ele acaba sempre voltando para mim, esse malandro arrogante, e sou fraca demais para me recusar a perdo-lo. - Ajeitou 
os cabelos com um gesto estudado. - Para falar a verdade, acho que Jake no tem uma opinio muito favorvel sobre as mulheres, desde que seu primeiro amor fugiu 
com seu irmo.
      Jo arregalou os olhos, e Lexie balanou a cabea.
      -   difcil de acreditar, no? Foi h muitos anos,  claro, e acho que na poca Jake no era suficientemente excitante para Denise. Ela o deixou falando sozinho 
e casou com Dave. Na certa, foi por isso que ele tomou a responsabilidade de ficar com a menina, apesar de eu achar que ela estaria muito melhor com a famlia da 
me.
      Tanto Lexie quanto Jo procuraram com o olhar a figura alta de Jake, que vinha se aproximando, trazendo a sobrinha  sua frente.
      -  A nica coisa que posso dizer  que Dave Marshall deve ter sido uma coisa extraordinria - disse Lexie, baixinho.
      Jo sentia-se quase fisicamente doente, imaginando como aguentaria o resto da noite. Seu olhar procurou o de Jake, tentando ver alguma expresso de segurana, 
de apoio; algo que dissesse que tudo aquilo no era mais do que um sonho, um outro pesadelo, e que dentro em pouco ela acordaria para ouvir o barulho das ondas quebrando 
na praia, a risada alegre de Sam, o rudo da mquina de escrever, qualquer coisa, menos essa agonia de ficar trocando confidncias com a criatura fria e calculista 
a quem Jake pertencia.
      Ele sentou-se, rindo de alguma coisa que Sam tinha dito, e Jo sentiu uma parte de seu ser morrendo. Vivia na mesma casa com ele. Fazia as refeies com ele. 
Compartilhara uma cama com ele, numa noite de encantamento. Conhecia seu corpo firme e tinha se apaixonado desesperadamente por ele. Tudo isso para descobrir que 
mal o conhecia.
      Foi com enorme alvio que se viu de volta ao refgio de seu quarto. Depois de passar horas tentando dormir e de fazer uma anlise de seus sentimentos, decidiu 
finalmente que teria que se afastar dali, romper todos aqueles laos, para seu prprio bem.
      Porm, como conseguir escapar era o problema. Se no fosse pela menina, teria desaparecido no meio da noite. Mas, com Jake planejando levar Lexie de volta 
 cidade no dia seguinte, no podia deixar Sam sozinha. No entanto, tinha que sair dali o mais rpido possvel. Ele que encontrasse outra pessoa para cuidar da casa 
e da sobrinha, porque ela no suportaria esperar pela volta de Chrissie.
      Durante toda a manh, tentou encontrar alguns minutos a ss com Jake para poder lhe comunicar sua deciso, mas no o viu sem a presena de Sam ou Lexie. Depois 
do almoo, Jake e Lexie saram para visitar uns amigos que estavam hospedados num hotel, numa outra praia, avisando Jo de que voltariam  noite e que a partida da 
moa havia sido adiada para o dia seguinte.
      -  Gostaria que ela estivesse indo embora agora mesmo - murmurou Sam, vendo o carro do tio desaparecer na alameda. - Ela no gosta de mim.
      Jo olhou para a menina e suspirou, pondo o brao em torno de seus ombros e considerando que Lexie tambm no gostava dela.
      -  Jo? Acha que tio Jake vai querer casar comigo, se eu crescer e ficar uma moa bonita feito voc?
      Rindo com alguma relutncia, ela sentou-se no degrau e ps a menina no colo.
      - Voc vai ser muito linda, e seu tio passar a maior parte do tempo espantando um monte de rapazes bonitos que vo querer ser seus namorados.
      A menininha riu, e seu rosto tomou uma expresso muito parecida com a de Jake. Jo abraou-a, pensando como um dia podia ter imaginado que ela era feia. Sentia 
uma enorme dor no corao. Como ia conseguir abandon-la? Sam era agora parte de sua vida tanto quanto Jake. Teve que lutar contra as lgrimas que teimavam em surgir 
nos olhos.
      -  Gostaria que voc ficasse conosco at eu crescer, Jo.
      -  Chrissie vai  voltar logo - comeou ela,  num tom  de falsa alegria.
      -  Eu sei, mas eu queria ficar com voc tambm. - Sam comeou a mexer no boto da camisa de Jo. - Tio Jake tambm. Ele gosta de voc.
      Quem sabe, pensou Jo, seu corao se contraindo dolorosamente. Mas, antes que pudesse fazer qualquer comentrio, um carro entrou na alameda e ela se levantou 
apreensiva, segurando Sam nos braos. S podia ser Jake, Por que estaria voltando to de repente?
      O automvel fez a curva e estacionou. Uma figura alta e magra saiu de trs do volante, e o sol da tarde bateu nos cabelos louros e um pouco compridos, fazendo-os 
ficarem quase brancos. Jo protegeu os olhos com a mo e abriu a boca, espantada,  ao reconhecer as feies quase perfeitas.
      -  Aaron! O que... como.. . como me encontrou?
      -  Puro trabalho de detetive, querida. - Riu um pouco sem jeito, como se estivesse incerto sobre a reao  sua chegada. - Voc j devia saber que seria s 
uma questo de tempo. Acha que eu deixaria que desaparecesse de minha vida, criatura maravilhosa?
      -  Mas eu disse para Maggie no. . .
      -  No dizer onde voc estava - terminou Aaron. - E ela no me contou. Sabe muito bem como  Maggie. Nem a tortura a faria falar.
      -  Ento, como?
      -  Fiz uma coisa muito feia. Consegui dar um jeito de ser convidado para jantar e, enquanto ela e Ben estavam na cozinha tratando da comida  e dos  drinques, 
faiei  com  as  meninas.  -  Sorriu,  um pouco envergonhado. - No consegui  o endereo  exato,  claro, mas, quando elas me disseram que voc estava passando uns 
tempos com uns vizinhos da casa na praia, resolvi bancar o detetive. Felizmente, no h muitas casas  por  aqui.  Passei  por  duas ou trs  e aqui estou!
      -  Oh, Aaron! - Jo balanou a cabea. Se ele tivesse vindo logo aps sua chegada  casa de Maggie, antes de ficar conhecendo Sam e Jake, teria fugido dele 
com horror, porque  era um dos elos da cadeia que a prendia ao passado. Agora, podia olhar para ele sem qualquer sensao de agonia, e sorriu.
      Os olhos de Aaron se iluminaram.
      - Essa  a verdadeira Jo que conheo. - E ficaram sorrindo um para o outro.
      Sam mexeu-se no colo de Jo, interessada no estranho.
      -  Ele  seu namorado? - perguntou, baixinho, seus braos se apertando com mais fora em volta do pescoo da amiga.
      -  Infelizmente  no,  bonequinha.  - Aaron  passou  o  dedo  no queixo da menina, e ela sorriu, timidamente. - Eu sempre quis ser, mas Jo nunca deixou. - 
Havia uma ponta de tristeza na brincadeira.
      Jo desviou o olhar. Aaron era muito amigo de Mike, e ela sabia como tinha ficado aborrecido, ao descobrir que seu casamento no ia bem. Na poca, tentou falar 
com o amigo, mas Mike no quis discutir o assunto, mandando-o tratar da prpria vida. E Jamie adorava Aaron. Jo afastou as lembranas, quase antes de elas comearem 
a surgir.
      -  Quer...  quer uma xcara de caf?
      -  Adoraria. - Aaron seguiu-a para dentro da casa. - E qual  seu nome? - perguntou a Sam.
      -  Sam. E o seu?
      -  Sou Aaron Daniel e costumava trabalhar com Jo.
      Jo levou a mo aos cabelos, para ver se estavam cobrindo a cicatriz.
      -  Maggie me disse, depois de eu insistir muito, que voc tinha ido procurar um lugar para escrever - Aaron continuou.
      -  Sim, mas, na verdade, vim para c para...  descansar. E para livrar Maggie e Ben de minha companhia por algum tempo. Depois, Chrissie, a governanta, quebrou 
a perna e eu... eu me ofereci para cuidar de Sam.
      Aaron fez que sim, admirando o rosto de Jo.
      -   Voc est tima. Mais linda do que antes. Ela tocou os cabelos sobre a cicatriz.
      -  Tambm acho que a Jo  muito bonita. - disse Sam, e os dois adultos olharam para ela. - E ela disse que, quando eu crescer, vou ser muito bonita tambm.
      -  E sabe de uma coisa? Acho que Jo tem toda razo. - Aaron sorriu para Sam e ela devolveu o sorriso, toda feliz.
      -  Voc conhece meu tio Jake?
      -  No, acho que no. - Aaron lanou um olhar rpido para Jo.
      -  J acabei o leite, Jo. Posso ir brincar em meu quarto?
      -  Claro, querida.
      Quando Sam saiu da cozinha, Jo ficou olhando para a xcara de caf nas mos.
      -   verdade - disse Aaron, suavemente.
      -  O qu?
      -  Que voc  linda. Nunca vi um rosto to fotognico.
      -  Est tudo acabado, Aaron. Pela primeira vez, no havia amargura em suas palavras, s uma calma aceitao, e sentiu que uma parte do grande peso que carregava 
estava desaparecendo. - Sabe? No me importo mais com isto.  - Passou a mo  pelos cabelos, afastando-os do rosto com um gesto natural.
      Aaron conseguiu olhar para a cicatriz sem nem mesmo piscar.
      -  Eu j estava sabendo. Maggie me manteve informado. - Pegou o queixo de Jo, virando sua face para a luz. - Voc est muito bem, e  uma  coisa como  essa 
pode  ser  disfarada.  No  palco,  usaremos maquilagem, e nos anncios procuraremos encontrar os ngulos certos,
      Jo franziu a testa e encolheu os ombros.
      -  No percebe o que estou dizendo? Posso faz-la voltar ao palco, e bem l no alto, onde estava antes. - Aaron estalou os dedos. - E voc pode escolher qualquer 
produto que quiser anunciar na TV. Com o sucesso da outra campanha, ser voc quem dar o preo.
      -  Oh, muito obrigada pelo voto de confiana, mas no, obrigada. - Jo suspirou. - Faz tanto tempo que estou fora de cena.
      -  Bobagem, meu bem! E sabe muito bem disso. - Pegou a mo dela. - No imagina quanto todos tm sentido sua falta.
      Jo deu-lhe um olhar ctico e Aaron balanou a cabea, um pouco
      irritado.
      -  Em nosso mundo, meu bem, carinhas bonitas vm e vo. . , a maioria vai. Mas voc tem o que nenhuma delas possui: talento. E essa  a nica coisa que no 
termina,
      -  Aaron. . .
      - No. Jo, deixe-me terminar. Vou dirigir uma nova pea e gostaria que ficasse com o papel principal. Vou buscar a cpia que est em meu carro e a deixarei 
com voc. Fao questo de que leia.
      -   Sinto muito, Aaron, no quero voltar quele mundo -- disse,
      decidida.
      Aaron ia insistir, mas suspirou e encolheu os ombros.
      -  Bem, eu tentei. Mas parece que est mesmo decidida. - Tomou um gole de caf. - Quais so seus planos, ento? O que pretende fazer, quando a tal governanta 
voltar? O que vai acontecer, quando terminar esse trabalho temporrio?
      -  Ainda no pensei no assunto. Talvez continue aqui mesmo. Na casa de Maggie,  claro. - No enfrentou o olhar dele, pois estava mentindo; ficar seria a ltima 
coisa que faria. No aguentaria continuar perto de Jake e ao mesmo tempo to longe.
      -  Quer dizer que vai vegetar aqui, quando tem tanto talento para dar? - Havia um pouco de raiva na voz de Aaron.
      -  Gosto...   gosto  da solido.  - Se  ele  soubesse...   Se Jake quisesse que ela ficasse, se Jake... Jo fez um esforo para se controlar, lembrando a si 
mesma que no havia "ses", que no devia se iludir.
      -  Besteira! - Aaron franziu a testa. - Quem  o sujeito para
      quem est trabalhando?
      Jo ficou um pouco surpresa com a pergunta.
      -  Pelo que entendi, ele  o tio da menininha, no? - Aaron
      tomou o resto do caf.
      -  Ele  escritor - respondeu Jo, com relutncia.
      -  Ah! Um desses que esto tentando ou um bem-sucedido?
      -  Muito bem-sucedido.
      -  Eu o conheo? - Olhou-a com curiosidade, quando percebeu que hesitava em responder.
      -  Acho que ele  no gostaria  que  muita gente ficasse  sabendo onde mora.
      -   to famoso assim? - Aaron levantou as sobrancelhas. - Vamos, Jo, estou morrendo de curiosidade. Sabe que posso ser um tmulo, quando se trata de segredos. 
Meus lbios esto selados. - Prendeu os lbios com os dedos.
      -  Est bem - disse, com um leve sorriso. - Jason Marsh. Aaron endireitou-se na cadeira e assobiou baixinho.
      -  Jason Marsh, em pessoa? Puxa! Agora entendo sua hesitao. O homem protege sua vida particular como um rei guarda seu tesouro. Tive a oportunidade de conhec-lo 
numa conveno de editores em Sidnei. Um sujeito agradvel. - Fez uma pausa, olhando para ela cautelosamente.  -  Bonito,   todas  as  mulheres   presentes  estavam 
arrastando as asinhas para ele.
      - Sim, acho que  mesmo bastante atraente. - A garganta de Jo ameaou fechar, e, quando Aaron continuou em silncio, olhou para cima e corou ao ver seu olhar.
      -  Ah... Entendo.  por causa dele que no est interessada em retomar sua carreira?
      -  Claro que no. No  nada disso, Aaron. Jake. , . ele... Voc est   muito   enganado  -  terminou,   desajeitada,  sabendo   que  no parecia convincente 
nem para si mesma. - Ele est noivo.
      Aaron continuou olhando para ela por alguns instantes e depois levantou as mos num gesto expressivo.
      -  Ento, por que no ler o roteiro?
      -  No quero. Seria pura perda de tempo. - Jo respirou fundo.   - Acho que sou como uma pessoa que caiu do cavalo. No voltei para a sela no mesmo instante, 
e agora perdi a coragem.
      -  Bobagem!
      -  Acho que simplesmente perdi a motivao.
      -  Est desperdiando todo esse talento, menina,  uma pena. -   Aaron sacudiu a cabea. - E eu que tinha certeza de que ia convenc-la com meu charme irresistvel 
- terminou, com uma careta.
      -  Sinto muito, Aaron - sorriu Jo.
      -  No tanto quanto eu, acredite. - Olhou fixamente para ela, fazendo-a corar de novo.
      -  Eu...  eu no tive oportunidade de agradecer...   pelas flores e os cartes que mandou, quando estava...  estava no hospital. Foi muita gentileza. - Ela 
engoliu em seco. - Desculpe ter me recusado a receb-lo. Eu... eu no estava em condies de ver ningum.
      -  No se preocupe, foi mais do que compreensvel. Voc passou por um mau pedao.
      -  Sim - disse Jo, baixinho. - Como esto seus pais?
      -  timos.  -  Aaron  pegou  a  deixa de Jo  para  mudarem  de assunto e conversaram amigavelmente por quase uma hora, antes de ele se levantar para sair. 
- Infelizmente, lenho que ir agora. Estou na casa de uns amigos e prometi voltar para o jantar - disse, com alguma relutncia.
      Jo e Sam o acompanharam at o carro. Abrindo a porta, Aaron tirou um envelope grosso do banco de trs e colocou-o nas mos da moa.
      -  Fique com ele. D uma olhada. Por mim, Jo.
      -  Aaron, eu...
      -  S estou pedindo para voc ler. Que mal h nisso? Bem, at logo, querida. Sabe meu telefone e pode entrar em contato comigo
      quando quiser. Alis, gostaria que o fizesse.
      -  Aaron Daniel, voc nunca desiste, no ? - Jo fingiu estar muito brava.
      Ele sorriu e inclinou-se para beij-la no rosto, antes de entrar no carro.
      Naquela noite, logo depois de acomodar Sam para dormir, Jo foi para o quarto. No sabia a que horas Jake e Lexie chegariam e no queria dar a impresso de 
estar esperando por eles. Olhou vrias vezes para o envelope com a pea, antes de ser vencida pela curiosidade. Finalmente, acomodou-se na poltrona e comeou a ler.
      Em poucos minutos, estava totalmente absorvida na leitura. Quando terminou, j era mais de meia-noite. Aaron estava certo; era uma pea magnfica. No passado, 
teria feito qualquer coisa para conseguir o papel principal. Agora, no havia a mesma magia, o mesmo desejo de criar, nenhuma sede de dar vida quelas palavras datilografadas. 
A centelha vital estava morta e no sentia qualquer vontade de ressuscit-la.
      Depois de desligar o abajur, Jo foi para a cama e ficou no escuro, de olhos abertos. Talvez devesse aceitar a sugesto de Aaron. No!, gritou uma voz dentro 
dela. No havia volta, estava tudo acabado. No entanto, seria uma desculpa perfeita para ir embora, para virar as costas  sua tolice em relao a Jake Marshall, 
para comear uma nova vida.
      Seus lbios se contorceram com um pouco do antigo cinismo. No era o que todos haviam sugerido? Que devia comear de novo? Oh, Jake!, gritou seu corao. Por 
que no pode ser com voc?
      Passou uma noite inquieta e, por isso, no se admirou, ao se sentir muito desanimada pela manh. Quando entrou na cozinha para preparar o caf,  viu que  o 
carro  de Jake estava  estacionado  perto  da varanda. Eles deviam ter chegado de madrugada, pensou, pois j era muito tarde, quando pegara no sono.
      Quando Jake entrou na cozinha, j vestido com uma cala de brim e   uma  camisa  de  malha,  tanto  ela  quanto  Sam  o  olharam  com
      surpresa.
      -  Oi, tio Jake!  Pensamos que ainda estava dormindo. Voc se
      divertiu, na festa?
      Sorrindo para a sobrinha, ele se sentou  mesa. Depois de uma olhada rpida, Jo percebeu que devia estar muito cansado.
      -  Mais ou menos. E voc? Foi  praia com Jo? - perguntou, agradecendo com um aceno, Quando a moa ps a xcara de caf  sua frente. Tomou um gole e deu um 
suspiro satisfeito.
      -  No. - Sam balanou  a cabea.  -  Cuidamos  da  horta  e depois tomamos ch com Aaron.
      A mo de Jake parou no ar e ele levantou uma sobrancelha.
      -  Aaron  amigo de Jo - explicou a menina. - Gostei muito dele,  bonito e est sempre rindo. - Sam deu uma risadinha e cobriu a boca com a mo. - Ele beijou 
Jo, quando foi embora.
      Os olhos de Jake voltaram-se para a moa e seu rosto pareceu ficar tenso e sombrio.
      -  Ele...  ele era meu amigo...   meu amigo - gaguejou ela, e reprovou a si mesma ao perceber que havia uma culpa injustificada em sua voz. Que motivo tinha 
para se sentir culpada? - Trabalhei com ele e o conheo h muitos anos. Vai querer ovos com presunto?
      Os olhos de Jake permaneceram sobre ela por alguns segundos, antes  de  ele  fazer que no.
      -   Caf  suficiente.
      Jo sentou-se para terminar de comer, enquanto Sam continuava a conversar alegremente, sem perceber a tenso que tinha surgido entre os adultos. Depois de tomar 
o caf, Jake desapareceu pela porta do estdio.
      Como a porta do quarto de Lexie ainda estava fechada, Jo comeou a arrumar a sala de visitas, procurando no fazer muito barulho para no perturb-los. Mandou 
Sam ir brincar no jardim e estava distrada com seus pensamentos, quando ouviu a porta do escritrio se abrir e virou-se para encontrar Jake encostado no batente, 
observando-a com um olhar srio e hostil.
      Respirando fundo para no demonstrar sua perturbao, ela continuou a arrumar as almofadas sobre o sof, sentindo que o corao comeava a bater descompassadamente.
      -  Quem era aquele sujeito? - perguntou ele, finalmente, e Jo virou-se, segurando uma almofada nos braos como um escudo.
      Jake entrou na sala e parou perto dela. Sua atitude relaxada, com as mos nos bolsos, no a enganou nem um pouco. Estava tenso como uma mola, e Jo recuou involuntariamente, 
sua perna encostando-se no sof.
      -  Bem, quem era ele?
      -  J disse, um amigo com quem costumava trabalhar! - A voz de Jo saiu um pouco mais alta por causa do nervosismo.
      -  Como ficou sabendo que voc estava aqui? - Ele no tinha se mexido nem um milmetro, mas os olhos pareciam perfur-la.
      - Ele...   minha irm. - .   - gaguejou Jo, e engoliu em seco.
      -  Na verdade, ele ficou sabendo pelas minhas sobrinhas, filhas de Maggie. Ela jamais teria contado.
      -  Ento, voc no queria que ele soubesse onde est?
      -  Sim. .. no. No, exatamente.
      - Sim...  no. No, exatamente - repetiu Jake, com sarcasmo.
      -  Isso explica tudo.
      -  Eu...  o que quis dizer  que no queria ver ningum que conhecia antes...  antes do acidente. Tambm no queria ver Aaron
      pessoalmente.
      - Mas voc o convidou a entrar,
      -  Ele chegou de surpresa e, quando o vi... - Jo fez uma pausa.
      -  S estava sendo socivel.
      -  Socivel? - A voz saiu calma e assustadora. - No queria v-lo, mas foi socivel. E ainda estava sendo socivel, quando deixou
      que a beijasse?
      -  No foi desse jeito. - Jo enfrentou seu olhar.
      -  De que jeito?
      -  Do modo como est insinuando.
      -  Conscincia culpada, Jo?
      -  No. - Levantou a voz, indignada, e afastou-se dele, atirando
      a almofada no sof.
      Os dedos fortes agarraram seu brao e a obrigaram a se virar.
      -  Quero a verdade, Jo!
      -  Eu contei a verdade! - disse, cheia de raiva.
      -   mesmo? Duvido. - Nada mais que alguns centmetros separavam  seus   corpos,   enquanto   Jake   a   olhava   com   uma   expresso implacvel. - Vou adivinhar. 
Voc e esse tal de Aaron tiveram uma
      briguinha de namorados e voc fugiu para c, para dar-lhe uma lio, sabendo que ele acabaria descobrindo onde estava, atravs de sua famlia, e que viria 
correndo, morto de arrependimento.
      -  No! Isso  ridculo! - Olhou para ele, incrdula. - Como pde  imaginar uma  coisa  dessas?  Aaron  e eu  somos  s  amigos. Ele... ele era amigo de meu 
marido.
      Os lbios de Jake se apertaram numa linha tensa.
      -  Isso significa muito pouco, hoje em dia. Talvez formassem uma grande e feliz famlia - falou, cheio de malcia.
      -  Jake, por favor, pare com isso... - implorou Jo, tentando se soltar. - No  nada do que est imaginando. Aaron veio me procurar para me oferecer um papel 
na pea que vai dirigir.
      Os olhos de Jake percorreram seu rosto.
      -   um diretor?
      -  Sim, e muito conhecido. Talvez no se lembre, mas ele disse que foi apresentado a voc em Sidnei. Aaron Daniel.
      -  Voc lhe disse quem eu era? - A mo apertou-lhe o brao de novo, os dedos como garras machucando a carne de Jo.
      -  Pedi que guardasse segredo. Sei que posso confiar nele.
      -   voc quem diz.
      -  Sim, e voc tem que acreditar em mim. Agora me largue, est me machucando.
      -  Machucando? Gostaria de esgan-la! - Os dedos se apertaram ainda mais e depois ele a soltou de repente,  virou-se de costas e passou a mo pela nuca. - 
Quando vai comear os ensaios?
      -  Ensaios? - repetiu Jo, sem compreender, massageando o brao dolorido.
      -  Para essa tal pea. Vou ter que arranjar algum para cuidar de Sam.
      Ali estava a oportunidade de ir embora, de sair com dignidade, antes de deix-lo perceber o quanto o amava, o quanto estava desespe-radamente apaixonada, como... 
Porm, no teve coragem.
      - Eu disse que pretendo ficar at Chrissie voltar.
      Ele se virou para olh-!a de frente.
      -  Eu jamais aceitaria depender dos arranjos de uma outra pessoa para retomar minha carreira; portanto, no vou lhe pedir que faa isso. Voc foi uma atriz 
brilhante, com um futuro ainda mais brilhante. Sua carreira foi interrompida e agora surgiu a oportunidade de recomear.
      -  Quer que eu aceite o papel? - perguntou, baixinho, sentindo uma onda de dor surda tomar conta do corpo.
      No quero voltar ao teatro!, gritou para si mesma. S desejo ficar com voc. Quero seu amor, seu... No pense! No pense! Ela mordeu o lbio, antes que esquecesse 
o orgulho e deixasse as palavras sarem do corao.
      - No se trata do que quero ou no quero. - Jake foi at a janela e apoiou-se no peitoril. O silncio que se seguiu s suas palavras foi terrvel. Depois ele 
se endireitou, olhando para Jo com uma expresso pensativa. - Vou procurar algumas agncias de empregos, quando levar Lexie de volta  cidade, hoje  tarde. Gostaria 
que ficasse at eu encontrar algum para substitu-la.
      
      
                                      CAPITULO X
      
      
      Logo depois do almoo, Jake e Lexie saram para a cidade e Jo sentiu uma nuvem de tristeza envolv-la completa mente. Procurou prestar ateno  conversa de 
Sam para tentar fugir da depresso.
      At aquela manh, quando Jake a aconselhara a aceitar a idia de retomar sua carreira, sabia que, bem no fundo da alma, estava guardando uma esperana de que 
no se enganara completamente, de que ele tambm sentia um pouco de carinho por ela. Agora percebia o quanto havia sido tola. Estava to flagrantemente claro que 
aquela noite de amor no significara nada. que at chegava a sentir um pouco de nojo de si mesma por ter permitido que tudo acontecesse. Estremeceu, sentindo-se 
srdida e barata, e sua depresso aumentou ainda mais.
      Como fora breve seu momento de felicidade! As lgrimas marejaram seus olhos. Perdera todo o auto-respeito, ao se deixar levar por uma simples paixo fsica.
      Todos aqueles pensamentos no fizeram nada para aliviar sua sensao de vergonha e Jo desejou ter algum com quem falar, para se abrir em confidncias como 
costumava fazer com... Maggie! S o som da voz da boa e querida Maggie seria o suficiente para confort-la. O que mais precisava, no momento, era da tranquilidade 
e sensatez da irm.
      Correu para o telefone. Por que no ir a Brisbane para visitar Maggie? Jake tinha dito que provavelmente ficaria na cidade por uns dois dias, de modo que poderia 
levar Sam com ela. Seria bom para a menina brincar com crianas de sua idade. Em poucos minutos, j tinha falado com Maggie, combinando passar a noite com ela para 
voltar na tarde seguinte.
      Comeou a se sentir melhor e, antes de sarem, telefonou para o hotel onde Jake costumava ficar, deixando um recado, dizendo onde poderia ser encontrada, em 
caso de necessidade. Logo depois, estavam a caminho.
      -  Acha que elas vo gostar de mim, Jo? - perguntou Sam, um pouco assustada, quando viu a casa trrea que a moa lhe indicava.
      -  Claro que vo. - Estacionou o carro e desligou o motor. Mal tinha acabado de tirar a chave, duas menininhas, seguidas por
      uma mulher de cabelos escuros, saram correndo pela porta, dando
      gritos de alegria.
      -  Jo, parece que faz uma eternidade que no vejo voc! - Maggie abraou-a com fora, antes de ser obrigada a entregar a irm aos abraos das filhas.
      -  Al,   querida!   Sarou   do   sarampo? - Jo   abraou   uma   de cada vez.
      -  Fiquei toda pintada - disse Tracy, com os olhos arregalados.
      -  Papai tambm - gritou Kerry.
      -  Trouxe algum para brincar com vocs. - Ajudou Sam a descer do carro, segurando sua mo, enquanto ela se escondia timidamente atrs da saia de Jo. - Esta 
 Sam, uma amiga minha. Sam, estas so Kerry e Tracy, filhas de minha irm. E esta  Maggie.
      -  Al, como vai? - responderam todas em coro.
      -  Quer ver nossa casa de bonecas? - perguntou Kerry. - Papai construiu uma no quintal.  de verdade, d para se andar dentro dela.
      - V, Sam - encorajou-a Jo.
      -  Voc no vai embora sem me avisar, no ? - perguntou a menina, muito sria.
      -  Claro que no. Prometo. - Jo ajoelhou-se perto dela e arrumou a blusinha dentro do short. - Vamos passar a noite aqui. No foi o que combinamos?
      Sam balanou a cabea, e as duas meninas, muito entusiasmadas, pegaram suas mos para lev-la pelo corredor ao lado da casa. Jo a seguiu com os olhos por alguns 
instantes e depois virou-se para a irm.
      -  Oh, Maggie,  to bom ver voc de novo!
      -  Pois eu digo o mesmo. Est maravilhosa, com esse bronzeado. E vejo que est mais gordinha tambm. O ar do mar lhe fez muito bem.
      Jo pegou as malas no carro e seguiu a irm para dentro da casa.
      -  Tem certeza de que no viemos incomodar? Afinal, liguei em cima da hora. Voc e Ben no tinham nada planejado para esta noite?
      -  No seja  boba!  Sabe muito bem que nossa casa  sua, que pode aparecer na hora que quiser. Nem precisava ter telefonado. - Maggie olhou-a, cheia de carinho. 
- Ben vai trabalhar at tarde, hoje. e poderemos conversar  vontade. S vai chegar l pela uma da madrugada.  Pus uma caminha em seu quarto, porque achei que  a 
menina se sentiria mais segura com voc perto. Fique sossegada, est tudo arrumado.
      -  Obrigada, Maggie, voc  um amor. - Jo olhou em volta quando entrou no quarto, pondo a bagagem no cho. Parecia que havia partido h sculos, tantas coisas 
tinham  acontecido desde  a ltima vez que vira aquelas paredes.
      -  Vamos tomar uma xcara de caf. - Maggie lhe interrompeu os pensamentos. - As meninas ainda tm uma hora para brincar, antes que anoitea, de modo que teremos 
tempo para voc me contar tudo. Estive morrendo de vontade de descer a serra para visit-la, mas, com Ben fazendo horas extras para pr o trabalho em dia por causa 
do sarampo, nem pude pensar nessa possibilidade.
      Ligou a cafeteira eltrica, enquanto Jo pegava as xcaras.
      -  Fez uma boa viagem?
      -  Graas a Deus. - Jo flexionou os msculos cansados. -  um bom pedao de estrada.
      - Sabe, voc est muito bonita, com esse bronzeado, mas me parece um pouco abatida. - Maggie ps o caf sobre a mesa. - No tem dormido bem?
      -  Oh, mais ou menos. - Jo suspirou sem perceber.
      -  Certo, Jo, vamos l. Qual  o problema? Percebi que havia alguma coisa errada por seu tom de voz, quando me ligou, esta manh. 
      -  Oh, Maggie, voc deve estar farta de mim. Foi s pensar que estava livre de amolaes, e aqui estou eu de novo, para chorar no seu ombro. - Jo enxugou as 
lgrimas que marejavam seus olhos.
      -  Que bobagem!  Para que servem as irms? Tenho certeza de que faria o mesmo por mim, meu bem.
      -  S que voc  muito sensata e no se deixaria cair aos pedaos como eu.
      -  Voc no tem culpa disso, querida. Qualquer um teria ficado abalado, se passasse pelo que voc passou. - Maggie apertou a mo da irm num gesto carinhoso. 
- E agora...  est mais fcil? Quer dizer, foi bom ficar na praia?
      -  Sim. Acho que consegui ficar em paz comigo mesma. Na medida do possvel, pelo menos,
      -  E por que as noites sem sono? - perguntou, Maggie, com um olhar inquiridor.
      Jo encolheu os ombros, precisando desesperadamente se abrir com algum, mas sem saber por onde comear. Num gesto distrado, passou os dedos pela cicatriz, 
seguindo o sulco de alto a baixo.
      - Jo, voc...  bem, no est se preocupando com isso, no ? - Os olhos de Maggie indicaram a face marcada.
      -  No, quase nem me lembro dela. - Jo deu uma risada sem humor. - Engraado como, com o passar do tempo, as prioridades vo mudando. Quando fui para a casa 
da praia, s pensava em meu rosto o tempo todo. Nele e no... - Fez uma pausa. - Estava to envolvida em mim mesma, que nem sei como voc e Ben me aguentaram, todos 
aqueles meses.
      -  Ns a amamos, meu bem, e sabamos que, mais cedo ou mais tarde, acabaria se recuperando.
      -  Eu podia ter me afogado em autopiedade peio resto de meus dias, porque era o que pretendia fazer. Eu... eu menti a voc, quando disse que queria ir para 
l para escrever. Meu verdadeiro desejo era ficar sem fazer nada, pensando como a vida tinha sido cruel para mim. Foi preciso aparecer Sam para me fazer sair da 
casca.
      Maggie levantou as sobrancelhas.
      -  Quando a vi na praia pela primeira vez, fiquei cheia de raiva. Mas ela era to...   to confiante, que no pude extravasar minha agressividade nela, embora 
quase o tenha feito,  no incio.  Depois, Chrissie, a governanta, me contou como os pais de Sam tinham sido mortos na frente dela, e ento percebi que no era a 
nica pessoa do mundo que tinha perdido a famlia de um modo trgico. Ela era uma menina, com muito menor capacidade do que eu para lidar com uma situao to triste. 
Isso me fez pensar em outras coisas, esquecendo meu egosmo.
      -  Jo! Jo! - Sam entrou correndo junto com as meninas. - Posso pegar minha boneca no carro?
      -  Eu a trouxe para dentro com a bagagem. Est no quarto. Elas mostram onde .
      -  Est bem. - Ela estava saindo, mas parou e virou-se para Jo, muito excitada. - Voc precisa ver a casa de bonecas.  linda! Vou pedir ao tio Jake para fazer 
uma igualzinha pra mim.
      -  Falando sobre o tio Jake - disse Maggie, quando as meninas saram -, como  ele? Alto, moreno e bonito, foi o que voc disse.
      -  Acho que isso o descreve bem. - Jo corou.
      -  E esse Jake Marshall  o responsvel por suas olheiras? - Maggie foi direto  raiz do problema.
      Incapaz de controlar as lgrimas, Jo balanou a cabea, num gesto de tristeza.
      -  Est assim to bvio?
      -  Talvez, s para mim. Mas logo desconfiei, quando voc telefonou que estava vindo para c. Seu tom de voz mudou, ao falar dele. Ficou! muito esquiva, e achei 
que devia haver algo de estranho. - Maggie sorriu. - Ento, se ele  alto, moreno e bonito, qual o problema?
      -  Tudo!  Tenho sido a mais idiota, a mais cega, a mais est-pida das.. .
      -  Quantos elogios! - brincou Maggie, - Voc deve estar apaixonada pelo sujeito.
      -  Aconteceu to rpido que nem percebi...  Oh, Maggie, eu o amo tanto! Mas ele... ele...
      -  Ele no sente o mesmo - terminou Maggie, e Jo concordou. - Ele disse isso?
      - No, exatamente. Ns... bem. .. ns no falamos sobre isso.
      -  Ento, no sei onde est o problema. Se o quer, meu bem, tudo que precisa fazer  piscar esses lindos olhos azuis. No h homem que resista.
      -  Gostaria que fosse tudo to simples. Sabe?, nunca senti uma coisa dessas por ningum. Nem mesmo por Mike - acrescentou, num sussurro. - Jake s tem que 
olhar para mim, e eu... - Parou, muito vermelha, e olhou para a xcara nas mos. - Ele  comprometido. Est noivo.
      -  Noivo? Entendo - Maggie disse, muito sria. - Sinto muito, meu bem.
      Ficaram em silncio por alguns instantes.
      -  O que pretende fazer? - perguntou Maggie.
      -  Vou sair de l.  tudo o que posso fazer. Neste momento, Jake est em Brisbane, procurando algum para tomar conta de Sam.
      -  Quer dizer que ele lhe pediu para ir embora?
      -  No. Ele...  ele pensa que vou voltar a trabalhar no teatro, Aaron apareceu e me ofereceu um papel numa pea. . .
      -  Aron Daniel? Como ele soube onde voc estava? - perguntou Maggie, muito surpresa. - Ele esteve aqui na semana passada, mas no falou nada sobre procur-la 
nem que estava pensando em t-la numa pea.
      -  Ele me disse que as meninas contaram onde eu estava.
      -  Tracy e Kerry?  Quer  dizer que Aaron  as  interrogou?  Meu Deus, que coragem! Oh, Jo, sinto muito ...  Nunca me passou pela cabea que devia avisar as 
meninas. - Maggie pareceu preocupada.
      -  Est tudo bem. Ns conversamos bastante e ele insistiu muito para eu ler a pea. Quer que trabalhe nela.
      -  E voc vai?
      -  Talvez. Pelo menos, terei uma desculpa para sair de l, preservando minha dignidade. O que resta dela, pelo menos - acrescentou.
      -  E o que me diz de Aaron? Sempre achei que, com um pouco de encorajamento, ele cairia a seus ps.
      -  Somos s amigos, Maggie. E agora no me conformaria s com uma amizade carinhosa, depois de ter conhecido o amor verdadeiro.
      -  Acho que tem razo. - Maggie suspirou e se levantou. - Bem, j est ficando escuro. Vamos dar uma olhada na famosa casa de bonecas e cuidar do jantar.
      Algumas horas com a irm fizeram muito para consolar Jo. Apesar de sofrer por causa de Jake, sentia-se feliz por ter vindo. Enquanto observava Sam se divertindo 
tanto, experimentou uma pontinha de remorso, ao perceber que o mundo da menina iria ruir de novo. Porm, Chrissie logo voltaria,  e Sam acabaria se esquecendo dela.
      Depois do jantar, telefonou para Aaron e lhe comunicou que tinha lido e gostado da pea, mas, apesar de todas as presses, recusou-se a aceitar o papel. Eram 
quase onze horas, quando escutaram um carro estacionando em frente  casa.
      -  Ben est chegando mais cedo do que eu pensava - disse Maggie, intrigada. - No sei por que no ps o carro na garagem.
      Uma msica suave tocava na vitrola, e Jo acomodou-se na poltrona, tentando manter a mente vazia.
      -  Jo? - disse Maggie da porta. - H algum procurando por voc.
      Levantou-se e ficou tensa, quando Maggie se afastou e a figura alta de Jake, to conhecida, to querida, entrou na saia. Ela empalideceu, completamente incapaz 
de falar.
      -  Bem - disse Maggie, alegremente -, vou deix-lo com Jo, sr. Marshall, enquanto fao um caf para ns.
      Quando Maggie saiu, Jo abriu a boca para cham-la, mas as palavras no saram e seus olhos voltaram rapidamente para Jake.
      -  O que...   o que est fazendo aqui? - perguntou, hesitante, notando o cansao no rosto moreno, o vermelho nos. olhos.
      -   tudo que tem a dizer? No que acha que estive pensando, enquanto voc estava aqui, fazendo visita? Sabe como... - Respirou fundo. - No sabe nada, droga! 
- murmurou, e, com dois passos resolutos, estava junto dela, puxando-a contra o peito forte, os lbios esmagando os dela num beijo que era um castigo.
      Vagarosamente, o beijo mudou, a paixo substituiu a raiva, incendiando os sentidos de Jo. Quando ele finalmente levantou a cabea, ficaram muito juntos, respirando 
com dificuldade, olhando-se nos olhos.
      Jo comeou a tremer, chocada pela intensidade de sua resposta, e os braos de Jake voltaram a apert-la. Ele fechou os olhos e seus lbios pousaram na testa 
delicada.
      -  Jo! Jo! Todos os minutos destes ltimos dias estive desejando t-la assim em meus braos, sonhando em beij-la, at voc gritar por piedade, querendo-a 
tanto que cheguei a sentir dor.
      -  Por favor, Jake! - Tentou empurr-lo. - No devemos.. . - Eu sei que no posso confiar em mim, quando voc est perto.
      Lembra-se daquela noite? - Seus lbios procuraram os dela numa carcia to perlurbadora que qualquer resistncia que Jo poderia oferecer desapareceu, enquanto 
ela se entregava quelas exigncias sensuais em completo abandono.
      As mos de Jake escorregaram por seus braos.
      -  Vou levar voc de volta comigo, Jo, e no vou deixar que v embora nunca mais. Se quiser continuar sua carreira, poderemos nos mudar para a cidade. Continuaremos 
juntos, decida o que decidir.
      -  Mas, Jake.. .
      -  No, deixe-me terminar - disse Jake, com a voz espessa pela paixo mal controlada. - Quando voltei para casa e vi que voc tinha ido embora sem deixar nenhum 
recado, pensei que ia ficar louco. Naqueles primeiros momentos de tortura, senti que alguma coisa tinha morrido dentro de mim. - Um estremecimento passou peto corpo 
de Jake. - Tentei dizer a mim mesmo que devia haver uma explicao lgica, que voc no teria ido muito longe com Sam, sem tentar entrar em contato comigo. Tentei 
ligar para sua casa na praia, para Chrissic. J estava ficando desesperado, sem saber o que pensar, quando me ocorreu que devia ter ligado para o hotel.
      -  Oh, Jake, sinto muito. Pensei que fosse direto para l, depois que voc e Lexie...  - A voz de Jo sumiu e uma sombra de dor passou por seu rosto. Procurou 
se libertar, mas Jake a abraou mais forte.
      -  No fique assim, Jo. Lexie no significa nada para mim.
      -  Como pode  dizer uma  coisa  dessas? Ela    sua  noiva.  No temos o direito. . .
      -  Lexie no  nem nunca foi minha noiva.
      -  Mas voc disse. . .
      -  Sei muito bem o que disse. - Afastou-se um pouco, passando a mo pelos cabelos sedosos de Jo. - E me arrependi no mesmo instante por deixar  voc  acreditar 
nisso.  Pensei  que  estava  sendo muito esperto. Achei que um pequeno subterfgio me serviria de escudo, porque estava me apaixonando por voc, Jo, de um modo como 
jamais havia acontecido com outra mulher, e tenho que admitir que na poca no morri de alegria por isso. No estava interessado numa ligao permanente. Com todas 
as outras, sempre foram alguns meses de prazer mtuo e depois adeus.
      Jo abaixou o olhar, no se atrevendo a pensar no que viria depois.
      -  Tudo isso foi antes de voc aparecer - continuou Jake, rouco. - Naquela manh na praia, quando me comportei de um modo abominvel, senti que tudo estava 
mudando.
      Jake levantou o queixo de Jo com a ponta do dedo, obrigando-a a olhar para ele. Deliberadamente, tocou a cicatriz, percorrendo-a suavemente com o dedo.
      -  Perdoe-me por ter sido to grosseiro. Sc  algum consolo, saiba que passei dias me recriminando, modo de remorsos. Preferia ter cortado minha mo a ter 
magoado voc daquele jeito.
      -  Por favor, no se desculpe. Voc no podia saber. ..
      -  Se no estivesse to cego, certo de que voc estava ali por causa de Sam, teria percebido que fugia de medo, e no por ser culpada. - Enxugou as lgrimas 
dela com os polegares. - Nos dias seguintes, fiquei pensando no toque de seu corpo, em seus braos. Pegava seu leno e procurava sentir o perfume de seus cabelos. 
- Jake puxou a cabea de Jo contra o ombro. - Eu a amo, Jo, e quero que case comigo. Farei tudo o que puder para faz-la feliz.
      -  Oh, Jake! - Passou os braos pela cintura forte.
      -  No vou dizer que ser um mar de rosas. s vezes, sou um monstro de mau humor, quando estou escrevendo, mas sei que vai dar tudo certo. - Seus dedos se 
entrelaaram nos cabelos suaves, deliciando-se com seu toque. - O que me diz? - Ele a afastou, o sorriso desaparecendo, ao ver a expresso de Jo.
      -  O caf est pronto - avisou Maggie, da cozinha, e logo depois entrou, sorrindo para eles, no parecendo notar a tenso que havia no ar. - A propsito, sou 
Maggie, a irm de Jo. Ela me falou muito sobre voc, Jake.
      -   mesmo? - Mediu Jo com o olhar, e ela se sentou na poltrona, antes que as pernas trmulas falhassem completamente.
      -  Sim. Bem, meu marido,  um f ardoroso de seus romances. Quer acar? - Maggie serviu o caf, conversando  vontade, nem um pouco desconcertada com a expresso 
sombria de Jake.
      Jo ficou segurando a xcara, incapaz de engolir a bebida quente, at que, a uma certa altura, Maggie bocejou de modo teatral e piscou para ela.
      -  Oh, Deus, estou muito cansada. Acho que est na hora de ir deitar. Voc me d licena, Jake?
      -   claro. - Ele colocou a xcara sobre a mesa e levantou-se.
      -  Continuem conversando. Se quiser passar a noite aqui, lemos um sof no escritrio. Ser um prazer t-lo conosco. - Maggie ia saindo da sala. - Foi um prazer 
conhec-lo. Boa noite. Boa noite, Jo.
      Com a sada de Maggie, houve um silncio pesado, at Jake se aproximar para ficar em frente  poltrona de Jo.
      -  E ento?
      -  Ento, o qu?
      Jo comeou a tremer, desejando a volta de Maggie para adiar tudo aquilo. Sua cabea girava com um milho de pensamentos torturantes. Como ansiava por se atirar 
nos braos de Jake, dizendo o quanto o amava, quanto precisava dele! Porm, havia ainda muito a ser dito, recordaes demais inibindo-a, e ficou sentada, torcendo 
as mos no colo, sem coragem de encar-lo.
      -  Jo, eu lhe pedi para ser minha esposa. Um simples sim ou no ser suficiente. Acho que no  esperar muito, ?
      Ela olhou rapidamente para ele, sentindo o corao se contrair, ao ver o rosto plido, a tenso que tinha tomado conta de todo o seu corpo.
      -  Sinto muito...   no  assim to fcil, Jake. - Sua voz foi pouco mais do que um sussurro.
      Ele se inclinou, pegou-a pelos ombros e a fez se levantar.
      -  Pensei que fosse muito simples. Se no quer,  s dizer.
      -  No  que no queira. Eu... eu simplesmente no posso.
      -  Jo, no importa o quanto tenha amado seu marido. Isso no  poder traz-lo de volta.
      Olhou para ele e tentou falar, mas no saiu nenhum som.  Uma   sombra de dor passou pelos olhos escuros. Ela levantou a mo, acariciando aquele rosto to amado, 
ansiando por ele, por seu amor,
      -  No, Jake, por favor, no fique assim. Ns... eu...  Mike e  eu no nos amvamos de verdade. Talvez no incio, no sei. Nosso casamento foi um erro, um 
erro terrvel! - Tentou continuar, mas sua voz sumiu.
      -  Ento, por qu, Jo? Peio amor de Deus, sei que no sou indi- ferente para voc... - Respirou fundo, procurando se controlar. -  Voc falou num tal de Jamie. 
 por causa dele?
      O rosto de Jo ficou muito plido.
      -  Jamie? - sussurrou.
      -  Teve um caso com ele, quando seu casamento comeou a fra-  cassar? Ainda o ama?
      Jo olhou para ele, completamente confusa.
      -  Um caso? - repetiu. - No, no! Pensei que estivesse sabendo. Disse que tinha lido sobre... sobre o acidente nos jornais.
      -   verdade. As manchetes no falavam em nenhum Jamie. No li as reportagens completas.
      - Jamie. .. Jamie era meu filho.
      Jake ficou olhando para ela, muito plido.
      -  Seu filho?! Ele tambm estava no carro?
      Ela balanou a cabea, e Jake, vendo sua dor, abraou-a carinhosamente, apoiando o queixo nos cabelos dourados.
      -  No poderia passar por tudo aquilo de novo, Jake. No poderia ter outro filho, passar pela agonia de imaginar. ..
      - Jo, toda nossa vida  uma loteria. - Afastou-a um pouco para poder olh-la nos olhos. - Temos que arriscar para poder viver.
      -  No posso, Jake. Eu o amo demais para envolv-lo no sofrimento. No entende? Tudo o que toco parece dar errado...  Mike, meu casamento, Jamie. Principalmente 
Jamie.
      Jake sentou-se numa poltrona e puxou Jo para o colo.
      -  Acho que  melhor me contar tudo desde o incio.
      Assim que ela comeou a falar, no parou mais. Foi como se uma barragem se arrebentasse dentro dela, fazendo toda a histria jorrar numa torrente. s vezes, 
percebia que no estava sendo muito clara, mas Jake no a interrompeu. Simplesmente, deixou que falasse, fazendo uma catarse, expulsando todos os fantasmas da mente. 
Ela falou sobre Mike, o noivado rpido, o casamento, um milho de pequenas coisas das quais nem imaginava que ainda pudesse se lembrar, abrindo-se de um modo como 
nunca fizera com ningum, nem mesmo com Maggie. S quando comeou a contar sobre o nascimento de Jamie  que passou a hesitar, e aninhou-se nos braos de Jake, a 
dor profunda demais, at para as lgrimas.
      -  Ele era to lindo, Jake!
      Contou como Mike havia sido radicalmente contra seu nascimento.
      -  Eu sentia que ele pertencia s a mim. Foi um erro,  claro, agora posso compreender, mas na poca... Eu me senti to culpada! - As lgrimas comearam a 
correr, silenciosas. - Algumas semanas depois,  me disseram  que  ele era completamente  surdo.  No  pude deixar de culpar a mim mesma.  Se tivesse ouvido Mike 
e feito o aborto.. . Oh, Jake, foi tanto sofrimento... Horas de desespero, de incerteza quanto  ao futuro...    por isso que  no quero...   no posso, . . E se 
houver outro como Jamie?
      -  Jo, escute-me. H um nmero enorme de coisas que podem sair erradas numa gravidez. No temos motivos para acreditar que acontecera de novo, mas, se ouver 
outra fatalidade, enfrentaremos o problema juntos.  um risco que todos temos que correr.
      -  Jake,   acho  que   no  sou  bastante  forte   para   me   arriscar novamente.
      -  Sou bastante forte por ns dois - disse ele, rouco, os lbios brincando com a ponta da orelha de Jo.
      -  Jake, por favor, no posso pr esse peso em suas costas. E no consigo pensar direito, quando faz isso.
      - Esse  um dos motivos por que estou fazendo. Na minha opinio, meu amor, voc tem pensado demais. De agora em diante, vou deix-la to ocupada que no ter 
tempo para ficar remoendo o passado. No importa o que o destino reservou para ns, vamos enfrentar tudo juntos. Teremos altos e baixos, mas os altos sero tantos, 
que os baixos no tero grande significado.
      Seus lbios procuraram os dela com tanto carinho, que Jo esqueceu a tristeza, reagindo com todo o amor que tinha por ele. Quando se separaram, ofegantes, Jake 
sorriu.
      -  Viu? Os altos no sero os melhores?
      -  Mas, Jake, estou com medo. Eu o amo tanto... Ele ps um dedo nos lbios dela.
      -  Psiu! De agora em diante, vamos nos concentrar s nos altos. Probo terminantemente que aconteam coisas ms. - Beijou-a quase com reverncia. - Este  
um novo comeo.
      Algum tempo depois, aninhada nos braos fortes de Jake, Jo murmurou, sonolenta:
      -  Acho melhor irmos dormir.  Ben vai chegar logo  e,  se Sam acordar com o barulho, pode ficar assustada, quando no me vir a seu lado.
      -  Hummm. - Jake beijou-lhe o  rosto  suavemente. - Tendo que me dividir entre Sam e voc,  melhor eu ir me acostumando a dormir menos.
      -  Jake!
      -  Ora, voc vai casar comigo, no? - perguntou, com um ar de brincadeira, apesar de a observar com uma expresso cautelosa.
      -  Sim - disse Jo, e ele respirou aliviado.
      -  timo.  Isso  vai  deixar  todo  mundo  sossegado.  Temos  que considerar que voc me deixou numa situao muito comprometedora. - Fez um ar de falsa seriedade.
      -  Eu?
      -  Sim, senhora. Onde j se viu, sozinha em minha casa! No pensou nos falatrios?
      -  Sam estava l - disse Jo, indignada. - Alm disso, ningum ficou sabendo.
      -  Ns ficamos.
      Ela deu uma risada e Jake sorriu, cheio cie satisfao. - Espero que Sam aceite - disse Jo.
      -  Pode estar certa de que, nesse aspecto, no teremos problemas. Desde o primeiro dia em que a conheceu, tem feito insinuaes, e das mais descaradas, sobre 
suas qualidades para ser a esposa ideal. No sei como levei tanto tempo para aceitar suas sugestes.
      Abafou um bocejo e Jo olhou-o, preocupada.
      - Deve estar exausto.  melhor irmos para a cama - disse, tentando levantar-se do colo dele.
      - Que mulher atrevida! Onde j se viu dizer uma coisa dessas!
      -  Voc sabe o que eu quis dizer. - Jo ficou muito vermelha.
      -  Claro que sei, sua bobinha. - Jake levantou-se com alguma relutncia e continuou prendendo-a entre os braos.
      Jo olhou para ele, um pouco tmida.
      -  O que o fez ter tanta certeza de que eu queria casar com voc? O que estou querendo saber. . bem, eu estava sendo assim to transparente sobre meus sentimentos?
      -  No, pelo contrrio. Eu s soube na noite do pesadelo. - Jake fechou os olhos. - Meu Deus, ainda no sei como consegui atravessar aquelas horas, segurando-a 
nos braos e no...  at de manh, peto menos. - Sorriu.
      -  Cheguei a pensar que voc s tinha se aproveitado de um instante disponvel - Jo passou-lhe os dedos pelo queixo forte e bonito.
      -  Foi o melhor instante disponvel de minha vida. Eu j estava chegando ao limite do sofrimento. No havia mais escolha: tinha que me levantar dali e deix-la, 
ou ficar e fazer amor com voc. Ento, voc deu aquele sorriso sonolento e a deciso saiu de minhas mos. Quando me disse que me amava. . .
      -  Quando foi que eu disse isso?!
      -  Aquelas palavras foram a msica mais doce que j ouvi. - Jake falou muito srio.
      -  Ento, eu lhe disse? Quando acordei e no o vi a meu lado, no estava muito certa do que havia dito. Estava tudo em meu pensamento, mas... - Jo fez uma 
pausa. - Quando o vi depois, voc estava to distante! No soube o que pensar.
      -  Eu sa porque no queria lhe causar embaraos.  Sam podia aparecer e fazer perguntas inconvenientes. - Jake balanou a cabea. - Sempre que tentei falar 
com voc mais tarde, Sam estava por perto.
      Para piorar tudo, Lexie apareceu. Cheguei a pensar em mat-la! Conhecendo aquela moa como conheo, no podia deixar que percebesse que no a queria l, seno 
teria ficado por um ms inteiro. Foram os dias mais longos de minha vida.
      -  Lexie me disse. . .
      -  Logo imaginei que ia falar um monte de bobagens. Nunca houve nada de srio entre ns.
      -  Ela me disse.. .  bem, mencionou a me de Sam.
      -  Vejo que Lexie no perdeu tempo! - Ele deu um suspiro, - Conheci Denise quando estava na universidade e me apaixonei perdidamente por ela. Eu  era muito 
jovem e inexperiente.  Pensei  que tambm sentisse o mesmo por mim, at o dia em que ela conheceu Dave, meu irmo mais velho. Foi amor  primeira vista para os dois, 
e casaram logo depois. Viveram muito felizes e nunca se arrependeram. Claro que meu orgulho levou uma sova. - Sorriu, com um ar brincalho. - Mas logo me esqueci 
de tudo. Fui amadurecendo, conheci muitas mulheres, tive muitas aventuras... Nunca culpei nenhum dos dois, Jo, apesar de no concordar com o modo como estavam criando 
Sam, deixando-a sempre com a me de Denise.
      Jo sorriu para ele.
      -  Talvez goste de saber que fiquei morta de cime.
      -  Entendo o que  isso. Quando Sam me contou, com tanta inocncia, que aquele sujeito, o tal de Daniel, tinha beijado voc, fiquei to transtornado que nem 
conseguia olh-la de frente. - Beijou-a docemente. - E quanto a isso, querida? Quer voltar ao teatro?
      Jo balanou a cabea, sem reservas.
      -  No. Mesmo antes do acidente, eu j tinha perdido toda a motivao. Foi uma fase de minha vida. Agora s quero ficar com voc e Sam.
      Os lbios de Jake tomaram os dela e depois ambos se encostaram um no outro, sonolentos. Ele suspirou.
      -  Bem, onde  que fica esse sof que sua irm me ofereceu? - perguntou, com uma careta. - Ser que d para ns dois?
      -  No.
      -  No... - gemeu, pesaroso.
      Quase dormindo, Jo acomodou-se na cama, ouvindo a respirao tranquila de Sam, e sorriu, tocando os lbios ainda um pouco inchados pelos beijos de Jake. Seu 
corao batia alegre.
      Ele estava certo: tinha que aceitar o risco, ou no teria vida, pois continuar sem Jake seria assim, sem vida.
      Sorriu novamente. Na manh seguinte seria o comeo. Ia comear de novo. Com Jake.
      
      
      
                                                                                                F I M
Uma vida marcada (Starting Over)                                         Lynsey Stevens
Bianca no. 161

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